Rewind – Broken Age, Act I (PC)

Rewind - Análises
Análise

Rewind é a nova seção de resenhas do blog Re: Games, escritas da forma mais direta possível e após terminar um jogo (ou pelo menos jogá-lo por tempo suficiente, caso não tenha um “fim” claro). Não é sempre que termino um jogo, então vale a oportunidade de publicar uma análise…

Broken Age (PC)
A era nas quebrada

Para quem tem memória curta ou não acompanha tanto assim o mercado de jogos, Broken Age é aquele adventure estilo clássico (de apontar e clicar em cenário 2D) que a Double Fine jogou no Kickstarter para tentar arrecadar 400 mil dólares e acabou rendendo mais de 3,3 MILHÕES. No início, eu não cheguei a participar desse zeitgeist por dois motivos. Primeiro, ainda não sei o que pensar sobre crowdfunding: nada contra a prática, mas é meio estranho dispersar a atribuição de investidores em uma espécie de pré-venda ultra-antecipada. Segundo, ao contrário do que alguns alegam, não estamos com nenhuma “seca” de adventures, muito pelo contrário: temos uma enxurrada de indies no gênero, estúdios inteiros quase totalmente dedicados a ele e casos como o da Telltale, levando Jogo do Ano e tudo mais.

Mas a Double Fine acabou aceitando novos backers posteriormente via Paypal/site do estúdio, e aí resolvi pagar para ver. Após finalmente jogar o primeiro Ato, lançado no final de janeiro, só posso comemorar – não apenas por ter pago dois Atos pelo preço antecipado de um, mas porque dá orgulho de saber que você contribuiu de alguma forma, ainda que menor, para que um jogo como esse tenha existido.

Pena que é muito, muito difícil falar sobre Broken Age sem entrar em detalhes da trama. Não é de se espantar: com raríssimas exceções, os adventures sempre se sustentaram mais por senso estético e narrativa fortes do que pelos quebra-cabeças, que muitas vezes caem no puro nonsense ou no malfadado pixel hunting (“caçada de pixels”, ou situações que pedem ao jogador que encontre uma área clicável mínima na tela, em vez de exigir raciocínio lógico). A maioria dos adventures atuais reconhece isso e simplesmente faz quebra-cabeças simples, do tipo que até sua avó sacaria, ou praticamente abre mão de incluí-los em nome de outras mecânicas, como rastrear suas escolhas de ação e diálogo para direcionar a história. Broken Age é quase da estirpe “sua avó”, e como não há muito o que falar sobre os quebra-cabeças dele, o jeito é esmiuçar as mecânicas e tentar evocar o clima geral do jogo, sem spoilers.

Dois protagonistas, duas interrogações

Tela de Broken Age, Ato I (PC)
Além de virar comida de monstro, ainda tem que ser vestida como bolo de noiva brega? É muita humilhação…

A premissa de Broken Age pode parecer bem estranha no início. O jogo tem dois protagonistas: uma menina em um vilarejo campestre e um garoto em uma nave espacial, cada um com seus próprios problemas. A menina, Vella (diminutivo de Velouria, referência direta à melhor banda de rock que já existiu), chegou à idade em que as garotas da vila são preparadas como sacrifício para acalmar um monstro gigante, e resolve não se conformar com a situação e tentar eliminar o monstro. Do outro lado, Shay é o único tripulante humano da sua nave, controlada por um computador que também faz o papel de mãe, e passa seus dias resolvendo “crises intergaláticas” que… Bom, melhor jogar para entender, não vou estragar a primeira surpresinha. Basta dizer que, assim como Vella, Shay está insatisfeito com a sua vida, e acaba tendo a chance de participar de algo aparentemente maior graças a um passageiro clandestino na nave.

O tema do jogo não poderia ser mais claro: jovens insatisfeitos com tradições impostas por adultos. Embora o tema não seja tão frequente em jogos eletrônicos, é mais do que batido em outras mídias e costuma ser tratado de forma superficial; geralmente, a rebeldia é tratada como um valor em si, não importando o alvo, ao invés de se exaltar a coragem de se opor a algo claramente injusto. No caso de Broken Age, a narrativa se beneficia das duas situações completamente fora da nossa realidade, em que adultos (humanos ou máquinas) se agarram a tradições que causam, literalmente, morte e isolamento extremos – mais do que justificando a “rebeldia” dos protagonistas. A ruptura com tradições só é benéfica quando essas tradições não dão conta da realidade mais, e em nenhum momento Broken Age parece glorificar as ações dos protagonistas. Pelo contrário: eles estão sempre sendo perfeitamente racionais, mesmo tão jovens.

Mistério e humor na mesma receita

Tela de Broken Age, Ato I (PC)
“Traga-me um mapa estelar, e a malha do tempo e do espaço será tricotada para permitir sua passagem”

Para além do tema principal, um dos maiores pontos fortes do jogo é o clima de mistério. Broken Age se utiliza muito bem das situações inusitadas em cenários fantasiosos para nos deixar sempre em dúvida sobre o que realmente está acontecendo. O tempo todo, o jogador tem oportunidades para questionar algum ponto importante: de onde veio o monstro que assola a vila de Vella? Por que Shay está sozinho na nave? Como Vella vai lidar com o monstro? De onde saiu o clandestino na nave de Shay? E assim por diante. O “pior” é que, como estamos falando apenas do Ato I, algumas perguntas foram deixadas em aberto – isto é, há sim um “gancho” para o Ato II, embora ambos os protagonistas completem um arco aqui, com direito a uma revelação surpreendente sobre o que liga os dois. O final deste Ato de Broken Age é um dos mais empolgantes que já experimentei em jogos, a ponto de me perguntar como a Double Fine vai conseguir superar isso no final do Ato II.

E a essa altura, o leitor já deve estar se perguntando… Mas isso tudo parece muito sério, cadê o bom humor “característico” da Double Fine? Calma, ele está lá – só está cada vez mais refinado e sutil. Talvez o tema sério não permita muitas piadas “pastelão”, mas a quantidade de referências, personagens lelés da cuca e trocadilhos é enorme, garantindo as risadas – desde que você tenha um bom inglês. Sério, eu consigo visualizar facilmente jogadores americanos “perdendo” um trocadilho ou outro em uma escolha de diálogo, de tão sutis que eles são. Por exemplo, merda/cagar é um assunto recorrente, mas em nenhum momento de diálogo se usa palavras como “shit” ou “poo”. Com isso, o jogo é totalmente apropriado para crianças – algo louvável, ainda mais considerando o tema principal de inconformismo.

Arraste, solte, combine

Tela de Broken Age, Ato I (PC)
O cursor muda quando você o coloca sobre um objetos clicável… Mesmo que seja apenas uma bacia de cereal, só pela zoeira

Já no lado das mecânicas, Broken Age não tem nenhum mistério, nem é nenhuma piada. O jogo pede que você clique no lugar para onde seu personagem quer andar e que abra o inventário e arraste o item para onde você quiser quando precisar interagir com o cenário. É possível trocar nas configurações o movimento de arrastar por um clique simples, mas não senti nenhuma necessidade: em 5 minutos estava acostumado a pôr o curso no canto inferior esquerdo, o que abre o inventário, e a arrastar o item para onde quisesse, incluindo em cima de outros itens para criar combinações. Nesse sentido o jogo é bastante tradicional, o que certamente irá agradar o público que queria algo fiel aos adventures mais clássicos da era LucasArts.

O jogo também facilita as coisas com uma interface “limpa” e indicações muito bem tramadas do seu próximo objetivo, sem “entregar” o jogo. Com frequência, se você começar a zanzar demais sem saber o que fazer, algum personagem irá te dar uma dica. Em último caso, se não conseguir sacar o que deve fazer para avançar, você sempre pode alternar para o outro protagonista – sim, a qualquer momento – enquanto deixa o quebra-cabeça anterior “esfriar” na sua cabeça. A trama de cada personagem principal foi claramente escrita levando em consideração que os jogadores vão alternar entre eles, com direito até a algumas referências cruzadas enganosas sobre o que está acontecendo “do outro lado”. Ainda assim, o jogo funciona muito bem se você decidir se dedicar – eu mesmo terminei com Vella primeiro antes de começar a história de Shay, e isso deu um peso especial à revelação no final do jogo. No máximo, eu recomendaria começar com Shay, simplesmente porque a história de Vella parece ser mais intrincada e engraçada.

Fórmula tradicional, execução de primeira

Tela de Broken Age, Ato I (PC)
Até a nave espacial de Shay parece de aquarela

O jogo ainda se beneficia com uma arte peculiar, que usa traços meio cartunescos em cenários e itens que parecem ter sido pintados em aquarela, e com animações e atuações vocais de primeira linha – incluindo gente famosa como Elijah Wood (o “Frodo”) dublando Shay. Aqui o jogo rodou maravilhosamente bem, sem nenhum travamento, bug ou glitch, mas há relatos de que, se você “pular” de um protagonista a outro em um momento/quebra-cabeças específico, pode acabar impedido de prosseguir com um dos personagens. Como o jogo permite salvar em qualquer lugar e oferece 10 slots, aconselho manter sempre um save novo no início de cada área, em vez de confiar no autosave apenas. De qualquer forma, em termos técnicos, Broken Age é uma pequena maravilha, em que não há uma “ponta solta” sequer: narrativa, mecânicas, animações, arte, atuações, tudo de muito bom gosto.

E aí é que entra aquele velho aviso para quem está se perguntando se deve comprar o jogo ou não. Por melhor que seja, Broken Age é um adventure tradicional, que não reinventa a roda nem se transforma em um híbrido de jogo e história interativa, como os últimos sucessos da Telltale. Com isso, se você nunca teve interesse em jogar clássicos como Tales of Monkey Island ou Full Throttle, não será Broken Age que vai mudar as coisas. Por outro lado, se você apenas nunca teve a oportunidade de experimentar um jogo desse tipo e quer fazê-lo, começar com Broken Age pode até ser melhor do que encarar algo antigo: entre os quebra-cabeças mais lógicos e os valores de produção mais atuais, o jogo da Double Fine pode ser uma introdução mais atraente ao gênero do que encarar as idiossincrasias dos clássicos. E se você sempre teve apetite por adventures… Prepare-se, pois Broken Age é um prato fino, barato e saudável. Assim que terminá-lo, vai pedir bis – mas infelizmente, agora só daqui a alguns meses…


Pontos altos

» Atuações vocais  » Excelência Técnica  » Humor sutil
» Narrativa criativa  
» Ritmo  » Visual


Fast Forward - Análise
JOGA!
(Critérios de classificação)

Pontos fracos

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Um comentário sobre “Rewind – Broken Age, Act I (PC)

  1. Terminei ontem a parte do Shay e gostei mais do que da Vella.

    Sobre essa questão dos puzzles, ainda estou indeciso se é uma coisa boa ou ruim. Muita gente está reclamando, mas eu gostei da maioria deles, de ‘sacar’ o que precisa fazer sem ter que ficar buscando um comentário específico dentro das conversas ou gastar tempo com o terrível ‘pixel hunting’ pelos cenários.

    Com o final do ato 1 eu fiquei ansioso pela continuação e, por enquanto, o saldo do investimento está positivo.

    E sempre é bom lembrar: pra quem tem saudades dos adventures de outrora.

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