Jogando agora: MOBorderlands, ops, Battleborn

O jogo começa com uma imagem estática de um mecanismo antigo em pedra. Um narrador com voz envelhecida começa a contar uma história de muito, muito tempo atrás, intercalando clichês linha “era uma vez” com intervenções que subvertem e ironizam esses mesmos clichês usando linguagem moderna. O conto progride e termina com uma lenda que representa uma ameaça ainda maior ao universo do cenário do jogo, já apocalíptico no momento.

Corta para uma animação que apresenta os personagens principais do jogo com bastante ação, alguns momentos engraçados e uma canção pop moderna, reproduzida na íntegra. A letra tem a ver com a situação, embora o tom/ritmo da música seja quase contrastante com o clima das imagens e do jogo. Você nota que a desenvolvedora se esforçou para soar cool, e em parte conseguiu – definitivamente, não é uma abertura óbvia.

Borderlands? Borderlands 2? Não, é Battleborn mesmo. E já na abertura, a Gearbox não esconde de ninguém que está atrás do mesmo público – embora para um gênero de jogo híbrido um tanto diferente.

Borderlands para a geração MOBA… Da qual não faço parte

Antes de mais nada, vou deixar claro o seguinte: nunca joguei um MOBA real. Nada de Heroes of the Storm, DOTA ou League of Legends, e nem mesmo visões mais peculiares, com outras perspectivas ou mecânicas, como Smite. Tudo que sei sobre o gênero vem de artigos, vídeos e comentários de pessoas que jogam, em diversos níveis de comprometimento. Não é o suficiente para avaliar a eficácia dos elementos de MOBA em qualquer jogo, mas o bastante para perceber quando esses elementos estão lá – ainda mais em títulos de tiro em 1ª pessoa com algum componente online competitivo.

A Gearbox não escondeu suas intenções para Battleborn em nenhum momento. Desde o anúncio, estava claro que era um MOBA de tiro em 1ª pessoa. Não dá para culpá-los: Borderlands já era meio caminho andado. Eles tinham o jogo em equipe, personagens bem distintos com árvores de habilidades malucas, alguma interatividade de cenário, o visual mais puxado para o cartunesco… Faltava só transportar isso para arenas competitivas. E justiça seja feita: poderiam ter feito Borderlands 3 ou um spin-off em cima disso, mas preferiram começar (quase) do zero e criar uma franquia nova. Ponto para eles.

marquis_helix_screen

O negócio é que eu não sou parte da geração que pirou em MOBAs. Eu pirei em Borderlands. A cada ano que passa, me convenço mais de que a série tem um papel muito maior na história dos jogos do que se imagina. Borderlands pode ter sido o grande freio em muitas tendências que ameaçavam estagnar os jogos de tiro: dependência de hiperrealismo, seriedade em demasia, palheta de cores marrom/cinza, progressão chata baseada apenas em armas, e assim por diante. Tenho certeza que sem Borderlands, não existiria DestinyBulletstorm ou The Division, e séries como Call of DutyHaloTitanfall jamais teriam espaço para acelerarem a ação e a mobilidade como fizeram.

Sem contar o sucesso comercial: só Borderlands 2 vendeu 13 milhões de cópias, o que deixou a série bem próxima de gigantes como Grand Theft AutoCall of Duty ou Halo. Para efeito de comparação, os três Mass Effect juntos venderam 14 milhões. Esses números são importantes porque desenvolvedores se espelham nos jogos mais bem-sucedidos quando precisam garantir retorno, e Borderlands está lá, mesmo que a crítica ou alguns jogadores não notem (ou aceitem).

Borderlands_2_Handsome_Jack

Enfim, meu interesse em Battleborn não é, nem nunca foi, como MOBA. Antes do beta, estava meio que desligado do jogo, até descobrir que ele teria sim um modo história e uma série das características em comum com Borderlands. E é nessa perspectiva que estou abordando o jogo. Não tenho como avaliar, e nem me interessa, se os modos competitivos online são tão estratégicos e tensos quanto DOTA, tão acessíveis quanto Heroes of the Storm ou tão viciantes quanto LoL. Provavelmente não são. O que eu quero saber é se dá para jogar sozinho e/ou com amigos e ter pelo menos parte da mesma satisfação de Borderlands enquanto o terceiro jogo não vem. O resto é bônus.

O que veio de Borderlands

A primeira coisa a notar é a introdução descrita acima, apesar dela não ter o mesmo impacto – especialmente por causa da animação 2D meio à japonesa, que é um tanto “travada” e longa demais. A segunda é o visual, claro: meio cartunesco, meio cel-shading, e com muita liberdade artística para impressionar. A terceira é a combinação comum de vida + escudo dos personagens, com as barras no canto inferior esquerdo e tudo mais. Por fim, em poucos minutos de jogo, você sente a movimentação típica de Borderlands – meio flutante, meio shooter tradicional.

Dependendo do personagem, a mira e a jogabilidade geral também podem lembrar bastante a série mais famosa da Gearbox. Battleborn tem 25 heróis e alguns nem armas usam, então a sensação de reconhecimento vai variar bastante. Há casos como o de Oscar Mike, Marquis e Caldarius, em que até as habilidades remetem a Borderlands – Mellka, por exemplo, não recarrega a arma, e sim joga-a longe para gerar um efeito de veneno. Já personagens como Orendi, Isic e Shayne + Aurox têm uma lógica mais própria, com efeitos que se complementam entre si, às vezes sem armas convencionais. O resto (dos que joguei) está em algum meio-termo, lembrando tanto classes de Team Fortress quanto heróis de MOBAs.

BattlebornMatch

Outra semelhança está no foco em jogo em equipe. O matchmaking parece buscar sempre jogadores mais ou menos no mesmo nível, é fácil convidar amigos diretamente da sua lista, e até cinco heróis podem encarar uma missão de história juntos. A estrutura dessas missões é diferente, e ao contrário de Borderlands, há multijogador competitivo aqui, mas é evidente que a Gearbox usou sua experiência com co-op divertido em Battleborn.

O que veio de MOBAs e Team Fortress

Perceba que, embora Borderlands ocasionalmente tenha um personagem com espada ou uma árvore de skills com bizarrices, você passa 95% do tempo atirando com armas comuns. Elas variam em alcance, cadência de tiro e atributos comuns de um shooter, mas ainda são armas. Em Battleborn, a variação da jogabilidade básica é muito maior. Você pode ter uma equipe com um herói disparando raios das quatro mãos, outro usando os punhos, um terceiro disparando flechas e assim por diante – e mesmo entre aqueles com armas “comuns”, nem sempre eles têm botão de mira. Dificilmente você vai contar apenas com sua arma principal, como seria de se esperar de um MOBA ou shooter linha Team Fortress.

Também há papéis e grupos distintos, é claro. Em geral, os personagens se dividem em Ataque, Defesa e Suporte, e são descritos com características mais únicas, como “briguento”, “versátil”, “atirador de elite”, “iniciador” etc. Além disso, são classificados como Fácil, Avançado e Complexo em termos de usabilidade. As facções estão mais para ferramenta de cenário, mas dão uma boa ideia do que esperar de um herói que você ainda não tenha experimentado: os Peacekeepers, por exemplo, têm um perfil mais “terráqueo” (exagero de Montana à parte), enquanto os da LLC tendem a ser robôs, e assim por diante.

BattlebornFactions

Porém, a influência mais evidente dos MOBAs e afins está na estrutura do jogo. Sim, ele tem uma história/”campanha”, mas ela não é contada com cutscenes e uma sequência de fases ou áreas. Há um Prólogo obrigatório com Mellka, que estabelece as bases do cenário/universo, seguido de uma sequência de missões – cada uma em sua própria área/mapa, sem uma sequência narrativa evidente, e que precisam ser iniciadas individualmente do menu principal. O universo foi quase todo invadido/tomado e um grupo de guerreiros sobreviventes de diversos planetas estão se juntando para formar uma resistência; cada missão recruta um herói ou atrapalha os planos do grande vilão de alguma forma.

Na prática, são oito missões de treino para o multijogador, embora não sejam bolinho, mesmo na dificuldade Normal. Elas se dividem em três tipos: raid, ou “mate tudo que vier, incluindo minichefes e chefes”; defesa, ou “chegue até o ponto X e defenda-o de ondas de inimigos”; e escolta, que pode envolver tanto defender um robô gigante pelo cenário todo quanto N criaturinhas/robozinhos de ponto A a B, em um caminho infestado de inimigos. Todas têm pontos de construção de turrets, armadilhas e drones ao custo de shards (a “moeda” ganha nos cenários), embora as missões de defesa e escolta obviamente tenham mais desses pontos do que as de raid. Jogando sozinho, é bem difícil terminá-las em menos de meia hora cada, com algumas chegando a quase uma hora – especialmente as de defesa.

BattlebornHelix2

Outra coisa importante é que há três níveis de progressão, um para o jogador e dois para os personagens. Como um MOBA, você sempre começa cada missão com seu personagem no nível 1 de Helix – ou sua “árvore” de skills, na verdade uma sequência de DNA em que você escolhe entre dois efeitos/aprimoramentos para suas habilidades, armas ou o próprio herói. O máximo é 10, e em todas as missões que joguei cheguei lá em algum ponto, nem que fosse perto do final. Ao concluir cada missão, seu personagem sobe de Rank, o que desbloqueia Mutações (“terceiras opções” em pontos distintos da Helix dele), skinstauntslore de cada um. Por fim, a cada “jogada” você sobe seu Command Rank ou nível geral, o que desbloqueia slots de loadout e possibilidades de compra de packs de itens.

Falando neles, é claro que, como um derivado de MOBA, Battleborn teria um componente “ganhe pacotes com itens diversos”. Você pode montar um loadout com esses itens, que dão efeitos como aumentar velocidade de movimento, recuperação do escudo ou tempo de cooldown – muito parecidos com os de itens em Borderlands – mas são ativados com o gasto de shards a cada missão/partida. Isto é, assim como a Helix, não são fixos, e sim ativados durante cada jogada. Pacotes podem “dropar” ou serem comprados com pontos, e existem em diferentes raridades ou de itens de facção – aí incluindo skins dos personagens de cada uma, por exemplo. É aquele fator “termine a missão e veja o que você ganhou” que não poderia faltar em um jogo deste tipo.

O que é de Battleborn, para o bem e para o mal

E como tudo isso se soma? Bom, eu ouvi uma boa comparação no podcast do Giant Bomb esses dias. Enquanto Battleborn era lançado, começava o beta aberto de Overwatch, da Blizzard, e muito em breve teremos Paragon, da Epic Games. Overwatch é claramente uma nova leitura de shooters baseados em classe e focados no competitivo, linha Team FortressParagon será um MOBA mais tradicional, só que em terceira pessoa; e Battleborn fica em algum ponto no meio do caminho. Se isso pode confundir o público e impedir que apenas os fãs mais arraigados da Gearbox abracem o jogo, só o tempo vai dizer.

BattlebornCharacters

O que dá para avisar desde então, do lado bom, é que os personagens são bem interessantes no geral. Já experimentei mais de 10 e o único que não gostei foi Oscar Mike, justamente por parecer um soldado futurista genérico – e sim, claro que essa é a piada, mas a jogabilidade com cloak, rifle de assalto e granadas acaba ficando sem graça na comparação. As funções e peculiaridades de cada um se complementam muito bem, e todos são equilibrados o bastante para poderem ser usados sozinhos – embora algumas missões fiquem mais fáceis ou mais difíceis dependendo da escolha: você vai ter problemas com um herói de suporte em uma missão de defesa, por exemplo.

A arte, o humor e o clima geral lembram muito Borderlands, mesmo sem uma história “fechada”, e isso anima a jogar. De minichefe robô que acredita ser um “rei aranha” (e “sofre” com pesticida!) até um herói robô-sniper que solta frases em alemão e se comporta como um gentlemanBattleborn é zoeira e diversão o tempo inteiro. As habilidades são sempre bastante distintas, nada se parece demais com nenhuma outra coisa, e a diversidade dos itens recupera aquele senso de comparação constante de loot que estamos acostumados a ver nas zilhões de armas de Borderlands. Além disso, o desempenho da versão de PC está ótimo desde o início, com belos efeitos de iluminação e framerate mais do que estável.

BattlebornBossGeoff

O que pega são decisões de design que podem ter a ver com MOBAs, mas têm potencial grande demais para frustração. O caso mais evidente é o fato do jogo todo ser online, incluindo nas missões de história, e mesmo jogando sozinho. Isso quer dizer que se sua Internet ou o servidor da Gearbox cair, você vai ser mandado de volta ao menu principal, mesmo após 40 minutos e já no finalzinho da partida. E aí entra o problema maior: não há como voltar no ponto onde parou. Você perde tudo que tinha acumulado na sessão e precisa começar do início. Só me aconteceu uma vez em mais de 10 horas de jogo, mas foi frustrante o suficiente para me fazer desligar o PC e ir assistir algo no Netflix.

Para piorar esse quadro, as missões de defesa e escolta também podem ser frustrantes por conterem “estados de falha” – isto é, se o ponto defendido ou a escolta foram destruídos, a missão termina, e você precisa recomeçar do início. Os checkpoints existem apenas para o caso de você morrer (membros do grupo podem voltar gastando uma vida) e apenas naquela sessão, não para poder tentar de novo do meio. Há missões com três pontos de defesa progressivamente mais difíceis, e ver o último ponto ser destruído pelo último inimigo, após mais de 40 minutos de jogo, é desanimador demais, sozinho ou em grupo.

BattlebornEscortMission

Essas características são de MOBA e não deveriam surpreender, mas alguns detalhes de Battleborn não ajudam. Por exemplo, as descrições das missões no menu não incluem os tipos (raid/defesa/escolta); logo, na primeira vez em que jogar cada uma, você não terá informações para escolher um herói apropriado. Além disso, se quiser encará-las com pessoas aleatórias, saiba que entrar em Story Public não permite escolher uma missão específica: o jogo primeiro encontrará jogadores e depois oferecerá três opções aleatórias a serem votadas. Ou seja: para terminar toda a campanha, você precisará jogá-la sozinho ou convidando gente da sua lista de amigos. Como alguns heróis são desbloqueados nessas missões – e você vai querer desbloqueá-los – prepare-se para falhar em uma missão de defesa duas ou três vezes até decorá-la e/ou escolher um herói apropriado para ela.

Por fim, o jogo ainda tem alguns probleminhas pontuais, que talvez possam ser resolvidos com patches. Em uma missão de escolta, após passar por um pequeno incêndio, meu personagem continuou tomando dano de fogo por segundo até morrer – de alguma forma, o jogo não registrou o fim do efeito contínuo. Em uma partida de defesa, o último inimigo de uma onda ficou preso em um ponto inalcançável do cenário; por sorte, após alguns minutos, o jogo “entendeu” que a onda já deveria ter acabado e iniciou a próxima. E pelo menos uma vez eu fiquei preso em um trecho do cenário e precisei usar uma habilidade especial para escapar. São coisas menores, mas que podem estragar uma partida quando combinadas com alguns dos outros fatores acima.

Conclusão: vale a pena?

O principal problema de Battleborn não é ele mesmo, e sim a concorrência. Quem jogou/está jogando o beta de Overwatch (ou seja, praticamente todo mundo…) não vai conseguir evitar as comparações, e a diferença de qualidade geral entre os dois é muito evidente. Por mais que isso ocorra pelo jogo da Blizzard ser fora de série (candidato a Jogo do Ano!), e não por Battleborn ter qualquer coisa de realmente ruim, na disputa pelo seu dinheiro, não tem muito o que pensar: se você quer um dos dois para jogar online com seus amigos, vá de Overwatch (mais sobre ele aqui muito em breve).

BattlebornNotCasual

O apelo de Battleborn, como está óbvio desde o início, é para os fãs de Borderlands. Mesmo assim, eles precisam “mergulhar” no jogo com a mentalidade correta e bem informados: embora a jogabilidade básica seja tão divertida quanto, e a quantidade de personagens seja um fator muito positivo, as influências de MOBA mudam bastante a experiência. Mesmo quando tudo dá certo, é preciso entender que é um jogo de missões de 30 a 60 minutos, a serem encaradas não como fases de um shooter normal e sim como partidas de um multiplayer que, por acaso, você pode jogar sozinho. E que ainda por cima envolvem estratégia, possibilidade de falha mais alta do que o normal e replay constante não apenas para ganhar loot ou subir de nível, mas para testar novos personagens e estratégias e melhorar sua pontuação naquela missão.

Além disso, não é um jogo para curtir como uma história tradicional. Há muito o que ser apreciado no universo e nos cenários, mas não em termos de narrativa, seja ela tradicional ou “meta”. Isso diminui bastante o valor para jogadores linha “bloco do eu sozinho”, a não ser que estejam mesmo interessados nas novidades que MOBAs podem trazer para a fórmula Borderlands. Esse é o meu caso, inclusive. Mas ao somar tudo, talvez o público-alvo de Battleborn seja específico demais, e o jogo pode sobreviver apenas em cima da enorme base de fãs da Gearbox e do raro overlap entre jogadores de DOTA 2/League of Legends que por acaso também gostem de Team Fortress e afins.

BattlebornMatchmaking2

No geral, fiquei feliz de tê-lo comprado no PC, não tanto pela versão melhorada (parece que Battleborn roda a 30 frames em console) quanto pelo preço – R$ 80 na Nuuvem em uma promoção, R$ 99 como preço oficial. Se tivesse pago mais no PS4 ou no Xbox One, ainda por cima sem mais ninguém entrando na mesma onda, poderia ter me arrependido, considerando as dificuldades que jogar sozinho pode apresentar. Pelo preço do PC vale a pena, nem que seja para terminar as missões de história, testar cada um dos 25 personagens e brincar um pouco no multiplayer. Mas não é jogo para dedicação a longo prazo, pelo menos não por enquanto. Esse jogo é Overwatch

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