Mafia III era um desses jogos “segundo escalão AAA” do ano que, aos poucos, foi construindo um interesse (hype?) bem acima do esperado antes do lançamento. Em um mês cheio de novidades de maior renome – incluindo três das séries de tiro mais populares – ouvi muita gente interessada em pegar Mafia III ao invés dos “concorrentes”. Após o último trailer, em que o protagonista invade uma cerimônia da KKK, acabei sucumbindo à curiosidade e pegando o jogo no PC.

Quem preferiu esperar as resenhas, porém, está aguardando até agora. A 2K resolveu enviar os códigos do jogo à imprensa apenas no dia do lançamento, ontem – ainda por cima, uma sexta-feira, garantindo que as análises dos grandes portais não saiam antes de segunda. Geralmente, isso é sinal de falta de confiança no produto final. E se você resolver conferir as resenhas de usuários, obviamente, estão na casa de 5-6 nos consoles e 3 (!) no PC.

mafia3_pcboxartClaro, resenhas de usuário são pouquíssimo confiáveis, ainda mais em menos de 24 horas do lançamento. Basta olhar no Metacritic e no Steam como quase todas elas são extremas: ou é o melhor Mafia, uma maravilha nota 9-10, ou é um desastre “nada de +, só negativos”. No caso do PC, ainda há a questão do port: como esperado, há o influxo de pessoas reclamando (às vezes em menos de duas horas do lançamento!) que você sabe que só estão querendo derrubar um jogo por ele ter tido o desplante de sair também para consoles. A audáciaThe nerve! /facepalm

E aí, como é que fica? Bom, graças aos amigos em Destiny: Rise of Iron e a maravilha que é Forza Horizon 3, só parei para conferir Mafia III hoje. E após cerca de 3 horas no PC, posso matutar sobre duas coisas desde já para quem está na dúvida se compra o jogo ou não:

Gráficos e port: como sempre, ignorem os extremistas

Já está ficando chato e cansativo, mas esse é o estado das coisas na comunidade Steam hoje: com raras exceções, qualquer jogo que sair também para consoles pode ganhar o melhor port de todos os tempos, o Cálice Sagrado das versões de PC, que mesmo assim irá tomar porrada nas primeiras horas. E se for um port apenas mediano/funcional, então… Vai virar o novo Arkham Knight para alguns. Só este ano, Rise of the Tomb RaiderThe Division e Deus Ex: Mankind Divided, alguns dos melhores ports já feitos, caíram no primeiro grupo; Quantum Break e No Man’s Sky foram massacrados mesmo sendo funcionais, coisa que Arkham Knight não era.

Antes eu achava que isso era reflexo do aumento constante de jogadores de PC nos últimos anos, gente que nunca teve que configurar uma placa Soundblaster no DOS para saber como é tranquilo e normal precisar ajustar algumas configurações de menu/placa de vídeo/Windows para fazer um jogo rodar estável. Em algumas resenhas de usuário, você percebe que se trata de algum filhinho de papai que torrou milhares de dólares comprando tudo de melhor e acha que isso sozinho fará qualquer jogo rodar a 4K e 140 quadros por segundo, sem precisar mexer em nada.

imagesMas não é só isso: tem um pessoal que simplesmente não aceita que jogos saiam em consoles. É simples assim. Eles realmente acreditam que estão fazendo um papel de “guerreiros” da “comunidade de PC”, negativando qualquer coisa que não seja exclusiva ou indie para “melhorar” o “estado das coisas”. O problema é que jogar tudo no mesmo saco borra as linhas e pode levar a uma situação do tipo “o menino que gritava lobo”: quando um port for realmente ruim, nível Arkham Knight, a maioria não vai acreditar sem ver por si mesmo. Eu mesmo já não acredito.

Mas chega de digressão e vamos ao que interessa: onde Mafia III se encaixa? Para variar, em algum ponto da meiúca. O principal aviso é que o jogo está travado em 30 frames, sem opção para mudar nos menus. De fato, isso é inadmissível em um jogo AAA no PC hoje em dia, ainda mais quando não é tão pesado assim. Pelo menos o estúdio desenvolvedor já anunciou que o primeiro patch resolverá isso, e que estão tentando lançá-lo ainda neste fim de semana.

E querem saber? O jogo está 30 lisinho, sem cair um frame, e após 15 minutos nem me dei conta mais do fato. A ação, pelo menos no começo, não é tão acelerada e bombástica a ponto de requerer 60 frames. Fica claro que preferiram lançar o jogo otimizado para 30 do que liberar 60 logo de cara e gerar “engasgos”; se o patch para 60 frames chegar ainda na primeira semana sem “quebrar” a “lisura”, está ótimo. Enquanto ele não vem, o incômodo é zero – vou voltar a jogar Mafia III de boas do mesmo jeito assim que terminar de escrever aqui.

mafia3_shootout

O segundo problema é, mais uma vez, daqueles que se resolve mexendo nas configurações certas e entendendo que o modo padrão hoje ainda é 1080p em telas 16:9, e é para ele que o jogo foi feito a princípio. Após a introdução, o jogo fechou sozinho duas vezes aqui, do nada, com apenas uns 5 minutos de intervalo. O negócio é que, pouco antes das duas vezes, eu tinha subido/ligado efeitos acima da predefinição Optimal (Ideal) padrão que o jogo oferece de cara, aparentemente baseada na configuração do seu PC. Logo desconfiei que tinha a ver com isso.

Como meu PC não cumpre todos os requisitos Recomendados (no caso, velocidade de CPU), já esperava que o jogo não rodaria no máximo – e de fato, a Optimal aqui é basicamente Medium. Tentei colocar no High porque o jogo está travado em 30 frames, afinal, e foi aí que os crashes aconteceram. Voltar ao Medium e subir apenas os detalhes de Geometria para High resolveu o problema: efeitos de sombra, reflexo e oclusão ambiental costumam ser mais pesados, e nem sempre entregam um resultado tão melhor que justifique o “peso”. O jogo está praticamente igual ao que estava no High e não dá crash mais.

Sim, eu sei que você montou o seu PC para jogar com tudo no máximo. E sim, era obrigação da desenvolvedora entregar um port otimizado para resoluções distintas e máquinas mais potentes. O ponto é que Mafia III está jogável, estável e decente; não é o fim do mundo, e está bem acima de um Arkham Knight – e até de No Man’s Sky, que dava suas “engasgadas” nos primeiros dias, talvez por não estar travado a 30 frames. Após ajustar as configurações, fiquei mais de duas horas nele sem sequer lembrar dessas tecnicalidades.

mafia-3-3161122_vnwe

Tanto para os jogadores de PC quanto de console, vale também dizer que, embora Mafia III não seja nenhum Grand Theft Auto V em termos visuais, as resenhas que alegam “gráficos da geração passada” estão abusando da hipérbole. Na verdade, os efeitos de iluminação e sombra são até melhores, mesmo no Medium (daí as configurações equivalentes serem “pesadas”), e as animações nas cutscenes são de primeira linha. As texturas e detalhes são de jogo AAA desta geração, sim, pelo menos a 1080p – boas o suficiente para serem ignoradas quando você se envolver na história. O único senão é a draw distance, ou aquele efeito de “borra” em cenários mais distantes; dá para notar que preferiram usar uma distância um tanto menor do que em, digamos, um GTA V, para garantir aquele desempenho liso no framerate em CPUs mais antigas. De novo, nada que você não esqueça de reparar assim que se acostuma e se envolve.

“Envolver” é a palavra certa aqui, aliás, e tem a ver com outro ponto importante…

Começando com o pé na porta e abusando das nuances

Não se esqueçam, essas são apenas primeiras impressões após meras 3 horas, uma fração de um jogo de mundo aberto como esse. Ainda assim… Mafia III é uma aula de como iniciar uma narrativa em jogos. Uma aula. A coisa toda pode desandar – e feio – à medida que o jogo progredir, dada a complexidade dos temas, do cenário e do “encaixe” de uma premissa tão forte em um mundo aberto padrão. Mas que ele começa com o pé na porta e berrando “eu sou candidato a uma das melhores narrativas em jogos dos últimos tempos”, começa. E isso com um material que tinha todo o potencial de ir no extremo oposto.

mafiaiii_kkk

Um dos maiores problemas do tal trailer da KKK é que não havia contexto. Sem isso, aquilo poderia muito bem ser apenas uma mera fantasia de poder de “sinal racial” invertido, um truque barato de narrativa/de jogo para fazer marketing em cima de algo que não precisamos ser lembrados a odiar – qualquer pessoa de bom senso já sabe o quanto a KKK é inadmissível. Por outro lado, jogos fazem isso com nazistas, comunistas e gangsters (de variadas raças) o tempo todo, e ter a KKK como alvo, em si, já é memorável e diferente, seja qual for o contexto. No mínimo, será divertido ver esses caras de capuz branco levando na cabeça, para variar.

Minha preocupação era o quanto esse trailer de exemplo refletia o resto do jogo: hoje em dia, com a escalada da “justiça social” de Internet, é muito, muito fácil ignorar sutilezas e complexidades das relações humanas apenas para “passar uma mensagem” sem substância nem coerência alguma. No caso específico de Mafia III, isso podia resultar em uma história sobre racismo que apenas inverte o pólo: todo branco é detestável, todo negro é vítima, e qualquer coisa que um negro faça, por mais imoral ou condenável que seja, passa a ser automaticamente justificada. Pelo menos nessas três horas iniciais, que preparam o terreno antes de “soltar” o protagonista Lincoln Clay na cidade, o jogo passou longe disso. Muito longe.

mafiaiiiMafia III não faz nenhuma tentativa de aliviar o lado de Lincoln no começo, nem mesmo usando seu passado recente como combatente no Vietnã. Ele estava envolvido com gangues antes; retorna para a mesma vida sem o menor remorso; e não fica se lamentando pela guerra ou por ser um órfão. Não há qualquer traço de vitimismo aqui: as escolhas são dele, e as consequências também. Mesmo em algumas cenas que retratam o forte preconceito que negros sofriam em uma cidade como New Orleans em 1968, em nenhum momento os diálogos, a trama ou o avanço da narrativa em geral “aliviam a barra” para ele ou para outros negros que fazem muito pior do que cobrar proteção. O próprio Lincoln tem seus limites éticos e repudia veementemente um caso bem específico na primeira hora – um que choca bastante, aliás, e apresentado com extremo bom gosto para algo tão pesado.

Se fosse só isso, esse início já estaria bom demais. Mas o setup da trama vai ainda mais longe: não me lembro de nenhum outro jogo de mundo aberto – nem mesmo os GTAs – que conseguiu gerar tanta empatia pelo protagonista e sua situação no início como Mafia III. Nenhum. Se você achava que o jogo era só sobre racismo, está muito enganado: na verdade, a vingança de Lincoln tem motivos ainda mais poderosos, muito além da raça. Mafia III não apressa as coisas, usando essas 2-3 primeiras horas para apresentar personagens, situações e locais da maneira mais equilibrada possível entre ação e narrativa… Apenas para puxar seu tapete de repente e, com isso, fazer você querer muito tomar o submundo de New Bordeaux (a versão ficcional de New Orleans) de assalto, e não sossegar até terminar a história – e a vingança de Lincoln – toda.

father_james_2Para além dos temas e dos detalhes da trama, ainda por cima Mafia III usa uma estrutura narrativa curiosa nesse início. A coisa não é 100% linear, no sentido temporal: o jogo começa com um assalto a um cofre do Tesouro americano, entrecortado com depoimentos de personagens pós-fato, em estilo de documentário, “narrando” o que aconteceu. Tais depoimentos são a deixa para o jogo voltar no tempo e permitir que você jogue com Lincoln assim que ele volta do Vietnã, depois “avançando” para o assalto (também jogável) e de volta ao passado, geralmente para apresentar melhor um dos personagens envolvidos.

Os cortes, tanto de estilo de cutscene (“normal” vs. depoimentos) quanto das cenas para as partes jogáveis, são muito bem-feitos e não atrapalham em nada o entendimento do que está acontecendo: “apenas” dão uma cara única para o jogo, sem sacrificar a jogabilidade e nem o inevitável tutorial. Melhor: essa estrutura meio documentário, meio jogo é envolvente demais. Nessas duas ou três horas, você desenvolve um senso perfeito de quem é quem, imerge na situação, e já aprende a dirigir, atirar, se mover usando stealth etc., tudo ao mesmo tempo. Provavelmente também já tem uma ideia do que esperar…

E aí vem o tal plot twist, puxa seu tapete e “abre” de vez o mundo do jogo, enquanto você tenta recuperar a respiração e conter a raiva.

mafia-3-heistsVejam, não é que seja uma coisa altamente inovadora ou impensável. Alguns vão ver o plot twist chegando antes. Talvez até já tenham imaginado pelos previews, que fiz questão de evitar após entender a premissa básica nos trailers iniciais. É “só” muito bem estruturado e contado, de uma maneira que não estamos acostumados, muito menos em jogos de mundo aberto. Não é um The Last of Us, mas é o mais próximo que um jogo desse tipo já chegou. E só para reforçar: sempre pode desandar daqui em diante, mas o início vai ficar cravado na memória assim mesmo, sem dúvida.

Jogabilidade funcional elevada pelo resto

Como jogo, Mafia III também não parece ser nenhuma maravilha. Praticamente tudo, em termos de mecânicas centrais, é mediano/funcional, na melhor das hipóteses. Tiro, direção, mapa, quase nada se destaca. A exceção é o stealth, que para um jogo de mundo aberto de ação está acima da média, a ponto de fazer você querer usá-lo sempre que puder. Não é um Metal Gear Solid V, mas chega mais perto do que você imaginaria, ainda que em uma versão simplificada e mais fácil de jogar. O pior que dá para dizer é que os tiroteios talvez sejam fáceis demais; eu coloquei a assistência de mira no low (sem trava) e consegui passar nos primeiros morrendo apenas uma vez. Vamos ver se continuam fáceis assim depois.

A questão é se você vai sequer notar ou lembrar disso tudo após o setup. O alto nível da história no começo seria capaz de carregar você adiante mesmo que o jogo “por baixo” fosse fraco ou tivesse qualquer problema real de mecânica ou sistema básico. Como não tem, tudo fica divertido. Além disso, as opções estéticas são tão dignas de nota quanto o início da história. Tudo remete a New Orleans em 1968, desde os detalhes visuais até a interface de muito bom gosto, além da trilha sonora… Aliás, a trilha sonora… É um acerto atrás do outro, sem parar.

3050127-mafia3_joyride

“Paint it Black” (Rolling Stones), “Son of a Preacher Man” (Dusty Springfield), “Long Tall Sally” (Little Richard), “Born to be Wild” (Steppenwolf), muito blues da época… Só coisa fina. Sim, algumas dessas canções são meio batidas em filmes e até em jogos, mas o lance é que além de serem muito apropriadas para o cenário, foram bem usadas demais em cenas específicas. Inclusive, para quem se lembra com carinho da cena de Saint’s Row The Third com “What I Got” (Sublime)Mafia III faz uma referência direta rápida usando a versão original de uma música que vocês devem conhecer graças a uma banda punk inglesa dos anos 80… Mas não vou spoilar aqui um dos três momentos mais memoráveis do início do jogo.

Resumo da ópera

Tudo que eu sei é que não vejo a hora de acabar de escrever isso e voltar para o jogo, mesmo travado a 30 frames, no Medium-High e com jogabilidade mediana. Ao mesmo tempo, paguei metade do preço da versão de console e não tenho monitor chique de resolução 21:9 ou sei lá o quê, então não esperava mais do que o port entrega: um jogo funcional a 1080p. Dado o começo memorável e de extremo bom gosto, provavelmente vou ignorar muito do que tiver a ver com mundo aberto; só quero ver aonde a história vai dar, sem acabar estragando a ótima impressão inicial com atividades paralelas que pareçam comuns e previsíveis.

mafiaiii-b

Continuem acompanhando o blog para saber se Mafia III cumpre todas as promessas no campo narrativo e melhora na parte das mecânicas – por exemplo, nos sistemas de controle e influência de áreas da cidade!

3 comentários sobre “Duas coisas que você precisa saber sobre Mafia III antes de comprar

  1. Adicionalmente, eu não colocaria minha mão no fogo pelas resenhas da crítica também já que não rolou um passe antecipado para testar o jogo. Eu não sei como funciona com jogos exatamente, mas na crítica de filmes dá pra ver de longe a má vontade de um site quando não rola uma cabine de imprensa antecipada. Não acho que seja muito diferente.

    Curtir

    1. Eu percebo isso um pouco em alguns podcasts, especialmente os da IGN/Beyond e da Game Informer. Os do Easy Allies e do Giant Bomb costumam ser mais relaxados e eles debatem abertamente sobre esse lance de cópia pra review que chega em cima da hora sem misturar muito as coisas – este ano teve o caso do Doom, que o pessoal desses dois casts adorou mesmo com tudo conspirando contra antes do lançamento.

      O bom dessa onda recente dos portais fazerem artigos “resenhas em progresso” é que, se o cara estiver de má vontade pelo atraso no código ou qualquer outra coisa, já transparece ali. Como são artigos “comuns”, e não as resenhas finais, eles se abrem mais, quase como se estivessem postando em um blog. Por enquanto só vi boa vontade com o Mafia nos artigos desse tipo, mas também, é difícil não ficar assim com o começo sensacional do jogo em termos narrativos.

      Curtir

Sem comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s