Melhores de 2018: Categorias Gerais e Jogo do Ano

Depois das categorias por gênero e por plataforma, agora é a vez das finais, aquelas que cobrem aspectos intrínsecos dos jogos como música, visual, jogabilidade e afins, além de coisas mais abstratas como níveis de surpresa e decepção – além, é claro, do pior e do melhor jogo do ano, com direito a um Top 10 numerado nesse último caso.

Categorias GeraisNão há muitas regras aqui, apenas o que eu gostei ou desgostei mais, dependendo da categoria. Nenhuma premiação/lista do tipo é 100% subjetiva ou objetiva, claro, mas desde que iniciei este blog, talvez esses Melhores de 2018 sejam os mais pessoais que já elaborei. O ano certamente foi de desapego, em que finalmente – depois de anos e anos de dedicação e gastança – resolvi que era mais feliz extraindo o máximo que pude de um punhado de jogos do que tentando me manter “por dentro” de todos os lançamentos “importantes”. Com 45 anos na cara, já passou da hora.

Inclusive, o “vencedor” da primeira categoria quase escapou da “honra” exatamente porque estava me rendendo à empolgação alheia. Mas estou me adiantando…


Maior Decepção – Red Dead Redemption 2 (PS4/XB1)

Quando escrevi aqui no blog sobre Red Dead Redemption 2, tentei deixar claro que o considerava apenas uma “leve” decepção. Hoje, um mês e meio depois, já acho que estava mentindo para mim mesmo, tentando ser “racional” em respeito à empolgação dos outros. A verdade é que a simples ideia de colocar o disco do jogo no PS4 agora me faz sentir como uma criança sendo forçada a comer jiló porque disseram que faz bem. Sério, não é hipérbole. Nem sei como ainda não vendi o jogo.

E como essa sensação bizarra surgiu, justo com um jogo da Rockstar, e na sequência do histórico Red Dead Redemption ainda por cima? Boa parte dos motivos estão no artigo do link acima, mas o principal hoje em dia é o seguinte: eu gosto de jogos que sabem o que são. Não tenho problema com um Detroit ou um walking simulator da vida abrir mão de praticamente toda a jogabilidade para se concentrar na história ou em parecer um filme. Também não tenho problema com o inverso – vide Monster Hunter: World, que não tem desenvolvimento algum de personagem porque estava mais preocupado em entregar a melhor jogabilidade possível. Agora, tentar ser um filme interativo, um pseudo-simulador lento e chato em mundo aberto e ao mesmo tempo atochar controles datados, tudo isso sem entregar momentos insanos e/ou épicos para não comprometer a “autenticidade”? Isso não cola, ainda mais quando a própria empresa já tinha achado um equilíbrio bem melhor (sem o “simulador” no meio) no jogo anterior, anos atrás.

A narrativa pode até ser fora de série, mas jamais vou saber isso se preciso me forçar a aturar o jogo chato associado por dezenas de horas. A Rockstar errou em todas as outras prioridades, algo que não esperava mesmoGrand Theft Auto V seguia a fórmula básica da série, mas pelo menos a jogabilidade tinha refinamentos em comparação com os jogos anteriores. Ainda por cima, existia uma novidade real em termos de estrutura e sistemas, que alimentava tanto a jogabilidade quanto a narrativa: três protagonistas intercambiáveis ao invés de um. Quais são as novidades de Red Dead Redemption 2? Ter mais tarefas chatas e lentas para fazer em nome da “simulação”? Poder parar para antagonizar ou cumprimentar qualquer NPC? Um online que é praticamente igual ao de GTA, só que com outra skin? O lance dos NPCs pode até incrementar o lado narrativo e a imersão, mas ao custo da diversão do jogo em si, assim como as outras pequenas mudanças. É aí que está o problema: a Rockstar – justo ela – sacrificou a série no altar da “imersão”. E esse erro está além da redenção: é apenas decepção.


Maior Surpresa – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

O mais recente e bem-sucedido Monster Hunter foi um dos meus jogos mais aguardados da E3 em que foi revelado (2017), mas quem ler o trecho com atenção perceberá que eu apenas esperava que o jogo deixasse a série mais acessível. Eu só queria mais um bom jogo para dividir com os amigos online. Se você voltar no tempo e contar para o Sooner do passado que World se transformaria no jogo que mais me divertiu na vida, iniciando uma verdadeira obsessão pessoal pela série que duraria o ano inteiro e além, eu provavelmente daria risada da sua cara.

E isso leva em conta apenas a dimensão pessoal da coisa. World também surpreendeu por conta própria, traçando uma série de conquistas inéditas tanto para a série, quanto para a Capcom. O jogo se tornou o mais vendido da história da empresa, cravando mais de 10 milhões de cópias; foi indicado a várias premiações ocidentais de Jogo do Ano; chegou até a ganhar em categorias específicas, como RPG, cooperativo ou multijogador; e se tornou um dos mais jogados no Steam em 2018, mesmo saindo apenas no 2º semestre. E tudo isso sem abrir mão de nada da essência da série, “apenas” escorado em pura inteligência de design e um equilíbrio perfeito de decisões para conseguir o aparentemente impossível: agradar uma massa de novos fãs sem perder os antigos. Esse tipo de coisa se espera de sequências imediatas de jogos inéditos aclamados, não do sexto jogo principal de uma série enraizada no Japão há mais de 10 anos. Outros jogos podem ter sido surpresas também, mas nenhuma foi tão impressionante quanto o sucesso geral de Monster Hunter: World.


Melhor Remake/Relançamento – Shadow of the Colossus (PS4)

Eu sempre digo nos Melhores do Ano que, ao escolher o melhor Remake/Relançamento, a relevância do jogo original conta tanto quanto o trabalho técnico de recriação. Nesse sentido, Shadow of the Colossus já sai em enorme vantagem, já que se trata de um clássico que influencia diversos tipos de jogos até hoje, em vários níveis. Você vê desde o ambiente esparso e onírico dele em jogos como Journey e Rime até o “roubo” de ideias específicas de mecânicas, como a escalada de monstros gigantes em Castlevania: Lords of ShadowDragon’s Dogma. Note como esses exemplos vêm de gêneros tão díspares – walking simulators, ação, RPG – e fica claro o quanto Shadow of the Colossus transcende fronteiras.

E aí ganhamos esse remake para PS4 que, diferentemente do remaster da geração passada, realmente atualiza a parte visual e acrescenta opções naquilo que talvez fosse o único problema maior do jogo original: os controles meio datados e não tão responsivos. A versão de 2018 não deixa o combate e a jogabilidade ultrafluidos, até pelo tipo de jogo que Shadow of the Colossus é, mas o torna bem mais agradável de jogar para quem se acostumou aos padrões atuais. É um daqueles remakes que remove barreiras e dá ainda mais vida à visão original dos criadores, sem sacrificar a essência do original. Ainda por cima, veio em um ano sem tantos remasters e relançamentos dignos de nota. Não é surpresa alguma que leve essa categoria com certa folga.


Melhor Multijogador – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

Já faz algum tempo que prefiro mais jogos cooperativos do que competitivos, e ver Monster Hunter desabrochar do jeito que aconteceu em 2018 só consolidou essa preferência. Em teoria, alguém poderia fazer uma série de pequenos reparos à forma como World estrutura e lida com sua porção multijogador, e lembrar de todos os problemas de desconexão que assolaram os servidores da Capcom no início. Essa pessoa não está errada: às vezes, o processo de se juntar com outros para derrubar monstros gigantes parece ter uma ou duas etapas extras desnecessárias, por exemplo. O negócio é que no fim das contas, todos esses detalhes são pequenos demais quando pesados contra a essência da coisa toda.

Esse é o primeiro Monster Hunter em que não há divisão entre missões solo e multijogador, e graças a isso, há todo tipo de opção para se juntar a outros caçadores: entrar em lobbies com amigos antes de caçar, disparar um sinal de ajuda em uma missão, procurar por missões e monstros específicos para farming, montar “clãs”, e assim por diante. E a jogabilidade em si, de até quatro jogadores com armas diferentes trabalhando em conjunto para derrubar um adversário enorme reescalado de acordo, foi imbatível em 2018. Como cereja no bolo, a Capcom foi acrescentando novos desafios em atualizações que sacudiram a fórmula de “cerco” de outros Monster Hunter (Kulve Taroth) e introduziram a possibilidade de assumir “papeis” linha MMORPG (a colaboração com Final Fantasy XIV). O primeiro caso foi a missão multijogador mais divertida que joguei no ano, e o segundo, a mais desafiadora.

Não á toa, eu continuo insistindo no multijogador de World mesmo depois dos amigos de console terem “seguido adiante” para outros jogos, ou mesmo ao sofrer com o jogador aleatório ocasional que estraga a missão inteira por vir totalmente despreparado para monstros difíceis (em especial no PC). Por incrível que pareça, até essas experiências frustrantes têm seu charme: nos fracassos mais espetaculares, você chega a dar risada e lembra de manter um certo respeito pelo desafio apresentado, enquanto nos outros sempre aprende alguma coisa – desde o que não fazer em builds até evitar a empolgação excessiva com certos golpes chamativos de outras armas. Quantos modos multijogador hoje em dia conseguem fazer o mesmo? Pouquíssimos. Caçar monstros junto já era algo único em si, e na versão de World, ficou melhor ainda.


Melhor Trilha Sonora – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

Eu sei que nesse caso vocês vão dizer que eu estou exagerando no meu amor por Monster Hunter, mas sinceramente, não estou nem aí. A série sempre teve uma trilha ótima, e o tema principal recorrente dela, “Proof of a Hero”, sempre foi muito marcante, mesmo quando ainda só jogava um pouco de cada jogo. O bom de World ter me “despertado” para a série foi me fazer ouvir ainda mais as outras canções e notar como a trilha inteira é talhada para os locais e monstros presentes naquele jogo, e como as músicas-tema passam muito bem a sensação do que aquele monstro é.

Monster Hunter é um daqueles casos em que a trilha não funciona tão bem fora do contexto do jogo, mas se mostra sensacional na hora em que você está efetivamente jogando. Por isso mesmo é difícil vender a ideia de como essas canções são boas: só quem jogou as “entende” de verdade. Só quem foi “invadido” pelo “B-52 vivo” Bazelgeuse em uma missão difícil, vendo “bombas” espalhadas de repente pelo chão, sabe como o tema do monstro é apropriado, aterrorizante e inesquecível. Só quem sofreu com o unicórnio do inferno Kirin em sua versão tempered sabe como o tema de combate dos Planaltos Coralinos (a área em que o bicho aparece) é tenso e… eletrizante (#badumtss). E só quem superou todos os principais desafios de World sabe o quanto o tema principal dele reflete a experiência, o sofrimento, o triunfo, a dedicação… E mesmo isolado, ainda é emocionante como poucos. Então que se dane, já passou da hora de reconhecer o brilhantismo das trilhas de Monster Hunter, e World é um ponto tão bom quanto qualquer outro da série para fazer isso.


Melhor Visual – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

…E agora já estou até ouvindo os muxoxos, ranger de dentes e grunhidos de desaprovação, mas vamos com calma. Se deixarem de lado um pouco a minha adoração confessa e pensarem no que sempre defendi aqui nessa categoria, perceberão que há mais na escolha. Eu sempre deixei claro que duas posturas extremas me incomodam na hora de escolher o jogo “mais bonito” do ano: supervalorizar visual ultracolorido e/ou psicodélico só porque está em um jogo indie, ou subestimar uma direção de arte impecável só porque o estúdio optou por uma representação realista de ponta em termos técnicos, com um orçamento AAA. Em outras palavras, eu gosto é de equilíbrio e consistência temática, não de pôneis-de-um-truque-só nem de ultrarrealismo linha Frostbite Engine sem um diferencial conceitual.

É aí que entra Monster Hunter: World. Ele pode ter seus pequenos problemas em algumas animações, ou rostos e texturas não tão tecnicamente impecáveis quanto um God of War ou Red Dead 2 da vida, mas ainda mantém um nível técnico acima da média (especialmente no PC) e compensa com sobras no que realmente importa: conceitos e detalhes. Quem passou horas zanzando pela Floresta Ancestral ou os Planaltos Coralinos sabe que nenhum outro jogo – sim, nenhum – tem mapas tão intricados e cheios de detalhes, com um verdadeiro ecossistema de fauna e flora totalmente funcional. Do menor inseto que muda de cor com a proximidade de predadores até as partes mais elaboradas dos monstros maiores, como os espinhos regenerativos do Nergigante, nenhum detalhe visual está lá sem um forte conceito por trás. A “escravidão” dos designers aos menores detalhes de World foi tão, tão grande que eles não tiveram medo de descartar até “armas-zoeira” favoritas de jogos anteriores, como martelos-panelas ou lanças-diapasão, por pura dedicação à visão que tiveram desde o início.

Além disso, o visual de World mantém outro equilíbrio, aquele entre fantasia e verossimilhança. Pense, por exemplo, nas vastas pradarias de Red Dead 2: são tecnicamente melhores, mas tão, tão escravas de uma “autenticidade” besta que às vezes é difícil distinguir em que área do mapa você está enquanto passa horas andando de cavalo para lá e para cá. Não há espaço para ousar, apenas para a “fidelidade histórica”. Já God of War consegue sim o mesmo equilíbrio, com recriações lindíssimas de paisagens nórdicas entremeadas com dimensões paralelas e sequências oníricas bizarras, mas seus ambientes isolados não têm a mesma dedicação a mapear perfeitamente cada detalhe de uma fauna e flora que reage ao jogador. É um disputa no photochart, por um mínimo de vantagem, mas acho World ainda mais ousado e por isso merece vencer essa “corrida”.


Melhor Narrativa – Detroit: Become Human (PS4)

Se tem uma coisa na qual eu vou na contramão do senso comum da crítica de jogos hoje em dia, é a suposta “evolução” das narrativas. Pelo contrário: eu tenho a forte impressão de que já passamos por um “auge” narrativo, em que histórias de jogos eram mais interessantes do que as da TV e do cinema, e estamos retrocedendo justamente por tentar emular cada vez mais uma Hollywood decadente, ou ao tentar “recriar” subgêneros cinematográficos com uma dedicação exagerada à “autenticidade”. Tivemos exceções pontuais como The Last of UsThe Witcher 3, além de coisas mais fantasiosas como Persona 5 ou Danganronpa V3, mas todos esses casos ainda me soam como oásis em um deserto narrativo.

Tudo isso é para dizer que Detroit: Become Human não chega realmente a esse auge, mas em um ano meio “seco” de boas narrativas, pelo menos se arrisca em dois pontos. O primeiro é que, mesmo como mais um “filme interativo”, o jogo entrega um nível alto o suficiente de escolha ao jogador para que a narrativa possa tomar rumos impensáveis para uma obra cyberpunk “padrão”. Sem dar spoilers, você consegue imaginar um Blade Runner em que os androides não sejam retratados como vítimas boazinhas no geral? Ou que eles incorporem o pior da humanidade, justificando violência em nome de um suposto “bem maior” que resulta apenas em mortes desnecessárias? Em Detroit, você pode explorar essas possibilidades apenas tomando decisões pessoais (de cada personagem) que levem a elas. Essa é uma força única de uma narrativa de jogo, algo que uma obra “estática” filmada ou escrita jamais poderá reproduzir, e que outros jogos “cinematográficos” passam longe de entender ou oferecer.

O segundo risco é uma consequência natural que talvez seja mais significativa ainda: Detroit não teve medo de contestar algumas infantilidades da nossa era de ativismo de sofá e encenação de virtude. O jogo não assume, por exemplo, que “lutar pela liberdade” seja automaticamente louvável (depende muito de como você interpreta “liberdade” e como “luta”), ou que temer uma “revolta das máquinas” seja necessariamente “preconceito” (isso só acontece se a pessoa agir contra um alvo que não fez nada). Há temas de diversas matizes “políticas” sendo discutidos aqui, desde manipulação da mídia e percepção pública até a natureza da consciência, e embora não sejam temas lá muito inéditos e incomuns, Detroit nunca soa simplista nem entrega respostas fáceis. Na verdade, as respostas são muito mais suas do que do jogo, que faz o possível para concluir trechos de acordo com a sua visão. Além do mais, a atuação da maioria dos personagens é excelente, o que só reforça a narrativa. É o melhor jogo de David Cage com folga, e em 2018, foi a história que mais me “fisgou”.


Melhor Jogabilidade – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

A melhor maneira de entender como a jogabilidade de Monster Hunter: World é tão boa é ler a resenha que fiz do jogo (bem grande, de acordo com a abrangência fora do normal do jogo). O que eu posso fazer aqui é elaborar melhor algo que mencionei quando World levou como Melhor Jogo Multiplataforma: ele tem tudo que realmente me importa em um jogo. (Sim, eu gosto e dou importância à narrativa, mas apenas em jogos que se dedicam a ela – caso contrário, foda-se a história, só preciso de um cenário e premissa atraentes). Se você juntar o que escrevi defendendo sua categorização como RPG, vai perceber algo interessante: tirando a história, não há nada que seja mediano apenas porque é o que se espera de um jogo daquele tipo. Todo o resto é de primeiríssima linha.

Ele é tão bom ou melhor como jogo de ação quanto qualquer outro 100% dedicado ao gênero, ou como RPG quanto outro 100% dedicado também. Nenhum outro RPG conseguiu um equilíbrio tão bom de entregar sistemas que são úteis e recompensadores, porém não cruciais para quem quer se entregar apenas à ação e terminar a “campanha”. Ao mesmo tempo, nenhum jogo de ação transforma tipos de armas em “classes” tão bem quanto World. Suas mecânicas e sistemas de loot conseguem superar as de um Diablo ou Borderlands da vida, seu conteúdo pós-jogo deixou Destiny 2 no chinelo por boa parte do ano (não joguei Forsaken, então vamos deixar essa comparação em aberto), e nenhum outro jogo consegue transformar uma tarefa aparentemente repetitiva – caçar os mesmos monstros N vezes – tão divertida e variada a cada tentativa. O combate é tão, tão bom que faz outras obras-primas nesse aspecto, como God of War (o de 2018) ou Dark Souls, parecerem “contidas” demais por contraste. World é simplesmente o melhor jogo de ação que já joguei, e um dos melhores RPGs, e grande parte disso se deve à jogabilidade. Em 2018, não teve pra mais ninguém nesse aspecto.


Maior Inovação – Morphies Law (SW)

2018 não foi dos melhores anos em áreas como narrativa ou remakes/relançamentos, e outra que sofreu um pouco foi inovação. O ano foi mais marcado por maravilhas técnicas e de design do que por ideias realmente “fora da casinha”, e mesmo entre as que apareceram, a maioria não soube executar de forma marcante, pelo menos entre os casos que experimentei. Nesse cenário limitado geral, eu vou ter que desencanar um pouco do resultado final e premiar a ideia mais bizarra, e sem dúvida alguma essa foi a de Morphies Law.

O jogo é um multiplayer competitivo de tiro com uma proposta bem, bem inusitada: o objetivo da equipe é “roubar massa” dos adversários para transferi-la a um avatar gigante, e quando o tempo acabar, a equipe com o avatar maior ganha. O ponto do corpo em que a massa foi “roubada” importa: atinja demais um inimigo na cabeça e ela ficará tão pequena que um novo headshot se torna quase impossível, ou você pode acabar roubando tanta massa que ficará grande demais para passar em certos lugares, e assim por diante. O legal desse conceito é que ele não se sustenta apenas na bizarrice: essa dinâmica cria uma situação oposta à da maioria dos shooters, em que ir bem só te dá mais vantagens. Aqui, seu sucesso cria a necessidade de se adaptar a novas vantagens e desvantagens, ou seja, ser mais esperto ainda. Além disso, o conceito visual mexicanizado, de Dia dos Mortos, é bem bonito e divertido.

Isso tudo dito, é uma pena que a execução não tenha sido das melhores. O jogo sofreu com framerate instável no início, poucos modos (compensados pelo baixo preço), e até com o quanto foi longe demais no ineditismo: muita gente claramente não “entendeu” a ideia, tratando-o como um jogo de tiro em equipe “normal” linha Overwatch e abandonando-o cedo. Ainda por cima, chegou antes ao Switch meio com cara de early access, com as mecânicas básicas de mira ainda precisando de alguns ajustes. Sem a base de jogadores necessária e muito tempo de espera no matchmakingMorphies Law acabou entrando na obscuridade e recebendo resenhas medianas que enterraram sua inovação conceitual. O jeito é torcer para que os desenvolvedores tenham aprendido a lição e lancem o jogo no PC este ano bem mais recheado e estável, para que receba a atenção que merece.


Pior Jogo – Sea of Thieves (PC/XB1)

O jogo novo da Rare foi por muito tempo o meu principal candidato a Decepção do Ano, como ficou claro para quem leu o que escrevi sobre ele, mas de início não o achei tão terrível, apenas “vazio”. Não tive saco de experimentá-lo de novo mais para o fim do ano, após os updates prometidos de conteúdo, mas ao reler o artigo do link acima e repensar Sea of Thieves depois de Red Dead 2, notei que ele cabe aqui como Pior Jogo, sim. Red Dead 2 é decepcionante por sua chatice, mas racionalmente falando é um bom jogo, fora de série em aspectos técnicos, apenas abaixo das altíssimas expectativas. Já as mecânicas de Sea of Thieves não são “só” chatas: o combate é mais simplório do que jogos da era Nintendo 64 e nada na jogabilidade básica é divertido exceto o comando de navios em grupo. Esses são problemas que não se resolvem apenas adicionando conteúdo, e nada do que li sobre as expansões sugeriu que as mecânicas básicas meio porcas mudaram ou se expandiram significativamente.

Com certeza 2018 teve jogos piores, realmente ruins, linha injogáveis mesmo, coisa que Sea of Thieves não é… O problema é que passei longe de todos eles. Em um ano em que fui muito mais criterioso nas compras do que o normal, na verdade não teria sequer jogado Sea of Thieves se não tivesse usado os 14 dias gratuitos do GamePass para ver qual era. Eu rodei várias vezes pela lista de 20 e poucos jogos experimentados em 2018 que já publiquei aqui, e sinceramente não consigo ver nenhum outro jogo dela como pior que Sea of Thieves. Eu não queria que isso acontecesse, porque a ideia geral me atraía muito: quem não quer um jogo de piratas divertido em co-op com mundo aberto para exploração e surpresas? Só que com essas mecânicas básicas simplérrimas, não há conteúdo e visual bonito que salve. Valeu a tentativa, Rare, mas sua redenção fica para a próxima.


Top 10: Melhores Jogos de 2018

Antes do Jogo do Ano de 2018 deste blog, vamos dar uma passada rápida nos outros 9 que me impressionaram, incluindo alguns que não conseguiram ganhar nenhuma categoria, mesmo chegando perto:

10. Assassin’s Creed: Odyssey (PC/PS4/XB1)

Odyssey não é apenas uma reskin do excelente Origins, e desconfio que só fica aqui na 10ª posição porque ainda não fui muito longe nele. O próprio Origins só me conquistou para valer com o tempo, pela força da narrativa e da expansão do mundo aberto e suas atividades, e espero que Odyssey siga o mesmo caminho quando Monster Hunter me der uma folga. Ainda assim, o início foi altamente promissor, e os dois jogos mostram que Assassin’s Creed renasceu de vez como “RPG de ação/aventura”, misturando dois subgêneros e carvando um nicho meio próprio apesar de todas as lições aprendidas com outros pesos-pesados.

9. Thronebreaker: The Witcher Tales (PC/PS4/XB1)

Outro jogo onde não avancei muito ainda, mas que mostrou suas “garras” desde cedo. Caindo meio de pára-quedas no ano, Thronebreaker nos leva de volta ao universo de The Witcher por uma série de perspectivas inesperadas: outros protagonistas que não Geralt, uma visão isométrica linha RPG de PC bem das antigas, sistemas simples e eficientes de gerenciamento de recursos (seu acampamento) e um combate baseado em… gwent. Sim, o jogo de cartas, aqui adaptado em certos momentos como uma espécie de quebra-cabeças a ser resolvido! E apesar de toda essa mistura louca, a exploração detalhada do mapa, a excelência narrativa e as decisões difíceis da série original permanecem intactas. Depois de terminar Detroit, quando sentir falta de uma história mais elaborada, é para ele que voltarei, sem dúvida alguma.

8. Starlink: Battle for Atlas (PS4/SW/XB1)

Estou a apenas um chefe de terminar a campanha de Starlink e minhas primeiras impressões sobre ele não mudaram nada, apenas se intensificaram. Na verdade, parei na boca do chefe final justamente porque ainda não me decidi se quero examinar mais o universo de Atlas antes ou não. A mistura da exploração de No Man’s Sky com combate aéreo meio Star Foxloot aleatório e um tom de desenho animado dos anos 80 é boa demais para largar mão, e não procurei saber ainda se o fim da campanha “reseta” tudo. É uma pena que o jogo tenha sido embalado em um modelo toys to life, com brinquedinhos associados, o que acaba assustando parte do público, ainda mais quando a Ubisoft não fez o marketing necessário para explicar o quanto o jogo independe dessas traquitanas extras.

7. Far Cry 5 (PC/PS4/XB1)

O quinto Far Cry já levou aqui como Melhor Jogo de Tiro e foi bastante discutido no blog, mesmo com toda minha obsessão por Monster Hunter. Em um ano no qual meu interesse por jogos de tiro foi quase zero, Far Cry 5 conseguiu suprir todo o pouco desejo por meter bala e explodir coisas de forma divertida, livre e descompromissada, sem se render à expectativa besta de passar mensagem anti-Trump ou antiamericana que muitos críticos tinham (e na maioria dos casos nem admitiram, em total desonestidade intelectual). Foi mais um passo adiante na melhoria da fórmula de mundo aberto da Ubisoft e teve um dos finais mais ousados do ano. Não podia ficar de fora dessa lista.

6. Marvel’s Spider-Man (PS4)

O jogo da Insomniac foi pouco citado até agora nesses Melhores, mas não me entendam mal: talvez seja meu jogo de super-herói preferido junto aos dois primeiros Batman Arkham, e ainda por cima dedicado ao Homem-Aranha, meu “ídolo” de infância. Só aconteceu da distribuição de categorias não o favorecer, chegando perto da vitória em Exclusivo de PS4, Ação/Aventura e Jogabilidade, mas perdendo na reta final para casos excepcionais como God of WarMonster Hunter: World. Para falar a verdade, só duas coisas o impediram de chegar ainda mais alto na lista e quebrar essas barreiras: a Mary Jane em geral e as sequências de pseudo-stealth com ela e outro personagem. Essas duas coisas sozinhas me fizeram parar o jogo no meio, e antes desses fatores aparecerem, estava gostando do jogo mais até do que God of War.

5. Forza Horizon 4 (PC/XB1)

Forza Horizon 4 levou como Melhor Jogo de Corrida/Esportes e Melhor Exclusivo de Xbox, tanto por sua excelência quanto pela falta de concorrentes significativos nesses categorias. Mesmo chegando à beira do esgotamento, a série ainda continua dois passos à frente de qualquer outro jogo de corrida tradicional em diversos aspectos, e mesmo fora do gênero a que pertence, exibe um cuidado incomparável no design de sistemas e do mundo. Como se isso fosse pouco, o quarto jogo ficou muito bem otimizado no PC. Está cada vez mais difícil imaginar como Forza Horizon pode melhorar mais, mas enquanto isso, quem gosta de velocidade não pode perder esse jogo em hipótese alguma.

4. God of War (PS4)

A recriação de God of War nas mãos do Santa Monica Studios já levou como Melhor Exclusivo de PlayStation, onde explico todas as suas forças, e ainda por cima foi citado para efeito de comparação diversas vezes. Na real, se não fosse por Monster Hunter: World, ele teria levado um punhado de categorias – é o único jogo que, na minha visão, deu algum “trabalho” ao da Capcom em alguns aspectos, como Visual e Surpresa. Tenham em mente que isso tudo parte de alguém que nunca foi tão fã assim de God of War, menos ainda de Kratos como personagem, sempre lembrado como um dos maiores exemplos de binarismo em jogos que já vi. Só que nesse God of War tudo é bem diferente, e para melhor. O jogo só não ficou ainda acima na lista porque 2018 foi o ano em que priorizei diversão pura mais do que qualquer outra coisa, como por exemplo em…

3. Super Smash Bros Ultimate (SW)

O jogo de porradaria da Nintendo ganhou como Melhor Jogo de Luta e chegou bem perto em Exclusivo da Nintendo, mesmo saindo “em cima da hora”, no final do ano. Em termos de diversão pura, foi igualado ou superado apenas pelos dois jogos no topo, e ainda assim nenhum dos dois faz você abrir sorrisos tão grandes toda hora, graças ao “fator Nintendo” – aquela coisa nada quantificável que torna os personagens da empresa tão carismáticos e fofos, mesmo quando estão distribuindo pancada na cara uns dos outros. E como amostra de conteúdo e design, chegou bem perto da perfeição, vacilando apenas em um pouco de repetição nos mais de 1.200 Espíritos e na extensão do incrível modo campanha, World of Light. Além do mais, foi o único jogo no ano inteiro que conseguiu me arrancar de um Festival de Monster Hunter

2. Monster Hunter Generations Ultimate (SW)

Considerando a posição de Smash Bros na lista e o que escrevi na categoria Exclusivo de Nintendo, não é surpresa alguma que Generations Ultimate seja meu vice-campeão do ano. Ah, meu vício recente por Monster Hunter? OK, tem isso também, mas acredite, o jogo não estava em uma posição tão alta até viajar no fim do ano, levar o Switch e acabar me dedicando mais a ele do que a World por pura “necessidade”. Nesse período, terminar o ranque alto online e a “campanha”, ver quase todos os monstros disponíveis e experimentar outras armas me fez enxergar ainda melhor o quanto Generations Ultimate é recheado e sensacional, mesmo dentro dos limites dos Monster Hunter “estilo antigo” – que o jogo já começava a quebrar, em uma óbvia “preparação” para o que veríamos em World. É basicamente a única coisa que estou jogando em 2019 até agora, e não devo sossegar tão cedo, não quando finalmente cheguei ao mítico G-rank. Vamos ver se é essa dificuldade toda que tanto falam…

E com esse vice-campeão em mente, o vencedor é (duh)…

Jogo do Ano – Monster Hunter: World (PC/PS4/XB1)

Sério, o que mais posso escrever? Só nesse artigo o jogo levou cinco outras categorias, em um total de nove nos Melhores do Ano, um recorde aqui no blog que nem The Witcher III conseguiu igualar. Não que isso signifique que World seja melhor, pelo menos não racionalmente: eu sei que ele tem pequenos defeitinhos, e que seu impacto geral no mundo dos jogos não se compara. O negócio é que, no frigir dos ovos, nada disso importa. World veio meio que do nada e me prendeu por mais de mil horas. MIL HORAS. Isso sempre foi impensável para mim mesmo quando era mais novo, e ainda mais agora, quando estou mais velho, seletivo e cuidadoso.

Os N motivos para essa paixão estão espalhados em milhares de palavras aqui nestes Melhores do Ano e nos meses e meses de artigos quase semanais sobre Monster Hunter, é só sair conferindo. Quando alguém me pedir para fazer uma lista de melhores jogos de todos os tempos, talvez World não vá parar no topo, mas uma coisa é certa: sempre que me perguntarem qual jogo eu levaria para uma ilha deserta, a resposta será Monster Hunter: World. E isso mesmo que a ilha não tenha conexão à Internet; se tiver, aí é que poderei passar anos por lá sem qualquer outro jogo mesmo.


Ufa! O artigo ficou enorme – eu deveria ter separado a lista final em outro, né – e atrasou também graças a Generations Ultimate, que não consegui largar enquanto não chegasse ao g-rank, mas finalmente saiu. Agora que já leu até aqui, estou curioso: o que achou? Consegui convencer de que pelo menos algumas escolhas foram mais racionais do que simples paixão descoberta por uma série? Algum resultado foi surpreendente além de Decepção? Deixe seu comentário, e nos vemos ao longo de 2019!

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