Tilt: Classificação – M de coMercial iMaturo

Tilt é uma seção recorrente deste blog onde matuto um pouco sobre as tendências atuais que mais me incomodam no mundo dos games, como certos mitos de design que se perpetuam desnecessariamente. Se um determinado jogo adotou um recurso só porque está na moda, é aqui que irei comentar – ou melhor dizendo, reclamar.

Estes dias, o departamento de marketing da EA mais uma vez aprontou mais uma das suas (quem se lembra da campanha de Dante’s Inferno?) com um comercial para Dead Space 2 chamado simplesmente “Sua mãe odeia Dead Space 2“. Não vou reproduzi-lo aqui para não dar mais audiência diretamente – basta procurar no YouTube ou no seu portal de games preferido, seu preguiçoso – mas basta dizer que ele se baseia em uma ideia simples: a de que mães de jogadores terão medo e repulsa das cenas do jogo de horror espacial; e, por algum motivo, isso tornaria o jogo legal, mano. Da hora! Muito lôco!

Sua mae odeia Dead Space 2E onde está o problema em mostrar diversas mães horrorizadas com Dead Space 2? Afinal, não é surpresa nenhuma que elas não estejam acostumadas ao tipo de ação sangrenta exibida no jogo, certo? Claro. Mas a questão é… Que público essa campanha pretende atingir? Que público ainda busca opinião de suas mães, nem que seja para incomodá-las? Em suma… Quem a EA acha que vai jogar Dead Space 2, de acordo com este comercial?

Rated M for Mature (Classificação: M de Maduro)

Saindo de casaDead Space 2, como a maioria dos jogos voltados para os jogadores entusiastas dos consoles HD de última geração, foi classificado pelo ESRB, órgão americano da própria indústria de games, como rated M – a categoria mais alta, que significa “recomendado para maiores de 17 anos”. Isto é, adultos. Em tese, pessoas que já estão pelo menos na faculdade, quando não trabalhando. Vale lembrar que, nos Estados Unidos, a grande maioria dos estudantes universitários não mora na casa dos pais ainda, e sim em repúblicas estudantis – é um importante rito de passagem à vida adulta na cultura americana – e que, em qualquer lugar do mundo, jovens adultos que trabalham provavelmente o fazem para sair de casa, também.

O que eu quero dizer  com isso é que Dead Space 2, como um jogo rated M, é recomendado em grande parte para quem não mora mais com os pais ou está se preparando para sair – e, se tiver um pingo de maturidade, tem mais o que fazer do que mostrar o jogo para a mãe, por qualquer motivo.

Moleque birrentoA campanha da EA não se alinha a essa lógica. De acordo com a propaganda, o fato de fazer uma mãe odiar o jogo o torna bom e adequado para o filho. Quem costuma usar esta lógica simplista? Crianças, claro. Quem mais? Adolescentes na fase crítica de rebeldia eu-não-pedi-pra-nascer-porra! E quem mais… Ah. Adultos que ainda moram com os pais e sentem algum prazer em ver sua mãe assustada/enojada? Que espécie de adulto é esse? Que estereótipo isso invoca?…

… Oh. Nerds gordos sebentos que vivem no porão da casa dos pais?

Acham que estou exagerando? Não sejam ingênuos. Os caras do marketing da EA sabem exatamente quem eles querem atingir, e gamers “hardcore” de porão são parte essencial da campanha, assim como crianças e aborrescentes que não deveriam adquirir um jogo rated M.

A indústria atira no próprio pé

O irritante, no caso, é que já dá para imaginar a reação dos marqueteiros da EA, dos fanboys de Dead Space e dos gamers entusiastas de porão: “é só uma brincadeira”, “não é para levar a sério”, “é só para chamar a atenção”, blá blá blá. O que, em grande parte, é verdade. Mas nada disso alivia o fato de que a campanha é de mau gosto por usar mães de verdade (ou sacana por usar atrizes e divulgar o contrário, tanto faz), por propagar estereótipos e, ainda por cima, por ser bastante contraproducente para a imagem dos videogames e seus jogadores – e talvez na hora mais errada possível.

A lei do Schwarzenegger
CHEGA DE VIOLÊNCIA! (porque hipocrisia pouca é bobagem)

Talvez vocês tenham esquecido, mas nos últimos seis meses, tivemos uma lei de proibição da venda de jogos para menores chegando à Suprema Corte americana – capitaneada pelo governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger – além de projetos semelhantes e mais restritivos ainda no Brasil. Boa parte da argumentação dos defensores de tais leis tem justamente a ver com a (suposta) ineficácia da classificação indicativa em cada país, seja ela a da ESRB, seja a do Ministério da Cultura macunaíma.

Nos Estados Unidos, é comum grandes cadeias se recusarem a vender jogos rated M para menores de idade… Mas ainda há as lojas de bairro, as locadoras que revendem usados, o eBay e os sites de comércio eletrônico, todas alvos em potencial de adolescentes desesperados para ver o desmembramento estratégico em Dead Space 2. Ainda assim, deveria ser responsabilidade dos pais monitorar o que os filhos jogam. A própria indústria conseguiu emplacar o ESRB com o discurso de que ela mesma é capaz de informar os pais e facilitar o trabalho deles.

Agora se coloque na posição de uma mãe que “comprou”  este discurso e que usa o ESRB para avaliar o que seu filho anda jogando… E de repente, você vê um comercial de game que te retrata como uma medrosa histérica e insinua a seu filho que seu medo garante que o jogo é cool. Ainda por cima, trata-se de um jogo rated M, e não de um Pokemon da vida.

Eu jamais confiaria novamente na indústria de games – e, por tabela, no ESRB – depois dessa.

Clubinho da imaturidade

Não é à toa que casos de auto-sabotagem como esse ainda acontecem na indústria de games. Na área de entretenimento, o videogame ainda é o irmão caçula, e boa parte do setor age exatamente como uma criança birrenta. Como o site Boing Boing bem apontou (em inglês), os entusiastas de jogos eletrônicos adoram esbravejar contra qualquer comentário, estudo ou pesquisa “de fora” que conteste a viabilidade dos games como forma de arte, entretenimento sadio ou diversão cerebral… Mas quando uma resenha trata games como arte, a reação dos mesmos gamers é dizer “é só um jogo”. Uma dinâmica parecida ocorre com a relação entre garotas e videogames: o estereótipo de que elas não se interessam por nada que não seja Farmville e The Sims está tão entranhado, inclusive entre as próprias meninas, que se torna uma profecia autorrealizável (“garotas de verdade não jogam games” – em inglês).

Beavis and Butthead, gamers
Eis dois gamers quando não estão a um fórum de distância

E o que a campanha de Dead Space 2 tem a ver com isso? Tudo. Jogadores não gostam de ler, em qualquer lugar (e especialmente em um blog de games como esse) que eles são nerds, gordos, anti-sociais e imaturos. Porém, no santuário da convivência entre eles mesmos – nas salas de chat, no multijogador online, nos fóruns dos portais de games – muitos se comportam exatamente como adolescentes excitados. Todo novo trailer de jogo deixa o povo fora de si, como se não pudessem viver sem aquele jogo. Toda semana tem algum grande portal, blog ou site de games publicando fotos de concurso de cosplay… E sempre das personagens com menos roupa de todas. Todo dia sai alguma lista de “Top 10/20/666 Alguma Coisa”, e há pouca coisa mais adolescente do que criar listas de top 10 das coisas mais esdrúxulas possíveis.

Em resumo: se algum colunista de um grande jornal apontasse que gamers avaliam jogos pelo potencial de incomodar suas mães, um monte de gente gritaria “preconceito!”, “generalização!”… Mas quando a campanha de um jogo insinua exatamente a mesma coisa, aí tudo bem.

E isso é encorajado pela indústria, que é um tremendo Clube do Bolinha (e não só no sentido de “menina não entra”). Não são meros jogadores que escrevem textos, projetam os games, os produzem e os distribuem. Hoje em dia, todos estes são profissionais formados e experientes em suas áreas de atuação… E que foram para indústria dos games exatamente para indulgir em comportamentos que jamais seriam aceitos em outros setores, ou para elaborar trabalhos/projetos/artigos que jamais passariam pelo crivo de um CNN, uma multinacional ou mesmo uma cadeia de lojas de departamentos. Quando isso redunda em ambientes de trabalho mais criativos, inovação formal e agilidade, ótimo. Porém, com frequência, o que temos são relatos de jornadas de trabalho exaustivas, games que demoram anos e anos para ficarem prontos e mesmo assim apresentam falhas graves… E campanhas como a de Dead Space 2. Isso sem nem entrar no mérito do excesso de testosterona em alguns jogos.

Há saída? Talvez daqui a alguns anos. É o tipo de coisa que só muda com o passar de gerações. Por enquanto, vamos ter que nos conformar com a ideia de que jogo bom é aquele que deixa as nossas mães com nojo – e com o estigma de que videogames “maduros” são, na verdade, festivais de violência e tripas sem sentido (mesmo quando há algum) feitos para crianças e adolescentes consumirem escondidos. Parabéns e obrigado, EA.

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