Until Dawn: Rush of Blood – Trem-fantasma como deve ser

Rush of Blood, o spin-off do aclamado Until Dawn, é um dos títulos mais chamativos do PlayStation VR e consegue fazer você matutar um pouco sobre duas coisas: expectativas e o poder da (relativa) simplicidade. Por um lado, sua apreciação do jogo vai depender muito do que você espera dele. Por outro, o jogo é uma escolha conceitual um tanto óbvia para a realidade virtual, mas usa isso a seu favor, se concentrando mais em outros aspectos de design.

until-dawn-rush-of-blood-us-esrb-ps4jpg-f4795fRush of Blood é um típico jogo de tiro on-rails em um trem-fantasma, e isso pode informar suas expectativas para o bem e para o mal. Tivemos alguns desses na era dos controles de movimento e quase nenhum realmente se sobressaiu (House of Dead: Overkill é uma exceção honrosa), mesmo no pouco que tentaram realizar. Fazer mais uma galeria de tiro on-rails em um universo de terror tão bem construído quanto o de Until Dawn pode parecer uma redução do potencial da série, e foi mais ou menos assim que o encarei. No fim das contas, o jogo acabou saindo melhor do que a encomenda.

Um trem-fantasma que realmente perturba

Trens-fantasmas, sejam reais ou virtuais, podem ser divertidos, mas raramente assustam ou perturbam de verdade; no máximo, conseguem alguns jump scares aqui e ali e só. O maior ponto forte de Rush of Blood é que ele consegue, dentro das limitações on-rails, deixar você tenso e assustado boa parte do tempo, seja usando truques de cenário ou a perspectiva da realidade virtual. Com ele, a Supermassive prova que Until Dawn não foi um acaso feliz: o estúdio realmente entende de horror, e de todos os tipos.

rushofbloodBoa parte do sucesso da tensão está nas referências ao que deu certo em Until Dawn, mas não é só isso. Como Rush of Blood é uma espécie de alucinação, as restrições de gênero do jogo original, firmemente plantado na típica história de slasher movies, não se aplicam aqui. Sem freio, os desenvolvedores puderam incluir vários recursos de terror, desde ainda mais gore até criaturas de todo tipo – mas todo tipo mesmo. Você vai ver desde o psicopata do jogo original até zumbis, de fantasmas até insetos gigantes, de espíritos a la filme japonês até um ser imenso lovecraftiano. Seja o que for que te assuste, provavelmente está aqui.

Melhor ainda: tudo isso é entremeado com momentos relativamente calmos, uso cuidadoso de iluminação (ou da falta repentina dela), espaços confinados ou abertos conforme necessário, e combates contra um único oponente poderoso ou hordas avançando em sua direção em 1ª pessoa e 360º. Você pode reclamar de qualquer coisa em Rush of Blood, menos de falta de variedade. Cada uma das sete fases é única em todos os sentidos, e poderia muito bem ter sido “esticada” em duas ou três sem chegar a encher linguiça demais.

Outra coisa que ajuda bastante no clima é a inteligência da Supermassive no uso das possibilidades do VR. Embora você fique preso a um carrinho de trem-fantasma, as interações com o cenário frequentemente se aproveitam da proximidade e do áudio 3D. Não posso dar exemplos diretos sem cair em spoilers, mas tenha em mente que, no VR, você pode ouvir algo atrás de você e olhar para lá; ter algo literalmente em cima da sua cabeça; ver um oponente que não reage a balas chegando perto do seu próprio nariz, e ficar desesperado olhando em volta para descobrir um jeito de afastá-lo; sentir o confinamento de um espaço muito pequeno de forma muito mais imersiva, e assim por diante.

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Não há uma história nem cutscenes de verdade aqui, pelo menos não sem descobrir os segredos de cada fase (e na primeira jogada não achei nenhum, zero, nada!), mas Rush of Blood não precisa disso: ele se assume como um trem-fantasma com uma explicação para existir, e te prende pelo clima e pelo inferno total que te obriga a passar. Aí entra de novo o diabo da expectativa: em algumas resenhas, houve quem insistisse em compará-lo com Until Dawn em termos de história – mais ou menos como esperar a leitura de uma tese de doutorado em um acampamento à noite, ao redor da fogueira. Rush of Blood entende que está na fogueira e usa tudo que pode para assustar quem está lá. Esperar mais do que isso é tolice e arrogância, até.

Simples de jogar, difícil de pontuar

Outra coisa que a Supermassive entendeu muito bem é que jogos on-rails são ainda mais dependentes de cenário, tom e desafio do que a maioria dos outros tipos de jogos atuais. Não há espaço para complicar a jogabilidade, nem para compensar a falta de profundidade com uma narrativa elaborada: esse tipo de jogo precisa ser fácil de entender, cativar de cara e ter valor de replay, geralmente com dificuldades maiores e variações nos desafios. A empresa já tinha os cenários e já provou saber como dar o tom certo de horror; só precisava ter boas ideias de alvos e acertar na curva de dificuldade.

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Aí entra a segunda grande surpresa de Rush of Blood: o que você precisa fazer para avançar não tem paralelos diretos com nenhum outro jogo on-rails. Você tem uma arma em cada mão – de preferência com dois Moves, já que com o Dualshock não pode movimentá-las de forma 100% independente – mas enxerga muito pouco dos cenários, em grande parte mergulhados na escuridão. O truque é que cada arma tem um facho de luz, semelhante a Alan Wake, que serve tanto para iluminar quanto como mira improvisada.

Como o básico de um jogo on-rails é acertar o máximo possível de alvos e manter um multiplicador, esse setup dos fachos de luz adiciona outro fator simples, porém interessante, à equação: muitos dos seus alvos precisam ser achados primeiro na escuridão, às vezes em trechos mais acelerados de queda em montanha-russa. A empresa teve o bom senso de deixar bem claro quais itens valem pontos com uma série de indicações visuais, desde alvos literais pintados até monstros com olhos que brilham no escuro. É tudo muito intuitivo, sem precisar de maiores tutoriais além de qual botão faz o quê – e são apenas dois: gatilho para atirar e o botão Move (ou R1/L1 no Dualshock) para recarregar. Pronto, acabou. Só aponte, ache o alvo com a luz e atire.

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A compensação dessa simplicidade vem nas interações com os cenários. Dependendo da fase, você pode precisar atingir barris explosivos para abrir caminho, se inclinar ou se abaixar para evitar serras elétricas, esperar um inimigo veloz chegar ao seu carrinho para conseguir acertá-lo enquanto atira em projéteis com a outra arma, acionar outro carrinho à distância para que ele o acompanhe mais à frente, e assim por diante. Não vou revelar mais para, de novo, evitar spoilers, mas esses truques são usados especialmente bem nos chefes finais de cada fase – que nem sempre são monstros, diga-se.

Além de tudo isso, Rush of Blood paga o devido tributo a House of the Dead, a série mais famosa de jogos do gênero e que sempre exigiu muito do jogador que pretende fazer as melhores pontuações ou terminar o jogo nas dificuldades maiores. Eu encarei no Normal e mesmo assim morri pelo menos uma vez em todas as fases, e os chefes sempre exigiram pelo menos duas ou três tentativas, mas nunca mais do que seis ou sete, mesmo o último. Rush of Blood é desafiador na medida certa – e mesmo que você atire muito bem, saiba que depois do Difícil, ainda há o modo Insano, em que você só tem uma vida por fase.

Nem tudo são horrores

Não que o jogo seja livre de defeitos, mesmo dentro das limitações do gênero. O rastreamento da sua cabeça e a resposta dos controles Move funciona perfeitamente, mas o facho de luz como mira não é 100% ideal; em momentos mais frenéticos e com alvos menores distantes, o ponto central do facho fica bem menos visível, e nessas horas você pode jurar que está mirando corretamente e não conseguir acertar. Como errar não reseta o multiplicador e os chefes costumam se aproximar e/ou terem tamanho humanóide para cima, isso não chega a atrapalhar muito sua busca por maiores pontuações ou de passar de fase, mas pode frustrar um pouco quando você tenta acertar os itens colecionáveis ou um power-up de arma ocasional.

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Além disso, o valor de replay se restringe a melhorar pontuação em leaderboards, ativar caminhos alternativos em algumas fases e encontrar os segredos delas. Já é bem mais do que os enigmas do Charada em Batman: Arkham VR, mas pode não ser o bastante para todos os jogadores. Por outro lado, se você não tem interesse em rejogar por pontuação, provavelmente também não se interessa por jogos on-rails para início de conversa. Essa questão tem que ser vista da perspectiva inversa: ao contrário de outros jogos do gênero, Rush of Blood pelo menos tem segredos que desbloqueiam partes de uma cena final, explicando um pouco melhor o que está acontecendo.

Também é preciso ter em mente que, como toda experiência de realidade virtual, Rush of Blood não foi desenvolvido para durar horas e horas nem ser experimentado em sessões longas. Aí entra de novo o problema recorrente dos prazos apertados das resenhas: mesmo com toda a variação de inimigos, seus comportamentos e de cenários, “matar” o jogo de uma vez – em umas 4 ou 5 horas totais – vai cansar e pode até te deixar tonto. Como todo jogo baseado em fases e busca por pontuação, ele foi desenvolvido para funcionar em doses homeopáticas, seja uma ou duas fases por vez ou duas ou três tentativas de melhorar sua pontuação na mesma fase.

Um bom jogo antes de ser uma boa experiência

O curioso é que, no geral, Rush of Blood não é tanto uma experiência obrigatória de realidade virtual, e sim um bom jogo em si mesmo que usa bem o recurso. De certa forma, é uma pena que fãs de séries como House of the Dead não possam jogá-lo em uma TV comum, ainda que com controles Move; mas ao mesmo tempo, o jogo perderia parte da capacidade de assustar sem a imersão proporcionada pelo PlayStation VR e os truques de áudio 3D e perspectiva usados pela Supermassive. Seria mais ou menos como jogar ZombiU nas versões Zombi, sem o gamepad do Wii U: o bom design, a dificuldade, o cuidado nos detalhes e os conceitos gerais permaneceriam intactos, mas algo da tensão se esvai quando você não precisa dividir a atenção em duas telas – ou não enxerga em 3D e 360º, no caso.

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De qualquer forma, a meros US$ 20, Rush of Blood é garantia de diversão para quem curte jogos on-rails e na hora de receber os amigos. Pode não ser um divisor de águas nas possibilidades da realidade virtual, mas se sustenta muito bem como jogo, o que na fundo é o que importa. E se você for um fã menos purista de Until Dawn, do tipo que não se importa de ver aquele universo ser transportado para um trem-fantasma sem nenhum freio conceitual, vai sorrir bastante a cada referência enquanto atira em tudo quanto é tipo de criatura. Até fãs de horror podem apreciar a experiência, se não a encararem esperando a profundidade de um Silent Hill.

Em resumo, se você tem um PlayStation VR, Until Dawn: Rush of Blood tem boas chances de ser uma de suas primeiras aquisições. Só um aviso de última hora: cuidado se tiver aracnofobia ou for o tipo de pessoa que passa mal em meros 5-10 segundos de montanha-russa. No primeiro caso, uma fase quase inteira foi feita para te causar uma síncope; no segundo, a Supermassive até evitou enfileirar descidas bruscas e longas, mas se você for sensível demais, vai ficar tonto como se estivesse em um brinquedo de verdade. Isso é realidade virtual, afinal. Se seu corpo não reagisse, seria uma falha do acessório…

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