Há duas semanas, a revista PC Gamer iniciou uma pesquisa anônima online sobre pirataria, incluindo idade, local de origem, faixa de renda e perguntas diversas. Você já pirateou jogos de PC? Ainda pirateia? Parou ou continuou por quê? E assim por diante. A motivação era bastante nobre: investigar declarações polêmicas como a do CEO da Ubisoft, que em 2012 disse ter estimativas de que 93% dos jogadores de PC pirateavam. A pesquisa surgiu após comentários em um artigo da própria PC Gamer, “The State of Piracy in 2016”, que vale a pena ler também.

PCGamerLogoHoje, a revista publicou os resultados. Muito para a surpresa deles – e minha também, que respondi à pesquisa – foram mais de 50.000 entradas. Ainda que a pesquisa não tivesse meios de impedir respostas “zoeiras” e múltiplas, o tamanho da amostra já dá alguma credibilidade. E os resultados podem surpreender muita gente, especialmente os relacionados ao Brasil – sim, nosso país ficou entre os 10 mais participativos, com mais de 1.000 leitores huehuebr respondendo à pesquisa.

Números globais

Claro, é preciso ter em mente que “leitores da PC Gamer” dificilmente se equivale a “jogadores de PC” em geral – eu me arrisco a dizer, sem muito medo de errar, que a maioria dos jogadores de qualquer plataforma hoje não segue regularmente publicação nenhuma, nem mesmo online. Ainda assim, considerando a natureza da plataforma – se você joga no PC, provavelmente precisa ter fontes de pesquisa regulares – e a total falta de concorrência significativa à PC Gamer na imprensa de games para computador, também é seguro dizer que, se for para levar a audiência de uma publicação a sério, a PC Gamer é a que melhor se candidata. Nem mesmo a IGN deve ter a mesma importância e alcance para o público jogador em geral quanto a PC Gamer tem para os jogadores de PC.

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Imagem só para irritar puritanos e feministas

Isso dito, vamos a alguns números interessantes desses mais de 50.000 leitores – lembrando sempre que isso foi o que declararam anonimamente:

  • 35,8% pirateiam nos dias atuais e 64,2% não pirateiam
  • 90% já piratearam alguma vez na vida
  • 25% já piratearam mais de 50 jogos
  • Mais de 40% dos adolescentes pirateiam, e a porcentagem cai até chegar a 15% entre 41 e 50 anos (meu caso, e não estou entre esses 15%)
  • Uma queda semelhante ocorre de acordo com o aumento da renda anual

Ou seja: 35,8% ainda é um número alto, mas certamente muito menor do que se acredita ou se alega. Também é consistente com o movimento do mercado de PC, que tem rendido cada vez mais nos últimos anos, especialmente após a “virada de geração” dos consoles. O resto é o óbvio, ainda que sempre bom de comprovar com estatísticas: quem mais pirateia é quem tem menos acesso facilitado a compras, seja por idade ou por renda insuficiente. Quanto mais madura e mais capaz de pagar pelas próprias coisas, menos a pessoa pirateia.

Moralidade e motivos para piratear

nelson-muntz-pirataA PC Gamer também perguntou se os leitores acham errado piratear, e quais são seus motivos para fazê-lo ou não. De forma muito inteligente, não deixaram muito espaço para nuances aqui (algo que muito instituto brasileiro de pesquisa deveria aprender…). Por exemplo, sobre a moralidade de piratear, as respostas eram apenas “Sim” [é errado], “Não”, “Sim, mas pirateio assim mesmo” e “Depende de quem fez o jogo”. 34,8% disseram “Sim”, 19,5% disseram “Não”, 21,6% pirateiam mesmo achando errado e 22,7% acham que depende da empresa.

O que mais me chamou a atenção aqui, além de qualquer discussão moral ou jurídica, é que quase 1/4 dos leitores acha que certas empresas merecem ser pirateadas. Se eu fosse um executivo de produtoras de jogos, me preocuparia mil vezes mais com isso do que com números escalafobéticos como os 93% do CEO da Ubisoft, que claramente não condizem com o estado real do mercado em ascensão. Você não muda os hábitos das pessoas sem mudar a percepção delas do mundo, e se tanta gente acha que você as está sacaneando, é hora de mudar suas práticas comerciais. Depois não chore se o mercado voltar a encolher: o recado de uma parcela significativa do público foi dado.

pcgamingindustryAo mesmo tempo, entre os motivos declarados para piratear, “para testar o jogo” foi o mais escolhido, especialmente nas faixas etárias intermediárias. Os mais jovens tendem a ser os que menos se preocupam com DRM – talvez por estarem acostumados a formas não-invasivas, como o Steam, e serviços sem DRM como o GoG.com – enquanto os mais velhos acham mais natural pagar por um jogo e se importam menos com as atitudes das publishers.

Aliás, DRM e publishers foram as razões menos citadas no geral, abaixo de 20% em todas as faixas etárias – isso mesmo em uma pesquisa que permitia escolher mais de uma resposta. Pode parecer contraditório com os 22,7% que responderam “depende da empresa” antes, mas tenha em mente que, mesmo que uma pessoa ache que uma EA da vida merece ser pirateada, isso pode ser pelos preços absurdos que ela pratica em certas regiões, e não por motivos éticos ou morais.

Essas respostas de motivos, quando classificadas por renda, não mudam muito. Elas variam mais por país, com uma tendência clara: em países com altas taxas de pirataria, a principal motivação é o preço, enquanto os países com menos piratas lideram a resposta média global, a de testar o jogo.

Falando em país… E o Brasil?

Pirataria no Brasil-sil-sil

brasil-pirata-615x300Vale a pena salvar essa pesquisa nos seus Favoritos para usar sempre que alguém vier falar de pirataria no Brasil, porque de fato os resultados foram diferentes do que se esperava. Aliás, são especialmente pertinentes nessa época de abuso de algumas filiais locais de grandes publishers, como Warner, EA e afins, porque contradizem qualquer desculpa que elas possam dar sobre o mercado de jogos para PC no país.

Para começar, segurem essa: o Brasil ficou entre os 10 países com mais respostas, mas não está entre os 10 que mais pirateiam. Ficamos em torno de 50%, acima da média global, mas ainda abaixo de Argentina, Grécia, Índia, Indonésia, Filipinas, Portugal e seis países do Leste Europeu. Vale apontar que a PC Gamer só filtrou os resultados de países com mais de 250 respostas, para evitar distorções maiores; ou seja, talvez ainda existam outros países que pirateiam mais do que o Brasil, pelo menos entre os leitores da revista.

Uma curiosidade é que a Rússia, outro país notoriamente acusado de “antro de pirataria” no PC, também ficou em torno de 50%. Você pode estar pensando que leitores brasileiros e russos da revista estão de mãos dadas na mentira agora, mas eu consigo pensar em outra razão que justifica uma possível honestidade geral: Brasil e Rússia têm preços diferenciados no Steam e em algumas outras lojas online, como o uPlay (e o Origin pré-2016, em boa parte).

Steam-BrasilJogos para PC são vendidos a bem menos de US$ 60 no lançamento aqui e na terra da vodka, algo que não ocorre na maioria dos países mais “pirateiros” acima. Jogadores de países como Lituânia, Grécia ou Romênia ainda pagam o mesmo em euros/moeda local no Steam que os britânicos ou alemães, mesmo vivendo em economias bem menos ricas, quase equivalentes às do Brasil. Um jogador da Bulgária relatou que jogos custam 1/3 do salário mínimo local – percebem a semelhança com a nossa realidade em consoles? Bem ou mal, somos privilegiados no Steam em relação a boa parte do resto do mundo.

Não que isso sirva de desculpa para as empresas, e sim de alerta: a tática do Steam de diferenciação de preços funcionou para conter a pirataria aqui e na Rússia. Os números da pesquisa deixam isso claro. Empresas como a EA é que podem tornar a pirataria um grande problema de novo ao cobrarem R$ 200 ou mais, gerando uma profecia autorrealizável. Não somos mais uma Bulgária em termos de mercado de PC, mas podemos voltar a ser rapidinho.

Por que o brasileiro pirateia?

tabela-de-preçoNão à toa, mesmo com a nossa mamatinha no Steam – e a partir deste mês, no GoG.com também – a principal motivação desses 50% de piratas no país é… adivinhem?… Sim, preços. Mais de 80% dos participantes da pesquisa disseram que pirateiam porque jogos são caros demais, a maior porcentagem desta resposta no mundo todo. “Para testar o jogo” foi só a terceira resposta, ainda que na média global (pouco mais de 60%), atrás de “Não tenho dinheiro para pagar” (em torno de 70%). O que só comprova que imagem e percepção são tudo, e nem sempre estão bem conectados à realidade: mesmo pagando menos no Steam, ainda achamos tudo muito caro.

Não me espanta: brasileiros adoram vender a imagem de povo acolhedor, mas na prática, estão entre os povos mais desconectados do resto do mundo hoje, com pouca ou nenhuma noção de outras realidades além do mínimo que veem na TV – e que ainda chega distorcido por ideologias. A maioria nem imagina que jogos são caros no mundo todo, mesmo em países ricos, por serem a forma de entretenimento mais completa (áudio, visual, texto, interação, tudo em um pacote só) e das mais complicadas e demoradas de produzir e distribuir. A diferença é que em países mais ricos e com menos entraves ao comércio, pessoas podem arcar com entretenimento mais caro; aqui, vamos na direção contrária em todos os sentidos.

battlefield-1-pre-venda-origin-deluxe-1Há também outros dois possíveis motivos mais compreensíveis para essa percepção “careira”. Primeiro, justamente o movimento recente de empresas como EA, Bethesda e Blizzard, que aproveitaram a alta do dólar para abusar no PC; a pesquisa pode ter vindo em um momento conveniente demais para expressar indignação quanto a isso, e não condeno ninguém por fazê-lo. Eu mesmo tenho batido nesta tecla aqui no blog.

Segundo, talvez muita gente tenha pensado nos jogos de console ou no geral, mesmo ao responder a uma pesquisa sobre jogos no PC; afinal, o inglês não é um idioma tão difundido aqui, mesmo entre gamers. Considerando a forma como os impostos altos em outras plataformas jogam valores para acima de R$ 250 hoje em dia, também não dá para condenar a mistura de alhos com bugalhos.

Conclusões interessantes

Seja em termos globais ou locais, a pesquisa da PC Gamer desmonta muitas teses furadas e mantidas apenas no achismo ou em dados velhos demais:

  • Pirataria-combate-cd-dvdSim, provavelmente ainda há mais pirataria no PC do que em consoles, mas ela é muito menor do que se alega – e quase certamente menor que em celulares e tablets, por exemplo;
  • O Brasil não é mais um mercado amplamente marcado pela pirataria;
  • As medidas tomadas para reduzir a pirataria em países como Brasil e Rússia são claras e funcionaram; ir na contramão agora é pedir para se dar mal.

Além disso, também precisamos ver os números sobre os motivos para parar de piratear. Eles corroboram a impressão geral: 44% disseram que deixaram de piratear quando melhoraram de renda, mas 56% mencionaram promoções do Steam; 50% afirmaram que usar serviços como Steam ou GoG é mais fácil do que piratear; e apenas 22% alegaram que simplesmente se sentiam mal quanto à prática. Ou seja, o negócio é conveniência, comodidade e valor, ao invés de qualquer atitude ou reação subjetiva contra a pirataria.

Claro que alguns fatores estão fora das mãos das produtoras, como impostos, taxas, regulamentações e burocracia em cada região; ainda assim, ficar reclamando na imprensa, fazer campanhas publicitárias ou apelar para a moralidade não vão reduzir a pirataria. A gente pode entender as dificuldades das publishers no Brasil, por exemplo, mas na hora de abrir a carteira, essa compreensão toda não faz o dinheiro magicamente aparecer onde ele não existe.

Chega de tanto impostoSe é para gastar com marketing, gastem com lobby político para reduzir entraves, que é mais jogo. Na relação com o consumidor, só há um caminho: o menor preço possível, o melhor serviço que puderem manter. E ainda arrisco mais uma, mesmo sem dados concretos: aposto que o Brasil é um dos países em que mais pessoas migram de consoles para PCs. A mentalidade de investir um pouco mais de início (na máquina) para economizar durante anos nos jogos parece estar “pegando”. Eu fiz esse movimento há uns três anos, e cada vez mais vejo pessoas seguindo o mesmo caminho nos fóruns, em grupos de Facebook/WhatsApp e no meu círculo pessoal de amizades.

Se há alguma chance de um dia um governo de um país como o Brasil notar que cobrar impostos altíssimos é idiotice, é assim: migrando para onde as brechas estão (no caso, o Steam/PC). E isso vale para jogadores e empresas. Não faz muito tempo, a Receita passou a permitir que você traga um console do exterior sem pagar imposto, provavelmente para impedir a queda nas vendas de jogos para essas plataformas. Dois ou três anos depois, ainda não temos vendas comparáveis às de países com dimensões semelhantes, como EUA ou Canadá.

A próxima solução é uma só: rever impostos. Enquanto isso, o que EA, Activision e Bethesda estão fazendo com preços é burrice pura: além de incentivarem a pirataria e abrirem espaço para outras empresas roubarem a fatia de mercado delas, estão mandando o sinal errado para os governos, cobrando no PC o mesmo que cobram nos consoles. Depois não chorem: o certo seria incentivar ainda mais o mercado de PC, para mostrar que os governos ganham mais quando há menos impostos. Mas paciência, um dia isso há de mudar, mesmo que demore. E pesquisas como a da PC Gamer são uma bela arma para essa batalha.

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