Update: Veja no final da resenha uma transmissão do jogo que fiz no canal da PlayRoom no YouTube. Infelizmente, esqueci de “desmutar” o microfone, e uma música teve que ser removida por direitos autorais (“Du Hast”, do Rammstein).

Um dos maiores acertos da Sony com o PlayStation VR foi conseguir trazer a bordo não apenas a maioria das publishers, como também estúdios de renome, sejam eles AAA ou indies. Exemplos são Rocksteady (Batman: Arkham VR), Guerrilla Games (RIGS: Mechanized Combat), Rebellion (Battlezone), Double Fine (GNOG) e Polytron (SuperHyperCube). E, é claro, a Harmonix, que comparece com este Music VR, uma coletânea de quatro microexperiências em realidade virtual que reagem a músicas – sejam as da própria coletânea ou as que você tiver em um pen drive no PS4.

hmx-vr-640Essa fileira de estúdios gabaritados assegura um nível-base de qualidade que não estamos acostumados a ver em jogos para acessórios específicos. Ainda que não sejam a décima maravilha do mundo nem o futuro dos videogames (não por enquanto), eles garantem uma produção nível AAA e/ou um mínimo de inovação que use bem o acessório, mesmo em jogos mais curtos e contidos – como vimos aqui nas resenhas de Batman: Arkham VRUntil Dawn: Rush of Blood. Com isso, o PlayStation VR tem “driblado” bem a maldição comum dos acessórios de consoles: virar repositório de tech demos e coletâneas de minigames que não acrescentam realmente nada.

É claro, esse tipo de coisa ainda vai aparecer em alguma medida. O que eu não esperava mesmo é que viesse justo da… Harmonix.

Quatro “apps”, não minijogos

O primeiro equívoco é considerar Harmonix Music VR uma coletânea de jogos. A descrição dela na página da PSN é bem precisa: “(…) é a próxima evolução da sua biblioteca musical” (ênfase minha). Se você lembra de Rock Band ou Amplitude quando pensa em Harmonix, entenda que não há nenhuma espécie de desafio ou “jogabilidade” aqui, nem mesmo em um nível “história interativa”. Os quatro “mundos” da descrição são nada mais do que apps extremamente contidos e limitados que permitem “experimentar” cada música de uma maneira diferente.

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Limitados em que sentido? Todos. Por exemplo, dois dos quatro “mundos” nem sequer usam controles, e dos restantes, apenas um usa o PlayStation Move de forma realmente livre. Aliás, vale avisar que enquanto Batman: Arkham VRUntil Dawn: Rush of Blood permitem o uso do Dualshock (embora a experiência seja comprometida com isso), Harmonix Music VR requer dois Moves, ponto final. O Dualshock nem sequer é reproduzido na interface virtual, como em vários outros jogos do PlayStation VR.

Até aí, nada disso deveria ser um problema. Headmaster usa apenas o rastreamento de cabeça (tirando apertar X para iniciar o jogo) e alguns tipos de jogabilidade são mesmo melhores com o Move. O problema de Harmonix Music VR é a sensação de que a empresa tinha algumas provas de conceito ainda em estado embrionário e resolveu soltá-las a tempo de aproveitar o lançamento do PlayStation VR, ao invés de pensar com calma em todas as possibilidades.

Para entender isso, temos que passar por cada “mundo” da coletânea.

“Mundos” que mal enchem um quarto

O primeiro, A Praia, é uma experiência de cenário que se altera de acordo com a(s) música(s) escolhida(s) e o ponto em que você fixa o olhar. Se você vir um triângulo, continue olhando para ir àquele trecho da praia; se vir um círculo em um item, continue olhando para que o objeto se expanda de alguma forma no centro da tela, colorindo e animando a cena no ritmo. Enquanto isso, partes da praia como o horizonte continuam reagindo à música.

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No início, parece uma forma bastante divertida e relaxante de curtir suas músicas, e isso não deixa de ser verdade. O problema é que as interações e alterações de cenário se esgotam muito rápido: já na terceira ou quarta música, não há mais nada o que ver ou encontrar. Isso não seria tão ruim se não fosse o trabalho envolvido na coisa toda. É fácil ignorar repetição em um app gratuito de celular ou de PC, mas estamos falando de ligar um PS4 e ajustar um capacete e um fone de ouvido na cabeça apenas para isso – toda uma parafernália que custa caro, fora os US$ 15 do próprio Harmonix Music VR. É muito dinheiro e tempo gastos para ver apenas uns 8 a 10 objetos se animando das mesmas maneiras, ainda que em VR.

O segundo “mundo” é O Cavalete, ou um fundo vazio com ferramentas de pintura virtual em 3D. Esse é o “app” que usa os Moves por completo, com um deles servindo de “pincel” e o outro de tábua de opções, com linhas, objetos e loopers (objetos que podem se movimentar no cenário na sequência que você os posicionar). Tudo que você desenhar, até mesmo as linhas, reage à música de alguma maneira, seja pulsando, mudando de cor ou girando. Você pode alterar a intensidade das reações, apagar partes específicas com uma borracha e salvar ou carregar “obras de arte” para visualizá-las ou alterá-las com outras músicas.

harmonix-music-vr-10Esse é, com folga, o “app” mais divertido de Harmonix Music VR, mas ainda sofre com algumas limitações. São apenas 18 linhas, 9 objetos e 9 loopers, e não é possível escolher a cor inicial de cada item. Também não há como compartilhar suas criações de forma alguma, nem mesmo via pen drive. Com certeza existem apps gratuitos de desenho com muito mais ferramentas em celulares, ainda que com microtransações. O Cavalete pelo menos se justifica pela liberdade de interação em um espaço 3D virtual e por unir desenho à música, mas não vai além disso.

O terceiro “mundo” é A Dança, que tem um nome promissor, mas acaba sendo o app com as funcionalidades mais “quebradas” do pacote. A ideia é que você “anime” uma série de bonecos virtuais em uma festa de colégio usando os Moves como “títeres”, fazendo eles “dançarem” do jeito que quiser. Você também pode ir para trás de uma turntable e fazer “scratch” com o disco, mudar a velocidade da música ou atirar objetos com uma arma de brinquedo, ou ainda alternar para o “modo gigante” para trocar os bonecos de lugar com uma visão mais ampla.

harmonix_music_vr_dance_2O negócio é que “animar” os bonecos do jeito que você quer é um verdadeiro parto. Coisas bem simples, como fazê-los “bater cabeça”, são complicadas pela falta de perspectiva e pela impossibilidade de virá-los de lado ou mudar a posição da câmera, mesmo no “modo gigante”. Também não dá para trazer mais bonecos à festa ou escolher a aparência deles. Sem poder realmente criar uma “platéia” do jeito que você quer, sobra mexer na turntable, algo que se esgota tão ou mais rapidamente do que as interações de A Praia. Quantas músicas você vai ouvir no dobro da velocidade for the lulz antes de se cansar? Duas? Três?

O último “mundo” é A Viagem, e não estamos falando de férias aqui. É dorgas, mano. Dorgas. Trata-se simplesmente de uma viagem psicodélica não interativa, um caleidoscópio virtual com padrões que mudam de acordo com partes da música. Faça sua playlist, largue os controles e deixe a coisa fluir.

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Em tese, esse é o uso mais óbvio e empolgante da sua nova “biblioteca evoluída”, algo que você realmente só poderá experimentar em realidade virtual… Só que mesmo assim tem suas limitações. Além do mesmo problema do trabalho envolvido – quem vai colocar o PlayStation VR só para isso? – o algoritmo de “transposição visual” das músicas nem sempre funciona bem. O tempo de “análise” de cada música antes da “viagem” é bem curto, o que é ótimo, mas isso às vezes redunda em um caleidoscópio que nem sempre “registra” mudanças bruscas de ritmo, instrumentos ou volume. Além disso, se você prestar bastante atenção, nem sempre as cores e padrões condizem com o que você está ouvindo. É bem estranho ver tudo rosa em partes de guitarra pesada, por exemplo.

Poréns que desafiam até a boa vontade

É até meio impressionante como é fácil achar defeito em tudo em Harmonix Music VR. Como fã da empresa, comprei o jogo sem pensar muito e o experimentei no final da noite, para dar uma relaxada após um pouco do tenso Until Dawn: Rush of Blood. Passei uma série de músicas divertidas para o pen drive, desde coisas perfeitas para festa como “The Rockafeller Skank” (Fatboy Slim) até velharias oitentistas como “Legal Tender” (B-52’s) e “Weird Science” (Oingo Boingo), além de canções mais calmas, como “Teadrop” (Massive Attack)” e “Os Alquimistas Estão Chegando” (Jorge Ben). Isso sem contar trilhas de filmes (FootlooseRocky) e zoeiras em geral, como “Puteiro em João Pessoa” (Raimundos) e a “Montagem do Star Wars” (Elesbão e Haroldinho). Isto é, fui com a maior boa vontade do mundo.

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Mesmo assim, foi bem difícil mantê-la por muito tempo. A sensação de que paguei por algo que deveria ser brinde de alguma outra coisa, da Harmonix ou não, ou no máximo custar US$ 5 foi enorme. Tudo que me divertiu, em especial nos mundos A Viagem e O Cavalete, foi por pouco tempo e meio que na insistência, já que paguei por essa joça. Se tivesse colocado o acessório apenas para experimentar Harmonix Music VR, ao invés de brincar um pouco com a coletânea no final de uma sessão com o VR, talvez tivesse realmente me irritado. Não é à toa que as resenhas estão péssimas: não consigo nem imaginar tentar aproveitar tudo isso por obrigação.

Ainda tem mais. Quando você joga a demo de Harmonix Music VR no disco que acompanha o PlayStation VR, a impressão que fica é que as limitações são típicas de uma demo, e não da experiência final. Até por isso confiei na Harmonix e fui lá comprar a coisa. Mas não é o caso: a única funcionalidade que não está na demo é montar a sua playlist com músicas próprias antes de jogar cada “mundo”. Todos os quatro estão por completo no disco, o que só reforça a sensação de que paguei US$ 15 por meras tech demos. Por mais que outros jogos para PlayStation VR estejam ainda mais supervalorizados em preço, pelo menos eles são jogos e apps “redondos”, com conceitos fechados e desenvolvidos.

3079311-harmonixmusicvrA maior tristeza é notar que a Harmonix tinha um plano até razoável. Em termos puramente conceituais, os quatro “mundos” fazem sentido como “expansão da sua biblioteca musical”: desenhe, brinque, viaje com as suas músicas. O erro foi não dedicar mais alguns meses e expandir as opções, quantidades de itens e a eficiência dos algoritmos, nem que fosse para cobrar US$ 20 ou até US$ 30 depois. Eu teria pago com mais gosto do que US$ 15 por esses quatro apps cuja diversão se esgota em duas ou três músicas cada – ou que nem funciona direito, no caso de A Dança. E as limitações do próprio PS4, que exigem copiar arquivos para um dispositivo externo, não ajudam (lembrando que o próprio VR já ocupa uma das duas entradas USB). Ah, e não, Harmonix Music VR não “lê” suas músicas de Rock Band.

O jeito é torcer para Rock Band VR chegar ao PS4 e compensar essa bola fora. Vê se usa o meu dinheiro para garantir isso, Harmonix!

========== VR ==========

2 comentários sobre “Harmonix Music VR – Tech demo de onde não se espera

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