Muito longo, muito curto

Revertendo o tempo (Braid)Ontem, diversos designers independentes de games se coordenaram para escrever em seus blogs sobre um assunto meio espinhoso: a duração dos games atuais e como certas resenhas às vezes utilizam de forma muito liberal a pecha de “curto demais” ao criticar um game.

Você pode ver uma lista dos artigos (em inglês) sobre o assunto no (excelente) Game Journalists Are Incompetent Fuckwits, uma página no Tumblr que reúne pérolas do jornalismo de games burro e parcial. Note, porém, que esta lista faz parte de uma coluna semanal para promover justamente o contrário – os momentos em que o jornalismo (ou, no caso, bloguismo) de games instiga uma discussão mais relevante.

E o que eu penso disso tudo?

TimeoutA posição da maioria dos designers-blogueiros é simples:

  • É melhor ter uma experiência ótima de três horas de duração do que uma de 20 horas com momentos criados apenas para estender a experiência;
  • Nem todos os games se prestam a questões de duração, especialmente os platformers, os de quebra-cabeça ou os francamente inclassificáveis;
  • Preocupar-se demais com duração não faz o menor sentido em outras formas de entretenimento: por exemplo, um conto não é intrinsicamente pior do que um épico de 1000 páginas. Então por que muita gente insiste em medir games pela mesma métrica?

E, em geral, estes designers-blogueiros estão corretos. Uma boa obra é uma boa obra, independentemente da duração. E há diversos games, sim, que tentam estender artificialmente a experiência empurrando tarefas repetitivas ao jogador sob a desculpa de que “é preciso esforço para subir de nível”, entre outras coisas.

Capa de Silent Hill: Shattered Memories (Wii)
Este jogo valeu o Wii

Ao ler tais artigos, me veio imediatamente à cabeça o último Silent Hill, Shattered Memories, que pode ser terminado em 8 horas e cujo único replay value é tentar ver os outros finais – e mesmo assim eu não me arrependo de tê-lo adquirido, e não vou me desfazer dele por nada neste mundo.

Tudo muito bonito – mas os designers-blogueiros estão “esquecendo” de outras coisas, também:

  • Games não têm as mesmas limitações de extensão do que a literatura ou o cinema, como o colunista (e indie designer) da EDGE Sean Murray apontou muito bem;
  • O custo padrão de um game para o consumidor final (US$ 60) é 3 ou 4 vezes maior do que um livro comum (US$ 15-20) ou um ingresso de cinema (idem), e isso leva o consumidor a querer mais e mais;
  • Existe um público bem consolidado para os gêneros em que duração importa pouco, como os platformers e quebra-cabeças citados anteriormente;
  • Há resenhas e resenhas, e algumas taxam um game de “muito curto” deixando claro que isso acontece porque o arco narrativo pareceu inacabado ou com “buracos” na trama (algo muito comum em games modernos), o que é uma preocupação muito justa e tem tudo a ver com a experiência final.

Somando tudo, acho que sei o que está acontecendo. São duas forças antagônicas (e um tanto preguiçosas) batendo de frente:

Quebrando o controle do console de tanta raivaDe um lado, críticos “profissionais” tascando a pecha de “muito curto” a qualquer game que não dure pelo menos 10 horas só para garantir a simpatia de consumidores que acham games caros (e eles SÃO caros). O problema é que duração extra artificial é tão bodeante quanto ver um game terminar cedo demais.

Do outro, designers independentes que rejeitaram “o sistema” estão se sentido pressionados por não terem como oferecer aos consumidores um produto que dure por 10 horas ou mais, como os grandes estúdios oferecem, criando tudo sozinhos ou com pequenas equipes. Compreensível; mas nem por isso é necessário generalizar para o outro lado e defender que games sejam curtos à toa, só porque uma parcela da audiência (eu incluso) não tem mais horas livres (e nem saco) para jogar o mesmo game por tanto tempo.

Portal (PC/PS3/X360)No final das contas, o que está em questão mesmo é aquilo que nutre a existência do blog Game Journalists Are Incompetent Fuckwits: incompetência jornalística. E, ainda assim, como Sean Murray apontou, games como Braid, Portal e Limbo receberam aclamação quase universal mesmo sendo curtos; então os designers indie estão meio que chorando mais do que devem.

Vamos ver como esse papo se desenvolve.

8 comentários sobre “Muito longo, muito curto

  1. Não ligo realmente para a duração de um jogo desde que ele ofereça uma experiência completa. E por experiência completa eu entendo que seja um jogo que te entregue tudo o que o mesmo oferece em primeiro plano.

    Tipo, um FPS hoje em dia deve entregar uma interessante campanha Single Player, um bom multiplayer com boas opções para todos os tipos de jogador, uma história no mínimo convincente (apesar de que vários FPS ulimamente têm se esforçado bem mais nesta parte) e etc.

    Um Survival Horror como Silent Hill deve oferecer uma boa história, uma mecânica de jogo e combate no mínimo convincente e tensão o tempo todo.

    Não importa se o jogo tem 5 ou 20 horas, desde que ofereça ao jogador uma experiência completa. Bioshock por exemplo entrega uma experiência completa de jogo e eu particularmente acho bem grandinho para os padrões atuais… Call of Duty Modern Warfare também entrega uma experiência completa apesar de ser muito menor em tempo de jogo que Bioshock. E ainda temos de contar com o multiplayer do mesmo que dizem ser fenomenal (Ok, não sou o tipo que fica jogando online…).

    Acho esta discussão da mídia um tanto quanto sensacionalista e mesquinha. A mída “gamística” chegou a um ponto chave, pois como os games evoluiram através dos anos eu acredito que a mídia em torno dos games não amadureceu ainda. Muita gente está preocupada demais na média do jogo no Metacritic, ou se um jogo é exclusivo de uma plataforma ou outra, ou se os fanboys e istas de um fórum estão se digladiando por besteira e etc.

    Em algum momento eles vão se dar conta que o que realmente importa é a diversão.

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    1. Pois é, eu tive a mesma impressão – que a discussão foi gerada por mesquinharia de parte a parte, jornalistas e designers indies.
      Estive pensando em fazer uma campanha com banners cobrindo dois terrenos: guerra de consoles e o suposto “hardcore gaming”. Em ambas, o ponto seria “Eu jogo games para me divertir” ou algo assim. Por enquanto a ideia está apenas amadurecendo – mas pode ter aparecido um canal para destrinchá-la em breve.

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  2. Pingback: Play Room Games

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