Retrospectiva 2014: O Wii U sai do coma

Retrospectiva 2014 - thumbnailA Retrospectiva de 2014 do blog Re:Games aborda tendências bizarras que permearam o mundo dos jogos neste ano que se encerra. Entenda melhor esta série de artigos no post de abertura.

Que o Wii U um dia teria jogos de qualidade para justificar sua aquisição, ninguém com a cabeça no lugar tinha dúvida: é a Nintendo, afinal. O tipo de jogo que ela desenvolve pode não agradar todo mundo, principalmente nos dias atuais, mas é inegável que (1) ela continua sendo mestra no que faz e (2) pode até demorar, mas ela entrega o que promete. A questão é que mesmo essas constatações não eram garantia alguma de que o console fosse sair do vermelho, ainda mais quando as tentativas anteriores de alavancá-lo à base de software não conseguiram o salto desejado. A Nintendo já havia apostado em dois jogos de plataforma do Mario, um 2D e outro 3D, e ambos falharam em impulsionar as vendas do Wii U ao ponto necessário, mesmo com Super Mario 3D World aparecendo em quase todas as listas de melhores do ano (neste blog, ficou em terceiro para mim e em sétimo para os leitores). Se lembrarmos que essas tentativas aconteceram antes e durante a consolidação dos aparelhos mais poderosos das concorrentes Sony e Microsoft, fica claro que seria otimismo demais esperar que a “virada para o azul” ocorresse a essa altura.

Wii U: I want to believeMas estamos em 2014, e o improvável aconteceu: com Donkey Kong Country: Tropical FreezeMario Kart 8Hyrule WarriorsBayonetta 2 e Super Smash Bros, o Wii U finalmente deixou de ser “deficitário”, vendendo quase o dobro do que no mesmo período do ano passado. Os motivos para isso ter acontecido, a despeito de todas as outras previsões em contrário, são puramente especulativos, mas meu chute se baseia em algo meio óbvio: basta olhar para os jogos lançados acima e os futuros (um novo ZeldaStarfoxXenoblade Chronicles X…). Não só eles fizeram a Nintendo levar o prêmio de Desenvolvedora do Ano no The Game Awards 2014, como formam um conjunto que pode ter finalmente “clicado” na mente dos potenciais compradores.

Entendendo a situação

Alguém poderia argumentar que Tropical Freeze não avançou muito na fórmula de Donkey Kong Country Returns (Wii/3DS), que Mario Kart 8 também não inova tanto assim (especialmente para quem jogou Mario Kart 7 no 3DS), que um spin-off da desgastada série Dynasty Warriors não é o bastante para aplacar os fãs de Zelda, que Bayonetta ainda é um título de nicho, e assim por diante. Mas esse tipo de raciocínio ainda se escora em uma mentalidade que não existe mais em larga escala há algumas gerações: a de que pessoas compram um console por causa de um jogo fora de série. Isso fazia sentido quando os aparelhos custavam US$ 200, vinham com dois controles, não havia online e os jogos em questão era os primeiros Super Mario BrosSonic ou Final Fantasy. No cenário atual, os jogadores estão acostumados a várias opções e consoles custam US$ 400 + anuidades online + 1 controle extra se quiser jogar com amigos +… Bom, vocês entenderam. Compradores querem vários jogos bons, não apenas um ou outro excepcional.

The Wonderful 101 (Wii U)
Padrão Platinum de qualidade, mas com pouca tração

Nesse cenário, há outro fator importante também: conta muito a percepção de que há muitos jogos interessantes disponíveis, mais do que a existência real deles. Por exemplo, o Vita está relegado a segundo plano após sofrer com a imagem de ter “poucos jogos”, mesmo que tenha sido um dos consoles (portáteis ou não) com mais títulos disponíveis no lançamento na história dos videogames. O Wii U, por sua vez, já tinha recebido muitas coisas boas antes de 2014, como ZombiUNintendo LandPikmin 3The Wonderful 101, as melhores versões de Rayman LegendsSplinter Cell: Blacklist e dois ótimos jogos do Mario (New Super Mario Bros USuper Mario 3D World).

Mas nem todos esses títulos foram unanimidade, além de terem sido lançados em intervalos bem “espaçados” e, em alguns casos, com versões quase idênticas em outras plataformas. Isso sem contar que, por melhor que os dois títulos citados do Mario sejam, saíram tantos jogos de plataforma do bigode nos últimos anos que parece ter rolado uma certa fadiga. Faltava aquela “massa crítica” que altera a percepção da imprensa e do comprador, e essa “massa” chegou em 2014, especialmente no segundo semestre.

Percepção de público e crítica

A “massa crítica” se forma a partir do momento em que jogos saem em sequência relativamente rápida, são bem recebidos, e “capturam” o interesse do público ao trazer algo inusitado e/ou que atiça a nostalgia. Os cinco títulos exclusivos mencionados no início do artigo foram quase todos muito bem avaliados pela crítica – Hyrule Warriors é a exceção, mas ainda assim foi melhor avaliado do que muita gente esperava (eu incluso). Falando nele, é a primeira vez em muitos anos que vemos algo relacionado a Zelda abandonar por completo a fórmula básica da série, e o jogo vale a pena por isso – sem contar que ele deixa claro que o problema de Dynasty Warriors nem é tanto a jogabilidade “esmaga-botão”, e sim a falta de um cenário mais convidativo, pelo menos para o jogador ocidental médio. Essa mistura inusitada de franquias pode ter impulsionado o fator “captura de interesse”.

Super Smash Bros for Wii U - amiibos
Falaí – se você pudesse comprar ao preço de um lanche do McDonald’s, como nos EUA, não pegaria VÁRIOS?

O fato dos outros exclusivos não serem tão “carne de vaca” também quer dizer muita coisa. Donkey Kong Country teve um jogo recente no Wii, mas antes disso, estava “abandonado” desde 1999. Os fãs de Super Smash Bros estavam esperando um novo título há seis anos, e a nova edição ainda trouxe os amiibos para atiçar aqueles com alma de colecionador. Bayonetta 2 chega quatro anos depois do primeiro, que ainda por cima veio incluso de graça no pacote com novos recursos de jogabilidade – e a Nintendo desta vez nem bancou a puritana, promovendo o jogo até com um ensaio soft na Playboy e com pedido direto de trajes menos recatados. E Mario Kart 8… Bom, ainda é Mario Kart, que bem ou mal só apareceu uma vez em cada console da Nintendo e nunca tinha sido lançado em HD e a 60 frames por segundo. Mais “massa crítica” do que isso, só se o novo Zelda tivesse sido lançado já em 2014 também.

Superando as desvantagens

Claro, ainda há a questão da falta de suporte das produtoras terceiras ao Wii U, mas… Esse barco já afundou faz tempo. A saída para o Wii U é essa mesma: a Nintendo lançar tanta coisa com seu padrão usual de qualidade que as pessoas acabem se sentindo na obrigação de comprar o console, mesmo que seja para ficar como segunda opção em casa. Em 2014, esse “papel secundário” do Wii U ficou ainda mais atrativo e evidente para quem foi atrás do PS4 ou do Xbox One muito cedo: a Sony teve quase todos seus exclusivos adiados para 2015 e ainda sofreu com os problemas gigantes de Drive Club, deixando apenas Infamous: Second Son como título AAA interno para atrair os fãs. A Microsoft foi uma concorrente mais forte – e isso será assunto para outro artigo – mas TitanfallForza Horizon 2Sunset Overdrive não têm, nem de longe, o mesmo apelo que os personagens icônicos da Nintendo têm, ainda mais quando eles “chegam chegando”, disputando espaço no topo das listas de melhores do ano.

Mario e suas moedas em Smash Bros Wii U
Chega de perder dinheiro – é hora de brigar para valer

Na ponta do lápis, o Wii U ainda está na rabeira das vendas da nova geração, mas a Nintendo não precisa realmente que ele supere o Xbox One e o PS4 – o que ela precisa é lucrar com o console e seu software. A julgar por 2014, ela está no caminho certo, tirando o Wii U do vermelho e deixando mais claro ao público que, entre as fabricantes de console atuais, ninguém faz tantos jogos de qualidade quanto a Nintendo. Quando essa percepção volta à mente dos jogadores, ninguém mais se importa com a utilidade ou o formato do GamePad, com o suporte escasso das produtoras terceiras ou com o atraso tecnológico do aparelho e de sua estrutura online. O que importa é que o Wii U é mais barato, já tem uma biblioteca de extensão razoável e ganhou títulos must-play – especialmente para reunir a galera em casa. Tomara que agora, após sair do “coma”, o Wii U se recupere rapidamente e tenha alta do hospital já em 2015.

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11 comentários em “Retrospectiva 2014: O Wii U sai do coma

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  1. eu tenho uma teoria:

    Cada vez eu vejo pessoas da minha faixa etária cansando dos videogames. é um cenário relativamente comum eu conhecer alguém que tem um PS4 e que não mexe nele a meses porque, né? Estigma por estigma, os Call of Duty 18, Assassin’s Creed 45 (e o patch de 1tb para conseguir jogar) e por aí vai estão começando a cobrar o seu preço no quociente coletivo. Qual foi o grande blockbuster desse ano? Halo sem singleplayer (aka Destiny).
    Se é para jogar mais do mesmo, então porque não a Nintendo?

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    1. Pois é. Além disso, a Nintendo ainda é mestra em fazer jogos para reunir a galera na própria casa, algo muito mais interessante para quem tem filhos e/ou família já constituída. Juro que eu não entendo como as outras empresas fazem jogos com co-op online e não se esforçam para permitir modo local também. A Ubisoft foi especialmente vacilona nesse sentido, já que AC: IV permite até 4 jogadores, The Crew é todo voltado para grupo e até Far Cry 4 teve um segundo personagem só para co-op, e em nenhum desses eu posso ligar o segundo controle para jogar com um amigo aqui em casa. Sniper Elite III também não tem motivo para não permitir co-op local. Pelo menos o Call of Duty ainda tem modo para isso, mesmo que seja fora da campanha.

      Só dois reparos:

      1. Single player o Destiny tem, e é até mais longo do que qualquer outro single player de FPS lançado este ano. Se não é *satisfatório* para todo mundo ou meio que um grande tutorial para o jogo “de verdade” (a partir do endgame), aí é outro papo. Mas tem.

      2. O PS4 é um caso especial, como dito no artigo. Aposto que quem tem Xbox One não sentiu o mesmo desapego no segundo semestre – e se sentiu, é porque não levou fé em Sunset Overdrive e Forza Horizon 2, quando deveria. E muito.

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  2. Como assim não intendi o comentário do Cilon Mello em relação da fabula “O menino que gritava lobo” com o desgaste do público com jogos de FPS?

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    1. O menino gritava tanto “lobo! lobo!” só para pregar uma peça que, quando um lobo *realmente* aparece e ele grita, ninguém leva ele a sério.
      Os FPS de maior porte prometem algo “novo” todo ano apenas para vender mais jogos, e aí quando temos uma safra de FPS que *realmente* tentaram fugir da fórmula pré-estabelecida, muita gente não acredita.

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