2015-mini-2011Este artigo faz parte da série Melhores de 2015, com os games lançados este ano que este humilde blog considera que devem ser jogados por quem puder. Consulte a página Melhores de 2015 – Lista de categorias para ver as categorias do ano e o artigo Aquela listinha em andamento para ver quais jogos são candidatos a todas as categorias.

E lá vamos nós para outra categoria que consegue ser ainda mais subjetiva do que uma “premiação” de Melhores de Alguma Coisa já seria por natureza. Não é apenas uma questão de gosto, e sim de visão do papel que a música serve nos jogos. Para alguns, basta ser apropriada ao cenário que está valendo; para outros, a música pode arruinar ou elevar um momento, seja ele narrativo ou de jogo mesmo. Alguns consideram que somente música original vale, enquanto outros gostam de enfatizar o “bom gosto” na escolha de faixas licenciadas. Insira aí as preferências pessoais e temos uma receita perfeita para discussões intermináveis em bares e fóruns online.

O mais objetivo que se pode ser é dividir trilhas em diferentes abordagens, que existem em duas camadas. A primeira e mais óbvia é se a música foi composta para o jogo ou foi licenciada. A segunda é dividir a trilha em gêneros musicais específicos. Eu gosto de abordar essa camada da seguinte forma: música “clássica”, que inclui qualquer tipo de canção instrumental (ou com mínimo de vocais) com orquestra ou instrumentos folclóricos; música pop, que inclui “japonezices” e qualquer trilha de jogo de ação com instrumentos eletrônicos e/ou guitarras; e bizarrices únicas criadas para um jogo específico, que pode misturar qualquer coisa, incluindo “clássico” e pop. Isso explicado, vamos às considerações gerais:

========== 2015 ==========

2015 foi um ano ótimo para trilhas sonoras em geral, mas não para as de um tipo: as licenciadas. Foi-se o tempo em que (quase) todo jogo de corrida, esportes ou ação vinha com uma seleção de faixas memorável, ou pelo menos algumas músicas emblemáticas da época que marcaram os jogadores por anos. Pense em “My Favourite Game” dos Cardigans (Gran Turismo), nas trilhas de Tony Hawk’s Pro Skater, em “Song 2” do Blur (Fifa 98), em “Paradise City” do Guns n’ Roses (Burnout Paradise) e, mais recentemente, na excepcional trilha pseudo-setentista de Driver: San Francisco e na inesquecível trilha de Hotline Miami. Desde então, o melhor que tivemos foi ver uma música lindíssima como “Run Boy Run”, de Woodkid, ser usada em trailers de Assassin’s CreedDying Light, mas não nos jogos em si. Não é à toa que eu mesmo criei minha própria playlist para ouvir enquanto jogava Dying Light (ouça-a no Spotify Web Player).

O que poderia ter salvo o ano nesse campo foi a volta dos dois jogos de música com instrumentos de plástico; porém, talvez pelos orçamentos menos bombásticos, nenhum dos dois foi excepcional na escolha das faixas em disco. Ainda assim, ambos merecem ser conferidos. Guitar Hero Live tem apenas 42 músicas e surpreendentemente se concentra mais em rock alternativo/indie atual, ao invés do hard rock/metal que caracterizava a série. Por outro lado, a GH TV oferece centenas de clipes de gêneros e épocas variados. Já Rock Band 4 consegue chegar a 65 músicas, ainda abaixo das mais de 80 de Rock Band 3, mas com uma playlist mais variada que o concorrente. No geral, considerando apenas as músicas em disco, prefiro Rock Band 4. De qualquer forma, os dois jogos têm a música licenciada que mais gostei de conhecer em 2015:

Dois jogos de 2015 conseguiram, pelo menos, misturar faixas licenciadas com música original de uma maneira notável. Fallout 4 não chegou a ser memorável na parte composta para o jogo – como sempre acontece em títulos da Bethesda, aliás – mas as canções antigas escolhidas para as rádios foram simplesmente perfeitas, sublinhando de forma irônica e melancólica o estado do mundo quando o apocalipse nuclear ocorreu. Metal Gear Solid V: The Phantom Pain também segue a mesma linha, com uma escolha excepcional de músicas dos anos 80 (“Friday I’m in Love” do The Cure e um ou outro “paradoxo temporal” à parte) para embalar suas incursões militares, mas pelo menos teve suas faixas memoráveis na parte original, como “Sins of the Father” ou o tema da Quiet:

No rol das trilhas do ano, não poderia faltar algumas esquisitices japonesas. Você sabe, aquelas misturas loucas de música pop com o que der na telha, seja guitarras de metal ou até mesmo jazz. Um jogo que fez jus à tradição de faixas épicas para batalhas de acordo foi o RPG Xenoblade Chronicles X; embora à vezes recaia no previsível, em outros casos, como “Codename Z”, o arranjo meio inclassificável te deixa com a orelha levantada igual cachorro curioso. Persona 4 Dancing All Night pode ser em grande parte um reaproveitamento de músicas do jogo-“mãe”, mas a faixa-título, “Dance”, não deixa a peteca cair, e os novos arranjos em geral são sensacionais – incluindo o remix meio bate-cabeça, meio dubstep de Akira Yamaoka (sim, ele mesmo, o de Silent Hill) para uma das faixas mais empolgantes da série Persona, “Time to Make History”:

No campo da música original “pura”, mais puxada para o clássico/instrumental, três jogos de horror fizeram bonito para manter a tensão, embora a música em todos eles seja bem esparsa, como manda o gênero: Dying LightUntil DawnBloodborne. Além das faixas instrumentais, Until Dawn também teve uma canção de abertura digna de Silent Hill, “O’ Death”Halo 5: Guardians reaproveitou alguns dos temas clássicos da série, mas surpreendeu com temas inéditos, graças ao novo compositor designado, Kazuma Jinnouchi (responsável pela trilha de alguns Metal Gear anteriores). Porém, o jogo que se destacou mesmo nesse campo em 2015 foi, por incrível que pareça, um indie – ainda que com um bom dinheiro da Microsoft. Ori and the Blind Forest tem faixas simplesmente belíssimas, que por vezes se sustentam mesmo fora do contexto melancólico do jogo:

Um caso meio inclassificável foi o de The Witcher 3: Wild Hunt. À primeira “ouvida”, ela se parece com uma trilha típica de fantasia medieval. Escutada com mais calma, suas camadas de genialidade se revelam. Assim como o jogo em si às vezes passa a impressão de que os desenvolvedores “olharam” para Skyrim e disseram “amigos, boa tentativa, mas nesses pontos aqui é assim que se faz”, a trilha sonora de The Witcher 3 parece “olhar” para a do jogo da Bethesda e dizer: “saquei, você tentou soar como algo folclórico da época, mas ficou ‘limpo’ demais, muito comportado. Um mundo medieval cheio de camponeses sujos não teria música assim, seria algo mais visceral”. E o resultado é exatamente esse: enquanto Skyrim escorrega por parecer música tocada em Feiras de Renascença modernas, a trilha de Witcher 3 é mais “crua”, mais “suja” e condizente com batalhas em que braços e cabeças voam:

A briga pessoal aqui, inicialmente, foi decidir entre o bom equilíbrio de música original e licenciada em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, a pura beleza da trilha de Ori and the Blind Forest ou a coleção de faixas folclóricas mais epicamente suja de qualquer jogo medieval até hoje, The Witcher 3… Mas aí lembrei de outro caso, o da trilha mais inusitada em games dos últimos 10 anos, no mínimo.

========== 2015 ==========

Splatoon (WiiU)

SplatoonBoxArtNada se comparou à trilha de Splatoon em 2015. Nada. É original nos dois sentidos: música composta para o jogo e que não tem precedentes nesse meio, exceto talvez por Jet Set Radio. Porém, é ainda mais esquisita do que a do jogo da Sega, e não apenas na “japonezice”. Os compositores entenderam tudo de inusitado que o jogo tinha e traduziram em uma série de faixas que parecem ter vindo de uma dimensão paralela. É como se o mundo dos garotos que viram lulas de tinta, vestem uma moda peculiar e participam de torneios de um esporte parecido com paintball realmente existisse em algum lugar, e a trilha fosse um portal para o que se ouve nas rádios desse mundo. Tem de tudo, desde improvisação instrumental (“Splattack! [Jam Session]”) a rap torto em uma língua alienígena (“Lookin’ Fresh”), de jingles bizarros (“Visiting High-Color City”) a metal e punk-hardcore “subaquático” (“Metalopod” e “Now or Never! [One Minute Left]”), de reggae estilizado (“High-Color City Tutorial”) a pop japonês (“Fes Theme Announce”).

A trilha funciona em trocentos níveis. Além de ser um raríssimo caso em que a música não parece ter sido composta no nosso mundo, e sim no do próprio jogo, ela funciona como incentivo para as batalhas: poucos jogos online mantêm o jogador tão investido na competição usando a música como Splatoon faz. Ainda tem seu componente de saudosismo, enfatizando o quanto o jogo em si resgata o divertido espírito “radical”-zoeira de alguns títulos clássicos do Dreamcast. E mesmo ouvida isolada, a trilha vai abrir um sorriso no rosto de qualquer pessoa que ainda não tenha arrancado seu coração fora e perdido completamente a capacidade de achar graça nas coisas.

No final das contas, acho que estou perdendo tempo escrevendo sobre ela. A Melhor Trilha Sonora de 2015 não pode realmente ser descrita. É preciso ouvi-la:

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Games que não joguei e poderiam ter entrado nesta categoria: Axiom Verge, Assassin’s Creed: Syndicate, Invisible Inc., Massive Chalice, DiRT Rally, The Legend of Zelda: Triforce Heroes, Transformers: Devastation

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