Retrospectiva 2015: a derrocada dos portáteis

2015-mini-2011A Retrospectiva de 2015 do blog Re: Games aborda tendências que permearam o mundo dos jogos neste mini-2011, ops, 2015. Entenda melhor esta série de artigos no post de abertura, com links para todos os artigos publicados.

Todos nós cansamos de ouvir a ladainha: “mas por que alguém compraria um portátil hoje, com os smartphones aí blá blá blá?” (Não, estúpido, não é a mesma coisa: isso seria o mesmo que comparar um shooter on-rails jogado via Kinect ou Wii Remote com um FPS de ponta em um controle comum). Esse “argumento” foi repetido tão bovinamente pelos “bem pensantes” que chegou a ser extrapolado para os consoles – às vezes com base no que ocorre no Japão, desconsiderando as enormes diferenças culturais entre o gamer médio de lá e o do Ocidente (este artigo explica bem).

wpid-broken-ds1Ainda assim, em 2015, a sensação de que o conceito de console portátil está morrendo foi forte. Não ajuda, claro, que um dos maiores portáteis do mercado atual tenha sido oficialmente abandonado pela sua fabricante (e a notícia tenha saído até na Wired, uma revista de tecnologia); mas não é só isso que está “atravancando” o mercado e fazendo executivos normalmente otimistas, como Shuhei Yoshida, declararem que “o clima não está saudável” (para um sucessor do Vita, no caso).

O que aconteceu? Como este blog gosta de 1) fatos/estatísticas e 2) especulações sobre tendências, vamos tentar entender esse “sumiço” mais ou menos repentino dos portáteis das notícias e das mentes dos jogadores mais ávidos – primeiro, passando por cada portátil, depois pensando de forma geral.

PlayStation Vita: respirando por aparelhos

15-05-28-00-31_0_large_ps_vita_dead_in_the_water_600x300O caso mais óbvio, o do portátil da Sony, ainda é interessante por uma série de motivos. O Vita é muito mais potente que seus concorrentes, ainda conseguiu vender 12,5 milhões de cópias, tem mais jogos disponíveis em geral (mesmo que na maioria portsindies, especialmente nos últimos anos) e é defendido ardorosamente por quase todo mundo que comprou um. Por que a Sony declarou que não fará mais grandes títulos para ele, então?

Na parte de hardware, a resposta é óbvia. A Sony cometeu dois grandes erros estratégicos: 1) querer enfiar trocentas tecnologias nele e 2) usar tecnologia proprietária nos cartões de memória. Embora pareça sensato, do ponto de vista de um fabricante, tomar medidas para facilitar ports de quase qualquer plataforma (incluindo celulares, o bicho-papão do momento) e reduzir a pirataria, os efeitos imediatos foram no preço – e sem vender aparelhos, as vantagens pretendidas se evaporam. Se a Sony aprendeu no PS4 a fugir dos erros que cometeu no início do PS3, parece ter insistido neles no Vita.

O que salvava o aparelho era a possibilidade de economizar em jogos, mas mesmo isso só valia para quem já tinha um videogame da Sony com Playstation Plus. E com o tempo, só sobraram jogos indiesports de PC como candidatos a “brindes”, reduzindo o valor agregado. Uma coisa foi comprar o Vita no lançamento com um Uncharted ou Gravity Rush já na sua biblioteca; outra era comprá-lo em 2014 ou 2015 para baixar Pix the Cat ou Super Time Force “de graça”. O apelo é bem menor, ainda mais quando até fabricantes de placas de vídeo lançam portáteis que acessam sua biblioteca de PC.

Playstation 4 e o Remote Play com o VitaO lançamento do PS4 também foi um fator indireto, apesar do atrativo do Vita como segundo controle/tela. Não é só uma questão de orçamento pessoal, de guardar seu dinheirinho de um possível Vita para “migrar” para a nova geração: os jogos atuais estão cada vez mais caros e demorados de se produzir, graças à alta expectativa de desempenho/recursos. A Sony mal está dando conta de lançar um mínimo de exclusivos para o PS4, quanto mais de preparar um novo God of War ou Killzone para um portátil – ainda mais um com especificações altas como as do Vita.

Sobrou o apoio das produtoras terceiras, que estão ainda mais sujeitas à concorrência dos smartphones: sem nenhum investimento preso à fabricação de aparelho nenhum, para elas é mais vantajoso gastar uma fração do custo de um jogo para Vita em um título para celular, e atingir uma base instalada centenas de vezes maior. Não à toa, as únicas que ainda insistem no Vita lançam jogos que não rendem tão bem em celular, como RPGs japoneses, variantes de Monster Hunterremakes/ports/spin-offs de franquias de nicho, como PersonaDynasty Warriors.

Pessoalmente, ainda acho que o Vita estaria bem vivo se tivesse descartado pelo menos o touch pad traseiro e liberado cartões de memória comuns, mesmo com o “clima não saudável” da expansão dos smartphones. Mas a essa altura, o gato subiu no telhado, e pouca gente quer se dar ao trabalho de ir lá tirá-lo.

Nintendo 3DS: cara nova, táticas velhas

3DS vs. 3DS XLPor muito tempo parecia que a Nintendo seguraria sozinha o mercado de portáteis com sua tradição e sua esperteza no 3DS. Ela fez quase tudo ao contrário da Sony: lançou um portátil menos potente, mais barato, com jogos de porte constantes dela mesma e que aceita qualquer cartão. A diferença está aí: mais de quatro vezes o número de vendas (cerca de 54 milhões hoje em dia). Porém, um dos problemas que a Sony hoje enfrenta “alcançou” a Nintendo: dividir suas equipes de desenvolvimento.

Minha impressão é que a Nintendo pôde se dividir entre dois aparelhos por mais tempo porque o “concorrente interno”, o Wii U, “subiu no telhado” muito cedo – chegando a perder em vendas totais (10,3 milhões até setembro deste ano) para o próprio Vita. O problema é que isso claramente “acelerou” o processo de preparar um novo console “doméstico”, o NX, previsto para 2016 ou 2017 – e este ano, a quantidade de lançamentos de grande apelo para o 3DS diminuiu visivelmente.

Sim, no total até que o 3DS ainda recebeu bastante jogos em 2015. O problema é que a maioria tem mais apelo no mercado japonês e/ou é composta de portsspin-offs. Não tivemos Super Mario Maker para o portátil, e sim um Mario Tennis; não tivemos um Zelda regular, e sim um remake (Majora’s Mask 3D) e um experimento que dividiu opiniões (Triforce Heroes); e até Pokemón ganhou um jogo de puzzle free-to-play (Rumble) e um roguelike (Super Mystery Dungeon). E nada de MetroidStar FoxDonkey Kong

21507472763150_214As atenções de marketing foram bem voltadas para coisas como Tomodachi LifePuzzle & DragonsMonster Hunter 4, remakes e spin-offs de Etrian Odyssey e assim por diante, mais populares no Japão do que aqui. De resto, tivemos jogos de nicho, como Codename S.T.E.A.M.Chibi-Robo e um Animal Crossing voltado apenas a design de interiores. E essas tendências continuam para o ano que vem: novos Fire EmblemMario & Luigi, um port/remake de Hyrule WarriorsProject X Zone 2. A exceção pode ser Bravely Second, mas a essa altura, duvido que o jogo sozinho faça o 3DS saltar em vendas no Ocidente.

A conclusão é óbvia: a grande maioria dos estúdios internos da Nintendo está ocupada com jogos para o NX. E o fato de que a maioria dos lançamentos de 3DS acima tenha sido desenvolvida por estúdios menores, equipes B e/ou terceiros em parceria corrobora isso. Não por acaso, as vendas do portátil caíram visivelmente em comparação com anos anteriores, e a Nintendo finalmente começa a capitular e desenvolver uma estratégia para o mercado de smartphones.

nVidia Shield: perseguindo o PC

dead-trigger2_on_project_shield_v21O engraçado é que, justo quando os portáteis ficam sob fogo cruzado, vem a nVidia se arriscar com o Shield – na versão “Portable”, um controle misturado com aparelho portátil que permite jogar títulos de Android e fazer streaming de jogos de PC para a telinha do aparelho, ou ainda para a TV.

Sim, eu sei, o aparelho foi lançado em 2013 e não parece diferir muito de um Ouya – e vejam como este sumiu completamente de vista. Mas a impressão que tenho é de que a nVidia não vai desistir do Shield tão cedo; na verdade, nunca recebi tanto email nem vi tanta publicidade sobre a marca quanto em 2015. A essa altura, a nVidia até lançou um tablet e uma set-up box – aquelas caixinhas que você liga na TV para transmitir conteúdo, incluindo games do serviço da nVidia. Eles não estão de brincadeira.

O que me chama a atenção no Shield é o potencial de unificação de biblioteca. Não é pouca coisa poder jogar qualquer jogo de PC em qualquer lugar da sua casa (desde que tenha uma placa nVidia compatível) – e se você pegar um jogo no serviço GRID da nVidia, poderá jogá-lo em qualquer lugar com Wi-Fi. E o Shield ainda pode ser usado como um console comum em uma TV. O preço do aparelho é equivalente ao de outros portáteis (US$ 200), e todos nós sabemos que os jogos de PC são em geral bem mais baratos. Ah, e o serviço GRID tem uma assinatura a la Netflix, mas apenas para seu limitado catálogo, que não inclui jogos da geração atual.

O problema, claro, é que o custo geral de setup é maior, mais complicado e mais suscetível a problemas. Por exemplo, jogar em um Vita/3DS depende apenas de um download comum, mesmo que você não tenha um console “doméstico” – e se você tiver um PS3/PS4, diversos jogos são cross-buy para Vita. No caso do Shield, transmitir jogos de PC requer, além de um computador com placa de vídeo de valor razoável, uma boa rede sem fio para evitar lag. Sem o PC, o Shield vira um portátil comum que requer conexão constante – uma desvantagem e tanto.

Porém, eu acho que entendo o que a nVidia está enxergando aqui – e pode ter a ver justamente com a “derrocada” dos portáteis.

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Borderlands 2 – e não é um port de menor desempenho, como o do Vita

Pensem comigo: sempre haverá um mercado, por menor que seja, para a possibilidade de jogar com um portátil na cama, em outro aposento, ou na sala enquanto sua família assiste TV – tanto que o Wii U oferece isso em seu controle-tablet. Esse mercado, obviamente, é composto por gamers dedicados, aqueles que jogam X horas por dia, não o tipo de gamer que joga Candy Crush no smartphone e pouco mais do que isso. Porém, esse nicho não é grande o suficiente para que Sony e Nintendo mantenham portáteis só com ele – essas empresas usam consoles para vender seus jogos, não como uma fonte de renda em si.

A nVidia tem outro perfil. Ela pode lucrar apenas com aparelhos, mesmo desconsiderando seu serviço GRID. Ela já é fabricante das peças mais necessárias e pode lançar algo como o Shield a um custo de produção menor que a Sony e a Nintendo. Além disso, pode oferecer o streaming do PC como um diferencial da sua concorrente AMD – usando assim o portátil para vender ainda mais placas de vídeo, sua principal fonte de renda, sem gastar os tubos em desenvolvimento de tecnologia.

E se a nVidia tiver dobrado sua aposta no Shield exatamente por acreditar que logo não terá muita concorrência no mercado de portáteis?

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão que eu ache que Sony e Nintendo desistirão para sempre de portáteis, mas é um caso a se pensar. Eu mesmo tenho certeza que, se o Vita e o 3DS não ganharem sucessores, vou querer um Shield para satisfazer minhas jogatinas fora da TV quando esgotar minhas bibliotecas dos portáteis atuais. Na real, se eu morasse nos EUA e não tivesse que pagar impostos altíssimos, a essa altura já teria um Shield só para poder jogar mais Fallout 4 antes de dormir – até porque provavelmente minha rede sem fio seria melhor.

Mas tudo isso é especulação, e nos leva às tendências de mercado daqui em diante…

O que pode acontecer?

Qualquer conclusão agora é um chute, mesmo para os maiores analistas de mercado. Porém, alguns boatos e posturas das empresas dão uma dica do que pode acontecer.

Nós já vimos que a Sony não está pensando em sucessores agora e que a nVidia parece estar contando com isso, mas falta um boato bastante intrigante para cobrir: o Nintendo NX seria, na verdade, tanto um console comum quanto portátil, com seus estúdios fazendo duas versões de cada jogo e vendendo-as em conjunto – seja em cartucho, seja online.

Seria mais uma excelente ideia para a Nintendo, que assim reduz tanto seus custos totais de produção (um aparelho conjunto em vez de dois separados) quanto de desenvolvimento (se a versão “portátil” de cada jogo for apenas um port com resolução menor). Isso sem contar os de distribuição, já que poderia vender apenas um cartucho para ambas as versões.

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Se todos esses boatos se confirmarem, teremos uma situação inusitada: Nintendo e nVidia competindo entre si pelo mercado de portáteis, mas com dois públicos-alvos diferentes e complementares. De um lado, um aparelho mais simples de usar que roda MarioDonkey KongPokémon e afins; do outro, um sistema que pode rodar qualquer jogo de PC ou Android, mas que requer um setup de fissurado em tecnologia, que já joga no PC.

E esse cenário não é improvável, já que dá a volta em diversos dos problemas apontados no Vita e no 3DS. Ainda tenho minhas dúvidas se jogadores inveterados de PC estão interessados em poder jogar Metal Gear Solid V: The Phantom Pain em um portátil, após gastarem os tubos para fazer isso em uma TV 1080p ou até 4K, mas isso só o futuro dirá.

O que me agrada nesse cenário, porém, é que não só os portáteis não morrem de vez, como ainda existiria alguma concorrência, puxando preços para baixo e forçando empresas a oferecer mais. Inclusive, é um cenário em que os aparelhos fazem mais de saída: além do streaming do PC, o Shield também funciona como set-up box de vídeo, enquanto o NX nos livraria de dividir o orçamento entre jogos para console e para portátil – pelo menos no ecossistema Nintendo.

Se 2015 não foi um ano muito bom para os portáteis, pode ser apenas uma transição para algo melhor. Vamos ver.

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