Mickey, videogames e o fetiche da maldade

Scrapper Mickey (Epic Mickey, Wii)Acabei de ler mais um preview/matéria sobre Disney’s Epic Mickey (desta vez, na NGamer Brasil) e, enquanto passava por cada parágrafo, uma vozinha no fundo da minha cabeça não parava de perguntar: “OK, quando é que o autor vai lamentar o fato do game não ter mais um ‘Mickey malvado’, como havia sido dito em etapas anteriores de desenvolvimento?“.

Por um momento, parecia que a NGamer não iria sucumbir à tentação de reclamar (especialmente porque a revista é, disparado, a que costuma se importar menos com este tipo de coisa mesquinha). Puxa, será? E o preview seguia: background do game, cenários, coelho Oswald, seções de plataforma 2D, mais de um caminho, uso da tinta e do solvente, e… Pronto, lá estava o chororô da ausência do Mickey Mau. Quase no final, mas lá estava. Maldição!

Só que, desta vez, uma ficha me caiu. Por que diabos é tão importante assim ter uma versão malvada do Mickey?

Mickey DUMAL
Pronto, tá aí o Mickey DUMAL. Satisfeitos? Agora ‘bora jogá

No texto da NGamer, logo após a lamentação, pode-se ler um pouco sobre como o uso de tinta (que cria e modifica coisas) ou de solvente (que as apaga e distorce) afeta o mundo do jogo e a progressão da história; infelizmente, não era possível medir a real extensão destes recursos em uma demonstração de apenas 10 minutos. Minha segunda pergunta imediata foi: como essa parte do jogo ganha menos destaque na mídia de games do que a mera possibilidade de ver um Mickey com cara de mau?

É difícil para mim entender isso. Vejam, eu comecei a acompanhar de perto as notícias sobre o desenvolvimento de Epic Mickey por três razões em especial:

  • o uso do Wii Remote como pincel (ah, Okami, nós te amamos)
  • o cenário montado a partir de material rejeitado pela Disney no passado
  • a possibilidade intrigante de termos um jogo de plataforma/aventura no Wii que responde às suas ações, mais ou menos como em… Deus Ex!?!?

É uma combinação irresistível. Com essas possibilidades, que droga de diferença faz se o Mickey tem as sobrancelhas arqueadas ou não?

Mickey resolvendo problemas com o pincel (Epic Mickey, Wii)
Nada se cria, tudo se pinta

É claro que outros fatores acabam dando corda a toda essa lamúria. Afinal, trata-se de um jogo da Disney, o que já faz uma série de gente com “senso crítico” sacar as palavras-de-ordem “sanitização” e “censura”. Além disso, o game está sendo conduzido pelo autor do seminal Deus Ex, um game que de suave não tinha nada; com o cartaz que o tal de Warren Spector tem, qualquer ideia dele contestada por qualquer produtora vira notícia instantânea. Que esta produtora seja a Disney só potencializa a coisa toda.

Isso dito, vamos combinar que há muito exagero nessa história toda. O próprio Spector já deixou claro que, de resto, o game está saindo exatamente como pretendia. Bem ou mal, ele está usando material rejeitado e antigo da Disney, o que só prova que o game não é resultante de coerção criativa – e, principalmente, que Epic Mickey não está aí só para promover o personagem e o merchandising atual.

Mickey com raiva (Epic Mickey, Wii)
Hey, people, deixem o rato em paz! Afinal de contas, o rato é um bom rapaz!

E mais importante ainda: por que diabos estamos exigindo mais de Epic Mickey do que o fazemos de outros games? Nunca vi ninguém implorando à Nintendo que faça um Mario malvado, ou à Kojima Productions que transforme Solid Snake em um assassino em série, ou que a Capcom crie uma versão sádica do Mega Man. Por que então faz tanta diferença termos ou não um Mickey “viciado em solvente” fazendo caretas a la Kratos?

Como sempre acontece nessas horas, vou ser direto e falar logo de uma vez: isso tudo é um fetiche típico de adolescente, e ainda por cima mal disfarçado. É impressionante como muitos gamers (e críticos e jornalistas e desenvolvedores, que também foram somente gamers um dia) se escoram nesse tipo de coisa para provarem a si mesmos que não são mais crianças, e que “conseguem lidar” com um ícone da infância sendo deturpado – mesmo que por nenhum motivo aparente além do simples prazer de deturpá-lo.

Gente, o game te dá escolhas. Se o cenário for tão maleável às decisões do jogador quanto foi prometido, ter um Mickey claramente “malvado” poderia até soar tatibitate, previsível, ou binário demais. Não há a menor necessidade disso, pelo menos não a princípio. Sem jogar o game não há como saber. Além do mais, lembrem-se de Bioshock e da decisão de salvar ou matar cada Little Sister: o que parecia algo forte no início acabou se tornando uma escolha bem binária na continuação da narrativa, e com poucas consequências significativas a despeito da escolha que o jogador acabasse fazendo.

Se você quiser assumir essa ideia de Mickey Malvado como um mero fetiche, tudo bem – eu também acharia engraçado e divertido ver um Mickey assim. Só que não em Epic Mickey, que até agora parece ter muito mais para oferecer do que a mera satisfação de um fetiche. Para isso existem trocentos jogos, e todos com personagens mais apropriados.

Vão jogá-los, por favor, e deixem Epic Mickey em paz na sua sutileza.

Epic Mickey (Wii)

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