Resistance 2: lutando contra a frieza dos FPS modernos

[Insira aqui o nome de quase qualquer jogo de tiro em 1ª pessoa]
Que jogo será este? Parece... Qualquer um
Em um artigo publicado aqui há algum tempo, sobre games consagrados de PS3 que estava deliberadamente evitando, mencionei minha reticência com jogos de tiro em primeira pessoa (FPS) modernos. Naquele momento, a minha preocupação era retornar ao prospecto de jogar tais games sem um dispositivo apontador (como um mouse ou o Wii Remote) em troca de pouco mais do que gráficos em alta definição. É claro, estava ciente que games como Call of Duty investiam um pouco mais na narrativa do que o normal – mas eu já tinha Modern Warfare: Reflex Edition para Wii, então para quê iria investir em mais um CoD no PS3?

Tela de Unreal Tournament (PC)
Ah, a diversão do tiroteio em gravidade baixa...

O que faltou dizer foi que, mesmo no PC e antes de ter um Wii e um PS3, nenhum FPS tinha capturado realmente a minha atenção desde Unreal Tournament. Halo (o primeiro), Medal of HonorWolfenstein – experimentei ou vi todos estes e nunca cheguei nem perto de terminá-los, muito menos gastar as N horas online ou em LAN que gastei com Unreal. E até alguns dias atrás, não tinha certeza exatamente do porquê.

Até pegar de última hora, em uma troca com um dos leitores deste blog (alô Silver-Fangs!), um despretensioso game exclusivo de PS3 chamado Resistance 2.

A troca envolvia um bando de livros de RPG (da linha Mundo das Trevas) por games usados. Já tinha escolhido Bioshock 2, Prince of Persia (o de 1998), Dark Sector e Demon’s Souls. E na lista de games disponíveis havia um que não conhecia, Resistance 2. Uma rápida checagem na resenha em vídeo do Gamespot me convenceu de que talvez valesse a pena arriscar, já que ainda não tinha nenhum FPS no PS3 e este parecia diferente – além do quê, era em uma troca, e não em dinheiro vivo.

Por coincidência, Silver-Fangs também estava cogitando pegar mais dois livros oferecidos, então a troca foi fechada. E no final das contas, de todos os jogos do bolo, o que mais me cativou de primeira foi justamente Resistance 2. (Demon’s Souls é melhor, na verdade, mas ele exige uma dedicação tal que só pretendo conferi-lo direito quando terminar um longo trabalho extra que estou fazendo e, assim, tiver mais tempo livre).

E por quê o game me prendeu tanto? No início, não sabia exatamente o motivo. Até que me caiu a ficha: Resistance 2 não é um FPS extremamente sério, e com isso desafia bem sutilmente algumas convenções do gênero.

Tiro na Segunda Guerra Mundial
Pode ser bonito, mas toda trincheira é igual

Em geral, se reclama dos FPS’s ambientados na Segunda Guerra, que existem aos montes. Há também o foco excessivo em excelência gráfica em detrimento de inovações, além da resultante falta de cor e direção de arte repetitiva, seja em FPS’s de guerra convencional ou nos futuristas. Mas uma coisa que vejo poucos críticos mencionarem é a frieza dos mundo de jogo dos FPS’s atuais, mesmo aqueles com boas narrativas. E, convenhamos, um dos atrativos principais dos clássicos do gênero – desde Wolfenstein 3D até Unreal Tournament – era justamente abrir espaço para risadas e/ou bizarrices, seja na campanha principal ou nos modos multiplayer.

Resistance 2 quebra sutilmente cada um destes fatores, especialmente o último. A narrativa se passa em uma realidade alternativa, na qual um vírus alienígena infecta a Terra e serve de base para uma invasão aberta – isso em plenos anos 50. A raça humana resiste incorporando parte da tecnologia alienígena e até mesmo pesquisando mutações dos vírus para a criação de supersoldados. O resultado é um cenário bizarro, com elementos de Fallout 3 (pré-destruição completa do mundo), Aliens e Call of Cthulhu (a raça alienígena, os Chimera, já havia habitado este mundo há milhares de anos).

Alien: a Ressureição
Hale tem zóios vermelhos, Ripley tem sangue nos zóio

Isso não se traduz em risadas, mas leva a momentos em que o ritmo do game toma direções inesperadas para em um FPS. Por exemplo, há momentos em que se passa de um checkpoint a outro sem ver um inimigo sequer – e embora isso possa parecer enfadonho, lembre-se de que estamos lutando contra alienígenas, e tais momentos de vazio acabam gerando uma tensão comparável à de um bom filme de terror. (Aliens em especial dá as caras quando o protagonista Nathan Hale e seus companheiros de pelotão se infiltram em uma nave alienígena – os corredores claustrofóbicos, os tubos de ventilação, a alternância entre silêncio e trilha sonora em crescendo, o medo constante de topar com um alien surgindo de repente na sua cara… Está tudo lá).

Outro ponto é o design das armas. Em geral, FPS’s se preocupam demais com viabilidade e realismo. Não é o caso de Resistance 2; com acesso a tecnologia alienígena, o game pode se dar ao luxo de incluir armamentos únicos, como a pistola Magnum que atira balas explosivas de efeito retardado (basta apertar o botão de tiro secundário que elas explodem onde estiverem) ou o rifle Auger, que dispara energia através de objetos sólidos (e se isso parece “roubado” demais para você, saiba que a arma é alienígena – ou seja, será constantemente usada contra você também. Adeus cobertura!).

Monstrão a la Godzilla de Resistance 2 (PS3)
E você aí achando que só Tóquio e sua cidade no Sim City sofriam com monstrões como esse...

Resistance 2 também não tem medo de usar chefes de fase e, principalmente, de mexer com a escala e o comportamento deles. Mesmo na campanha para um jogador (há também uma cooperativa online, além dos previsíveis modos competitivos), você verá desde monstros colossais que não podem ser vencidos com armas de calibre regular até um enxame alienígena que precisa ser “guiado” e neutralizado – quase como se fosse parte de um quebra-cabeça em um jogo de aventura, e não um inimigo em um FPS. Alguns chefes aparecerão de forma bem evidente muito antes do jogador ter a chance de enfrentá-los, enquanto outros serão ouvidos somente no final, à medida que o jogador procura freneticamente por eles à sua volta. A única coisa em comum entre todos os chefes é que simplesmente enchê-los de balas e desviar-se deles nunca será o suficiente.

A vida nada tranquila nos subúrbios de Resistance 2 (PS3)
Será que a prefeitura não vai fazer nada contra esses vizinhos barulhentos?

A mesma inteligência na hora de gerar tensão foi aplicada aos cenários. A narrativa é um pouco sacrificada para que o andamento do game leve o jogador de um canto a outro do mundo, mas esse sacrifício dá frutos nos cenários distintos visitados: florestas densas, edificações humanas, esgotos, desertos, estações espaciais, subúrbios abandonados pós-invasão e o interior de construções alienígenas. Mais interessante ainda é o estilo artístico – nada de fotorrealismo aqui, e sim de hiper-realismo, em que a exuberância de cores e traços é mais importante do que “parecer de verdade”. O mesmo vale para as animações e efeitos sonoros, que dão um ar quase camp ao jogo – e são mais agradáveis do que as realistas, porém ensurdecedoras, explosões de um Battlefield: Bad Company.

Nathan Hale, protagonista de Resistance 2 (PS3)
Tira essa roupa preta que você não é chimera, porra!

Juntando tudo, você tem um FPS que, surpresa!, não procura embasbacar o jogador com sua excelência técnica e sim com o fluxo da aventura – algo que deveria ser prioridade mas que, por algum motivo, tem ficado para trás em jogos de tiro modernos, incluindo alguns em terceira pessoa. Mesmo o final da narrativa demonstra uma preocupação incomum, ao usar um truque antigo de roteiro cinematográfico: quando a trama principal é estabelecida, você imagina o que vai acontecer no final, mas passa o tempo inteiro duvidando que vá acontecer mesmo – o que só mantém a curiosidade de continuar jogando, mesmo com uma história sem muito brilho.

Fica aqui a esperança que mais jogos do gênero juntem-se a Resistance 2, Bioshock, The Darkness e outros, e resistam à invasão de seriedade e realismo excessivo promovida por desenvolvedoras sem imaginação.

5 comentários sobre “Resistance 2: lutando contra a frieza dos FPS modernos

  1. Fábio, confesso que não me atraiu tanto assim o Resistance 2. Joguei a campanha e gostei da história, mas só..

    Que bom que você gostou!

    Mas por falar em FPS você viu o trailer do Bioshock Infinite?
    Parece que vem coisa boa por aí….

    Abraço!

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    1. Bom, não é que tenha achado Resistance 2 revolucionário, fantástico nem nada. É só que, para um FPS, tenho a impressão que os desenvolvedores evitaram quase todos os maiores clichês e fatores previsíveis do gênero.

      Eu vi o trailer, e fiquei ao mesmo tempo maravilhado e preocupado. Acho legal que os temas de Bioshock (distopias, objetivismo Randiano, ambição humana etc.) passem a ser associados a uma marca Bioshock e não a um cenário específico (no caso, Rapture, a cidade submersa). Como bem disseram no Gamespot, seria transformar a marca Bioshock em algo parecido com a marca Final Fantasy – no sentido de que cada jogo novo não é necessariamente no mesmo ambiente e uma sequência direta, e sim uma experiência nova em um universo mais ou menos pré-definido.

      Por outro lado, fazer isso direito sem parecer caça-níqueis é um desafio e tanto. Eu acredito que vá dar certo – ultimamente tenho notado que todo game publicado pela 2K me agrada por alguma ousadia, desde The Darkness a Call of Chthulhu: Dark Corners of the Earth, passando é claro por Bioshock. (Falta conferir Borderlands). Mas é complicado.

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