Melhores de 2017: Exclusivo Nintendo

Este artigo faz parte da série Melhores de 2017, com os games lançados este ano que este blog considera que devem ser jogados por quem puder. Consulte a lista de candidatos para ver quais jogos foram considerados para uma ou mais categorias, e o artigo Melhores de 2017 – Lista de categorias para saber quais são os “prêmios” em jogo.

Em 2016, pré-lançamento do Switch, Exclusivo de Nintendo acabou virando “subcategoria”, mais por falta de vontade minha de experimentar alguns dos jogos disponíveis do que pela falta real de candidatos, como aconteceu com o Xbox em 2017. Ficou a impressão de que a empresa e as publishers parceiras estavam “segurando” as melhores coisas para o Switch, e 2017 provou que esse era o caso, sim, e com sobras. Todos os fãs da Nintendo esperavam que o ano fosse bem mais recheado, mas nem nos sonhos mais loucos deveriam imaginar que seria tão, tão bom – talvez o melhor lineup de ano de lançamento de qualquer console até hoje.

========== 2017 ==========

Este ano, graças à enorme quantidade de candidatos em algumas categorias, resolvi dividir os jogos em grupos: bronze, prata e ouro. Os primeiros são aqueles que não tinham chance alguma de levar a categoria, seja por qualidade insuficiente ou por terem outros elementos que os afastam um pouco da essência da categoria. Os prata são aqueles que chegaram perto, mas acabaram sendo deixados para trás por candidatos melhores. Os ouro são os que realmente considerei como possíveis “campeões”, e que se fossem escolhidos por qualquer veículo ou pessoa, não me causariam surpresa ou espanto algum. Além disso, tentarei sempre limitar os “ouros” a cinco ou seis jogos, no máximo, como se fossem indicados “votáveis” de uma premiação “oficial” qualquer.

Seleção Bronze

Entre 3DS e Switch, tivemos um punhado de relançamentos e remakes exclusivos, mas os dois que joguei e destaco já passaram pelos Melhores de 2017 em uma categoria ou outra. Blaster Master Zero é remake mais caprichado de Blaster Master, um jogo de Nintendinho claramente inspirado em Metroid mas com maluquices próprias no meio, incluindo mudanças de perspectiva, como descrito na categoria Plataforma. Já Mario Kart 8 Deluxe foi lembrado na “subcategoria” Esportes/Corrida, teve suas mudanças e adições destrinchadas em um artigo próprio e deve ser um candidato bem forte a Melhor Remake/Relançamento. É indicado até mesmo para os poucos que já o jogaram no Wii U, principalmente quem não tinha pego os recheadíssimos DLCs anteriores, que adicionam 50% a mais de pistas e personagens.

Outro destaque bronze é Mighty Gunvolt Burst, que infelizmente joguei pouco para opinar melhor. Trata-se de uma espécie de “new Mega Man” que surgiu há três anos com Mighty Gunvolt, um jogo-acompanhamento de Azure Striker Gunvolt no 3DS, e chegou agora a Burst no 3DS e no Switch. A novidade é um sistema totalmente customizável para a arma do protagonista – incluindo detalhes bem específicos como trajetória e velocidade de tiro ou recarga – e o tal sistema de “burst”, em que matar adversários em sequência a curta distância enche uma barra de combo para maior dano e pontuação. É um jogo mais recheado que os anteriores, mas também um tanto mais complexo – talvez até um pouco demais para quem só quer sair pulando e atirando. Ainda assim, merece aplausos por tentar inovar e modernizar uma fórmula tão consagrada.

Seleção Prata

Aqui temos alguns jogos que já passaram por outras categorias, também. ARMS teve seu devido espaço com um Ouro em Luta/Beat’em Up, e certamente irá voltar aqui em Inovação. Fast RMX quase levou a “subcategoria” Corrida/Esporte com sua versão mais “moderna” de F-Zero com pitadas de Wipeout, e ficou com Prata na disputada categoria Distribuição DigitalFire Emblem Warriors foi citado brevemente na “subcategoria” Estratégia, pela surpresa de adaptar alguns elementos táticos em um musou, e ganhou Prata em Ação/Aventura; não desconsidere o jogo, que talvez seja o Warriors mais inovador e gostoso de jogar em muito, muito tempo.

Já Metroid: Samus Returns, mesmo sendo tecnicamente um remake, tem tanta, mas tanta coisa nova que cravou um Ouro em Plataforma – merecido, pois serve perfeitamente como base para novos jogos 2D da Samus daqui em diante. E podem apostar que irá voltar em outras categorias. Por fim, Monster Hunter Stories surpreendeu ao adaptar o universo de caçada de monstros para um RPG de turno a la Pokémon – e sem as amarras que a antiga série da Nintendo tem até hoje. Veremos mais sobre ele em categorias como RPG, mas basta dizer que ele e o remake de Metroid sozinhos fizeram valer muito a pena ainda ter um 3DS à mão em 2017, mesmo com a chegada do Switch.

Seleção Ouro

E agora a disputa fica bem acirrada. Temos, por exemplo, a grandissíssima surpresa Mario + Rabbids: Kingdom Battle, uma mistura da Ubisoft de duas franquias improváveis embalada por uma ainda mais inusitada jogabilidade tática inspirada em XCOM. Com ótimos valores de produção “nível Nintendo”, desde o visual e a música até um bom senso de exploração, o jogo “destila” a fórmula-base de estratégia da 2K/Fireaxis ao que realmente interessa, acrescenta um punhado de ideias novas e também cativa pela leveza e o bom humor. Chegou a impressionar até o designer-chefe atual de XCOM, que escreveu um excelente artigo sobre como se sentiu ao experimentá-lo, apontando perfeitamente as diferenças entre ambos e confessando que Mario + Rabbids o fez reavaliar coisas para o futuro de XCOM, como a movimentação das unidades. Não à toa, levou aqui a “subcategoria” Estratégia e vai aparecer mais ainda nos Melhores de 2017.

Splatoon 2 foi citado de passagem em Plataforma, por usar mais conceitos típicos de Mario 64 na campanha solo do que o jogo anterior, e levou a categoria Tiro junto com Destiny 2. Embora ainda use muito da “base” do primeiro Splatoon, incluindo mapas, armas e algumas escolhas de design que não são unanimidades, a sequência conseguiu expandir mecânicas muito bem, trouxe mais conteúdo de cara e nos brindou com um dos melhores e mais inovadores modos Horda dos games até hoje, o Salmon Run. E no final das contas, continua fazendo parte de uma série sem paralelo algum, em que o multijogador se “despe” de toda a seriedade excessiva de outros jogos competitivos e jorra alegria e diversão para todos os lados.

No finalzinho de 2017, em dezembro, recebemos Xenoblade Chronicles 2, um RPG épico, complexo e gigantesco que já me tomou mais de 50 horas e ainda deve roubar mais outras 50, pelo menos. É basicamente impossível “explicar” o jogo sem um artigo-resenha longo, ou talvez até mais de um, mas por enquanto fica o seguinte: é a edição mais “acessível” da franquia até agora graças a uma simplificação sensacional nos controles, que elimina de vez o menu inferior de escolha de habilidades sem perder um dedinho da expansividade de sistemas que Xenoblade sempre teve. Pelo menos por enquanto, Chronicles 2 tem o cast de personagens mais carismático da série, a história mais envolvente, e talvez o relacionamento mais belo e cativante que já vi em um RPG, o dos protagonistas Rex e Pyra. Conversaremos mais sobre ele na categoria RPG, mas saibam que, para mim, ele já está a um pezinho de alcançar os dois pesos-pesados da Nintendo em 2017.

Falando neles, o primeiro é Super Mario Odyssey, que levou aqui a categoria Plataforma sem muita discussão e conseguiu até Ouro em Ação/Aventura. Não se trata exatamente de um paradoxo: a quantidade de possibilidades de transformação usando o chapéu-personagem Cappy permite fazer tanta coisa para explorar os mundos recheados de itens de Odyssey que, mesmo sem perder a base de saltos e pulos, o jogo passa a mesma sensação de recompensa e aventura de um bom Zelda, muito para a minha surpresa. Também foi bastante citado nas Honrarias Diversas de 2017 pela música, a bizarrice da mecânica de possessão, chefes e pura alegria de jogar. Não à toa, foi o jogo do Mario que terminei mais rapidamente, de tão difícil de largar – e por “terminar” entendam “chegar ao fim da história”, porque muita coisa nova se abre depois e fazer 100% com certeza demoraria ainda mais do que a “primeira jogada” normal dele.

E agora sobrou o outro grande peso-pesado da Nintendo em 2017, aquele que andou dominando premiações por aí…

The Legend of Zelda: Breath of the Wild (Switch/Wii U)

O mais recente Zelda já levou a categoria Ação/Aventura, foi citado de passagem em Puzzle/Exploração e lembrado algumas vezes nas Honrarias Diversas, seja por bizarrices ocasionais como a natureza de suas “masmorras”, pela alegria de jogar, por alguns personagens carismáticos e por desafios de primeira, como enfrentar Lynels ou encarar o Master Mode. O melhor resumo do que o jogo representou em 2017, porém, está mesmo no artigo de Ação/Aventura, onde explico toda a sua excelência em aspectos como a estrutura do mundo aberto e a jogabilidade emergente baseada em diversos sistemas mecânicos e de física que se interconectam brilhantemente.

Existe um senso comum muito estranho de que The Legend of Zelda segue uma “fórmula” bem específica, apenas por manter alguns aspectos relativamente superficiais de narrativa e estrutura, como “vá lá salvar a Zelda” e equipamentos que vão sendo encontrados convenientemente nas masmorras em que são necessários para achar e derrotar o chefe final. A verdade é que, para além desses fatores “recorrentes” – nada muito diferente de qualquer outra franquia de jogos, que sempre mantêm conceitos e mecânicas por questões de identidade – The Legend of Zelda sempre foi uma série com jogos principais espaçados e que se arriscam bastante, com uma exceção ou outra (digamos, Twilight Princess). É só olhar para a estrutura “Dia da Marmota” e o lado sombrio de Majora’s Mask, os vastos mares e o jeitão cartoon de Wind Waker, o reino aéreo com controles de movimento e o visual aquarela de Skyward Sword e assim por diante. Se colocarmos os jogos portáteis no bolo, então… Do crossover surreal com outras franquias da Nintendo em Link’s Awakening até o resgate mais livre de A Link to the Past em A Link Between Worlds, passando pelo conceito de “encolhimento” em The Minish Cap, fica claro que poucas séries têm jogos tão distintos entre si quanto Zelda.

E por que estou apontando isso? Porque Breath of the Wild conseguiu algo raríssimo em qualquer mídia: esmigalhar um senso comum besta em pedacinhos. Tirando o fato de que mais uma vez sua missão principal é salvar Zelda, tudo no jogo surpreendeu até os mais céticos. Boa parte disso se deve à Nintendo ter percebido que, quando um senso comum se entranha dessa forma no “inconsciente coletivo” dos gamers, o único jeito de desafiá-lo é abrir mão até mesmo daquilo que alguns considerariam parte integral da identidade do jogo – e dane-se se um ou outro fã mais chato vai reclamar, como acontece de vez em quando em comentários por aí. “Masmorras” foram transformadas em, hã, outra coisa (sem spoilers) e seus aposentos tradicionais “fatiados” em 120 Santuários menores. Equipamentos tradicionais foram substituídos por habilidades em uma tabuleta de pedra e uma série de armas, escudos e arcos com durabilidade. Sistemas de upgrade para armaduras e as tais habilidades foram introduzidos, aproximando Zelda de um RPG. A abordagem das missões é totalmente livre, permitindo ignorar todas as principais além da luta final com Ganon.

Junte isso com todos os pontos fortes mencionados na categoria Ação/Aventura e você tem o Zelda mais revolucionário de todos até agora, um jogo que soa diferente mesmo quando adapta ideias de outros jogos de mundo aberto, como as torres de observação típicas de uma Ubisoft. Tirando Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, nenhum outro jogo oferece tantas possibilidades de experimentação com sistemas quanto Breath of the Wild, que ainda leva vantagem em quesitos como exploração e senso de descoberta daquele vasto mundo cheio de surpresas. Qualquer probleminha menor, como a simplicidade dos chefes principais, é imediatamente esquecido quando o jogador sai andando pelo mapa, sempre vidrado em descobrir o que há em cada canto – e sempre recompensado de alguma maneira. Foi o melhor jogo da melhor empresa de 2017, que por sua vez teve seu melhor ano desde a era Super Nintendo. Levar Ação/Aventura foi pouco, e levar Exclusivo da Nintendo também é pouco: voltamos a Breath of the Wild quando Jogo do Ano chegar.