Tilt: Xbox One e Steam, (quase) nada a ver

tiltTilt é a seção em que matuto sobre as tendências que mais me incomodam no mundo dos games. Se um certo jogo, estúdio, publisher, veículo, público ou categoria de profissionais adotar um discurso furado, é aqui que irei comentar – ou melhor, criticar.

Em geral, o Xbox One está sofrendo muito mais golpes e porradas do que afagos e palmas, mas ainda assim o console tem seus defensores. No meio do barulho e do caos, é difícil separar o fanboyismo da análise cuidadosa e racional – mas acredite, há pessoas que estão fazendo uma escolha consciente ao dizer “sim, eu topo encarar o Xbox One”. Eu mesmo poderia tomar essa atitude: afinal, boa parte das restrições não me afeta. Tenho Internet de banda larga estável, que quase nunca cai; quando cai, nunca é por mais de 24 horas; se um dia acontecer, tenho smartphone com 3G para autenticar o Xbox One; costumo manter a grande maioria dos jogos que compro; e raramente compro usados (prefiro importar ou esperar promoções/baixa de preço). O único problema é que prefiro trocar a vender jogos usados, e as restrições de amizade best friends forever há 30 dias matam meu uso do TrocaJogo. De qualquer forma, não quero um sistema tão fechado por princípio, pelo que ele representa: não quero abrir mão de fazer o que quiser com discos físicos porque uma intermediária entre as editoras e o consumidor resolveu que isso seria bonito.

Steam x Xbox Live Arcade
Tão parecidos, tão diferentes

Ainda assim, há um equívoco que tanto fanboys quanto pessoas racionais que defendem o Xbox One (e às vezes até seus detratores) cometem com frequência na discussão: comparar o novo console da Microsoft ao Steam. Embora superficialmente faça sentido, na verdade os dois não têm quase nada a ver: o equívoco acontece ao confundirem serviço com plataforma e jogo físico com jogo digital. Para piorar, o contra-argumento mais usado é “o Steam é bem mais barato, por isso a gente aguenta” – o que é verdade, mas não esclarece ainda as diferenças fundamentais entre o que a Valve e a Microsoft fazem, nem cobre todas as vantagens do Steam. Eu sou o primeiro a dizer que os fanboys da Valve/de PC gaming são alguns dos piores que existem (junto com os da Apple), mas nesse caso, tem muita gente demonstrando total desconhecimento do que é o Steam, do que ele representa, e do que é a plataforma PC. Portanto, vamos tratar disso agora:

O Steam é um serviço, o Xbox One é uma plataforma

Esse é um erro bastante fundamental e comum, derivado da ampla aceitação do Steam entre jogadores de PC. Mas é preciso separar direito as coisas: o Steam não é o PC. Mesmo que você decida nunca usar o Steam, ainda terá acesso a centenas de jogos na verdadeira plataforma, o PC. E isso inclui de indies a jogos de alto orçamento, de coisas velhas a novas, de jogos em Flash a DirectX 11, de aventuras single-player a MMOs. Sim, você corre o risco de ficar sem alguns jogos de certas editoras que, por preguiça, atrelam-nos ao Steam mesmo nas cópias físicas; mas não são todas as editoras que fazem isso, e aos poucos essa barreira está sendo quebrada. Por exemplo, hoje você pode comprar jogos de terceiros no uPlay e no Origin, além dos jogos da própria Ubisoft e da EA, tudo sem passar pelo Steam. E ainda há o GoG.com, o Green Man Gaming, o Desura, o Direct2Drive e vários outros serviços de venda de jogos que não necessariamente são distribuídos pelo Steam.

GoG.com
Good Old Games, agora com jogos *novos* – e ainda sem DRM

Note que não estou dizendo que todos esse serviços são bons (especialmente o Origin :P), e sim que há alternativas e concorrência dentro da plataforma. No caso do XBox One não: é uma plataforma totalmente controlada por um fabricante. “Ah, mas tem concorrência da Sony, Nintendo etc.!” Sim, inclusive do próprio PC. Percebe a diferença? O Steam concorre com outros serviços na mesma plataforma; o Xbox One concorre com outras plataformas. Isso é essencial para entender os pontos a seguir: o Steam não vai, e nem pode, ir tão longe quanto o Xbox One porque tem que se preocupar em manter sua base instalada naquela plataforma. Para um jogador de PC, abandonar o Steam é tão simples quanto desinstalar o aplicativo. Já a Microsoft tem muito mais liberdade para enfiar restrições porque tem menos concorrência, e quando um jogador compra a plataforma dela, sua única opção é se desfazer da plataforma e comprar outra. Esse é um dos motivos pelos quais certas restrições no Xbox One, mesmo que semelhantes às do Steam, têm um impacto muito maior: elas fecham uma plataforma e diminuem drasticamente suas opções.

A verificação online é muito pior no Xbox One

Já vi gente dizendo que o Steam “também precisa de verificação online”. Sim, mas é possível passar anos sem notar isso, porque as regras são muito mais relaxadas. Em anos de Steam, nunca me aconteceu de nenhum jogo single-player deixar de funcionar por que a Internet caiu. Isso raramente acontece com usuários do Steam, por uma série de motivos, incluindo o fato de que as verificações, quando acontecem, são muito esparsas. E o mais importante: há um modo offline, e ele não dura apenas 24 horas. Na pior das hipóteses, você terá que fazer login de novo no Steam após 30 dias, o prazo máximo em que suas informações de login ficam armazenadas no computador sem que elas precisem ser confirmadas de novo pelos servidores da Valve. É tempo suficiente, por exemplo, para você fazer uma mudança de casa e ter o novo serviço Internet instalado (pelo menos em muitas partes do mundo). Também é tempo suficiente para você viajar de férias com seu notebook e continuar jogando no modo offline mesmo que passe boa parte da viagem em um local sem wi-fi.

Go offline no Steam
Santo offline, Batman!

Há algumas pequenas chateações no caso das férias/mudança: é altamente recomendado atualizar o Steam e todos os jogos que quiser jogar no modo offline antes de ativá-lo, e há casos raros em que a editora limita o modo offline no jogo dela. Mas mesmo assim há alternativas: alguns jogos podem ser executados direto da pasta de instalação, sem passar pelo aplicativo, e não faltam cracks que eliminam apenas a verificação e podem ser facilmente encontrados na Internet. Agora compare tudo isso com o Xbox One: ou você autentica uma vez por dia, ou nada feito. No máximo, você pode usar seu celular com 3G para autenticar – e aposto quanto vocês quiserem que, na hora H, vamos descobrir problemas do tipo “seu celular não serve por não ter a versão X do iOS/Android/Windows RT”. Por exemplo, o tal do aplicativo SmartGlass requer Android 4.0, que nem dois anos tem (outubro de 2011); para efeito de comparação, se o Steam exigisse Windows 7 com Service Pack 1 ainda seria menos restritivo (fevereiro de 2011).

É muito mais fácil “emprestar” um jogo no Steam

Biblioteca do Steam
Jogo e mais jogo no Steam

Ou “menos difícil”, dependendo do ponto de vista, mas ainda assim há uma diferença enorme. Tanto no Xbox One quanto no Steam, não há nenhum recurso aberto de “empréstimo”; porém, há a possibilidade do seu amigo ou parente usar sua conta, se você confiar nele para tanto. No caso do Xbox One, porém, ele precisará autenticar online uma vez por hora. Se o console não permitir que você salve sua conta lá, ou se a Internet cair, esse é o tempo máximo que seu amigo ou parente poderá aproveitar o jogo. Além disso, enquanto ele estiver usando o jogo, você não conseguirá fazê-lo; acaba sendo um empréstimo mesmo nesse sentido.

Já no Steam é mais simples. Você instala o Steam no computador do amigo, faz login, autentica e instala o jogo, põe no modo offline e pronto: qualquer pessoa naquele computador pode jogar por até 30 dias, sem impedir que você use o Steam no seu computador. Além disso, você pode poupar o tempo de download fazendo backup do seu jogo (em DVD, pen drive, HD externo, onde quiser) e levando-o para o PC do seu amigo. No Xbox One não temos nenhuma confirmação de que o disco de jogo poderá ser reutilizado após a primeira instalação – e mesmo que possa ser, também não há confirmação de que ele possa ser usado em outro console. O texto diz que você tem acesso à sua biblioteca integral, mas talvez isso seja feito via nuvem/download, não usando o disco em si. Além de ser mais complicado e restrito por natureza, o Xbox One pode ser ainda pior do que já imaginamos.

Steam restringe digital, Xbox One restringe físico

Outra coisa importante que não se percebe, e que tem a ver com o primeiro item, é que o Xbox One está restringindo jogos físicos. Quando você compra uma versão digital, o faz plenamente consciente das limitações do formato; é como decidir entre comprar um carro ou uma moto, em que um é mais caro e seguro e outro mais barato e prático, e assim por diante. O que a Microsoft faz com o Xbox One é o equivalente a pegar uma moto, triplicar o tamanho, aumentar o preço dela e deixá-la mais parecida com um carro – só que sem airbag, porta-malas, cobertura etc. Ao impedir que você possa trocar, emprestar e revender livremente seu jogo em disco, a Microsoft não está “deixando seus jogos como no Steam”: ela está removendo recursos que sempre existiram no disco e nunca foram parte do Steam.

Xbox One, o Grande Irmão
“Conectividade é Força/Vigilância é Segurança/DRM é Liberdade” – Xbox One, o console Grande Irmão

É importante entender isso. Mesmo que você insista em considerar que um jogo de Xbox One seja “a mesma coisa” que um jogo no Steam, só que com um disco para acelerar a instalação do jogo, essa “igualdade” não foi “atingida” com adição de recursos e possibilidades, e sim com remoção deles. A compra de um jogo em disco para um console tinha vantagens próprias, que levavam as pessoas a optar pelo console/disco em vez do Steam/PC (ou da versão digital na PSN/Live/eShop), incluindo troca, revenda, empréstimo e comodidade. Ao tentar “igualar” as coisas, a Microsoft está artificialmente limitando nossas opções. Você pode não fazer questão de ter os discos como os conhecemos, mas isso é outro problema; o importante é perceber que o Steam sempre foi uma escolha, e o que a Microsoft está fazendo com o Xbox One é uma imposição – e para chegar a um resultado que mesmo assim não se compara.

O Steam é um avanço; o Xbox One, um retrocesso

Falando em imposição x escolha, é importante entender a diferença de caminho que o Steam e o Xbox One percorreram para chegarem onde chegaram. Mesmo que não tenha sido a intenção inicial da Valve, o Steam “salvou” o mercado de jogos para PC. Sim, isso parece messiânico, mas é preciso dar pelo menos algum crédito a ela. Jogar no PC antes tinha uma série de complicações tão, mas tão chatas que muita gente “pegou trauma” e se recusa a jogar no PC até hoje por conta delas, mesmo que algumas não estejam mais presentes: entrar no DOS, instalar drivers, configurar placa de som/vídeo, baixar patches no site da desenvolvedora etc. etc. etc. Além disso, as editoras cada vez mais desistiam de lançar versões para PC por conta da pirataria. E com o tempo, o Steam foi lidando com todos esses problemas – sim, incluindo a pirataria via DRM, mas esse era um “mal necessário” dado o estado das coisas.

Steam Big Picture na TV
Seu PC, cada vez mais como um console pero sin perder la identidad y flexibilidad /portunhol

Hoje, jogar no PC usando o Steam é quase tão conveniente quanto em um console. Você compra o jogo (em disco ou físico); abre o Steam; instala o jogo via disco ou baixando-o (a velocidades que nenhum outro serviço consegue igualar); clica em “Play”; o Steam verifica e instala no Windows todas as traquitanas extras e atualizações que o jogo exige; pronto, é só jogar. Dificilmente o jogo apresenta problemas depois disso, porque o Steam tomou conta da parte técnica chata para você. Além disso, 95% dos jogos AAA lançados nos últimos 4 anos oferecem suporte a controle no PC, e cada vez mais indies também. Até mesmo um “modo tela grande” foi lançado no Steam, para que você possa ligar seu computador na TV e jogar exatamente como se estivesse em um console: sentado no sofá, com um controle na mão e uma tela de mais de 30 polegadas (e em versões geralmente melhores, assumindo que você tenha um PC pelo menos mediano).

O Xbox One, por outro lado, não veio em um “ecossistema” com os mesmos problemas, e é um caso clássico de medicação para uma doença que não existe. Nas últimas três gerações de consoles, cada geração vendeu mais consoles que a anterior no total. Mesma coisa nas vendas totais de software. O nível de pirataria no Xbox 360 e no Wii (e posteriormente no PS3) não chega a uma fração da pirataria no PC, mesmo após a ascensão do Steam. Os consoles atuais até introduziram algumas pequenas complicações, como as frequentes atualizações de jogos (ou seja, os mesmos patches do PC), mas ainda assim, em grande parte, jogar no console é simples e rápido. Nada do que a Microsoft está “adicionando” ao Xbox One facilita a vida do jogador, exceto talvez a possibilidade de jogar em outro console precisar sem levar nenhum disco – algo que você já pode fazer hoje se comprar a versão digital. E mesmo essa vantagem vem ao custo de diversos empecilhos ao velho “ponha o disco no console e jogue”.

E se você não estiver convencido disso, olhe para os números. Após o Steam, as vendas nos PCs aumentaram, assim como o número de jogadores no PC. Ainda assim, jogos de console em disco ainda vendem mais do que suas versões digitais para PC – logo, a Microsoft e as editoras não estão sofrendo nas vendas como estavam no PC antes do Steam. Vamos ver se a nova geração de consoles com DRM e verificação online (assumindo que o PS4 fará o mesmo) vai superar a geração de consoles atual: vou esperar sentado, que de pé cansa. E se a Sony incluir um sistema menos restritivo, como o do Steam… Vamos ver qual console vai vender muito mais do que o outro. Vou ali fazer uma pipoca e já volto, que isso vai ser bonito de assistir.

O Steam compensa as restrições de outras formas

Lá se vão as economias no Steam
Hora de gastar melhor o dinheiro economizado para o novo Xbox…

Sim, tem a questão financeira, como já dito. As promoções na Xbox LIVE, como Deal of the Week, e as quedas de preço com o tempo não chegam aos pés sequer dos valores da PSN (e isso mesmo desconsiderando a Plus), quanto mais do Steam; só será possível comparar no dia em que você puder comprar um lançamento de console com 75% de desconto em meros 2 ou 3 meses depois (Steam), ou um título dos Jogos Sob Demanda da LIVE (que já demorou pelo menos seis meses para aparecer lá) cair pela metade do preço de seis meses a um ano depois (como na PSN). Ainda por cima, algumas editoras entendem que a plataforma PC tem outra dinâmica, e que edições digitais não deveriam custar o mesmo que as físicas; essas lançam jogos mais baratos já de cara. Por exemplo, só em 2013 eu comprei Tomb RaiderRemember Me em pré-venda por R$ 70 cada, com direito a DLCs extras e tudo mais. Assim já fica bem mais fácil “engolir” o fato de que não poderei revender nem emprestar esses jogos… Mas não é só isso.

O Steam não me cobra para jogar online. Também permite mods. Diversos jogos no Steam hoje têm cloud save gratuito (ao contrário da PSN ou Live, que exigem assinatura Plus ou Gold – e se seu Xbox 360 for o Arcade, como o meu, um daqueles HDs caros da Microsoft). O serviço de chat funciona perfeitamente e eu posso usar qualquer headset nele, não só os aprovados pela Valve. Aliás, isso vale para quase qualquer acessório: lembre-se de que o Steam é um serviço, não plataforma, e essa plataforma é aberta – o que já não acontece com o Xbox 360, e será ainda pior no Xbox One. Somando tudo isso aos preço e às outras vantagens da plataforma PC (como ter versões melhores e mais suaves dos jogos), é bem mais aceitável abrir mão das vantagens do disco físico se der na telha. E o que o Xbox One oferece nesse sentido?  

Presentear no Steam e no Xbox One

No Xbox One, há a possibilidade de acessar jogos sem disco, mas de resto, isso também é possivel no Steam. Acessar sua biblioteca em outro console? Tem no Steam: basta baixá-lo em outro computador fazendo login em sua conta e instalar qualquer um de seus jogos, exatamente como prometeram no Xbox One. Qualquer pessoa pode jogar qualquer jogo no seu console? Não somente isso é possível hoje, em qualquer console no mercado (e em qualquer outro console na história), como nada me impede de deixar meu Steam com senha gravada e permitir que qualquer pessoa entre nele, no meu computador ou qualquer outro. Como disse no artigo sobre as restrições do Xbox One, as “vantagens” do aparelho, em geral, ou já existem em consoles, ou poderiam ser facilmente implementadas… E em comparação com o PC, mesma coisa, exceto por um detalhe: a possibilidade de dar jogos usados.

Inventário no Steam, seção Presentes
Inventário no Steam, seção Presentes

Se eu comprar Bioshock Infinite hoje, em disco ou via download no Steam, e ativá-lo na minha conta, não poderei fazer mais nada com ele além de instalá-lo e jogá-lo. Não posso desativá-lo e passar adiante, nem mesmo para quem estiver na minha lista de amigos há 30 dias. Nesse sentido, o Xbox One leva alguma vantagem, já que ele permite isso. Mas note que ele “permite” isso em um jogo em disco para console que, até então, poderia ser dado livremente. Pior: o Steam tem suas alternativas. Eu posso comprar Bioshock Infinite quando ele entrar em promoção com 50% de desconto no Steam, escolher a opção “gift” e enviar o jogo para alguém – e para qualquer pessoa, esteja na lista de amigos ou não. Além disso, é comum você ganhar cópias “gift” de jogos como brinde de pré-venda, ou juntar amigos e comprar um pacote de 4 cópias – em que cada cópia geralmente sai mais barato mesmo que você divida o custo em três pessoas, e uma cópia fica sobrando no seu inventário.

Essas possibilidades permitem um mercado de trocas e venda de jogos digitais que provavelmente não será implantado no Xbox One (a não ser que o console venda pouco e a Microsoft precise de alguma vantagem competitiva no futuro). Usuários do Steam russo compram jogos por preços menores e trocam com brasileiros por chaves compradas no Nuuvem a preços mais baixos que no Steam local. Você repassa aquela quarta cópia que sobrou de Pay Day: The Heist em troca de outro jogo. Você faz pré-venda de Far Cry 3, ganha uma cópia de Far Cry de brinde e, se já tiver o jogo, pode repassá-lo livremente, como presente ou em troca. Você pode até jogar bastante certos games da Valve, como Team Fortress 2Portal 2 ou DOTA 2, e obter/achar/criar itens de jogo no seu inventário que podem ser trocados por cupons de desconto e jogos mais baratos no inventário de outras pessoas. Eu sei que nem todo mundo vai preferir isso, mas o fato é que até a vantagem do Xbox One é contrabalançada por diversas vantagens menores do Steam – e são coisas diferentes, que um tem e o outro não.

Dois erros não fazem um acerto

Entrada HDMI in no Xbox One
Entrada HDMI in: chega de trocar input entre jogo/TV

Está na hora de parar de balbuciar “dã dã mas é como no Steam!” quando se tenta defender o Xbox One. Mesmo que você ignore de propósito tudo o que foi dito acima, ainda resta uma questão: dois erros não fazem um acerto. Eu sei que pode parecer hipocrisia reclamar do DRM no Xbox One e aceitar o do Steam, mas mesmo que fosse hipocrisia, não faz sentido algum achar que a trolha no seu rabo vai doer menos porque o vizinho também está tomando. É preciso olhar com calma por que as pessoas aceitam DRM no Steam, e se isso indica que elas aceitarão o mesmo no Xbox One.

Se for para defender o novo console da Microsoft, vamos por favor usar os recursos que são realmente novos e ajudam um tanto. Poder chegar em casa e simplesmente falar “Xbox One, on” e “Quantum Break” para já iniciar um jogo, sem precisar pegar o disco nem esperar N coisas (inicialização do sistema, atualizações etc.), é bastante conveniente. O novo Kinect parece promissor, e Fable: The Journey poderia ser um clássico da série se conseguisse, por exemplo, reconhecer sua expressão facial enquanto você cuida da égua Seren ou durante as reviravoltas da trama (sem falar em melhor reconhecimento dos gestos mágicos, claro). Poder incluir membros da família em sua conta e dar acesso à sua biblioteca é bom para quem tem mais de um Xbox em casa, para os filhos ou irmãos (vamos ver quanto custará a conta na Live para permitir isso…). Se você tem TV a cabo, a centralização do controle de input no Xbox One, sem precisar ficar trocando-o no menu da TV, é útil. Se você só quer saber dos jogos, a possibilidade de transferir parte do processamento do jogo para a nuvem pode fazer com que jogos rodem melhor de acordo com sua conexão de Internet, e até que os desenvolvedores apliquem patches nos servidores para melhorar o desempenho e incluir conteúdo novo – sem que você precise fazer nada na sua máquina.

Defensor do Xbox One
“Defensores do Xbox One dizem, tipo: não é tão ruim quando você se acostuma”

Se tudo isso compensa as restrições inéditas em um console de jogos, é um direito de cada um decidir. Mas não me venham com comparações superficiais, muito menos preguiçosas. Aliás, isso também vale para quem está “torcendo” para que a Sony faça a mesma coisa. Eu mesmo já escrevi que acredito que sim, a Sony terá alguma forma de DRM semelhante… Mas qualquer jogador com dois neurônios e um mínimo de senso deveria torcer para que ela não entre na dança, por mais improvável que isso possa parecer. Não faz sentido algum torcer para todo mundo afundar no mesmo barco só porque um serviço teve que se jogar no mar para “salvar” uma plataforma (Steam como forma de DRM no PC), ou por que a sua marca corporativa de escolha está jogando salva-vidas para as editoras. Não há nada de errado em ter preferências. Porém, insistir nelas mesmo quando entram concorrentes novos com mais vantagens, ou torcer para que os concorrentes fiquem menos vantajosos para “acompanharem” a sua marca preferida, tem outro nome: chama-se conformismo. E depois não me venham dizer que isso é culpa de “corporações malignas”: a partir do momento em que você segue uma marca cegamente, a culpa é toda sua. #dealwithit.

7 comentários sobre “Tilt: Xbox One e Steam, (quase) nada a ver

  1. Eu diria que hoje, agora, right now, comparar o Steam e o XB1 realmente não é possível.
    Mas eu imagino que em um futuro não muito distante será, porque a única estratégia de mercado que eu vejo funcionando no XB1 é virar o “steam dos consoles”.

    Não foi divulgada ainda, ou pelo menos eu não vi, a politica de distribuição digital como será no XB1

    Porque claramente a Microsoft não está interessada em disputar com a Sony (e a Nintendo é café com leite, como sempre) e respondeu com um sonoro “não gostou? Não mandei comprar”. então eu realmente só vejo duas possibilidades: ou eles querem virar o Steam dos consoles ou eles querem apenas torrar dinheiro porque podem.

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    1. Não foi divulgada ainda, ou pelo menos eu não vi, a politica de distribuição digital como será no XB1

      Inicialmente era você ter uma biblioteca digital na nuvem que você poderia acessar em qualquer Xbone, desde que logasse na sua conta. Você também poderia designar 10 pessoas como membros de sua família e elas teriam acesso a essa biblioteca – apenas uma pessoa por vez, claro, senão vira bagunça. E tanto em um caso como no outro, o console faria verificações online uma vez por hora.

      Mas isso tudo foi cancelado quando a Microsoft voltou atrás no lance dos usados e das verificações online diárias. Agora será exatamente como no Xbox 360, tanto em termos de uso do disco quanto das versões digitais. As únicas novidades que permanecem são a obrigatoriedade do Kinect estar ligado e os lançamentos em versão digital no mesmo dia do físico (algo que já acontece no Steam há anos, e em grande parte dos jogos de PS3 na PSN há pelo menos um ano).

      então eu realmente só vejo duas possibilidades: ou eles querem virar o Steam dos consoles ou eles querem apenas torrar dinheiro porque podem.

      Eu diria que é um pouco das duas coisas e mais um terceiro fator: os executivos e engenheiros da Microsoft estavam fazendo um console para eles mesmos. Isto é, para um tipo específico de geek, que tem Internet banda larga em casa e em todos os aparelhos possíveis e imagináveis; que está acostumado a adquirir música somente no iTunes, jogos para PC somente via Steam, e conteúdos de entretenimento digital via serviços online; que é apaixonado por geringonças; e que nunca saiu do eixo EUA-Reino Unido a não ser para férias rápidas em algum lugar exótico.

      Se você ouvir os podcasts do Major Nelson esse tipo fica claro. É só ver os quadros que eles têm lá. Por exemplo, a última seção sempre é sobre os gadgets que eles adquiriram. Veja, o podcast é SEMANAL. Que sejam 40 casts todo ano, na pior das hipóteses, excluindo algumas semanas de férias/feriados nos EUA. Você consegue imaginar qualquer pessoa que não seja um completo geek adquirindo mais de 40 gadgets diversos em um ano? Mesmo contando TV, troca de celular etc., não chega a isso para uma pessoa comum.

      Sobre conexão de internet, não esqueço do dia em que, nessa seção de gadgets, o próprio Major Nelson contou como estava ficando sem canais (ou algo assim) no roteador dele porque estava com mais de 40 dispositivos ligados em rede. QUARENTA. Até o aquecedor dele está na Internet – o cara pode mandar ligá-lo pelo 3G do celular no caminho de casa para chegar e encontrar o ambiente já quentinho. É nesse nível.

      ESSE é (ou era) o público do Xbone. Não é à toa que a gritaria contra veio mais do resto do mundo, e agora que a Microsoft reverteu a decisão, os poucos que estão reclamando e dizendo “o mimimi venceu” são geeks americanos típicos.

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      1. Realmente faz sentido o seu argumento e o publico que eles buscam, mas tem uma coisa que eu tenho dificuldade de entender: para quem compra um brinquedo de U$600 (ou 4 bilhões de reais quando chegar no Brasil), ter banda larga em casa é tão dificil assim? Sei lá, eu não vejo porque isso é tão importante.

        Obviamente que a gritaria toda não é em solidariedade a classe média do Uzbequistão que usa duas vacas e uma lata de cola para ter uma conexão de 48kbps. Então qual é realmente o grande problema? Quem realmente sai prejudicado nessa história?

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        1. mas tem uma coisa que eu tenho dificuldade de entender: para quem compra um brinquedo de U$600 (ou 4 bilhões de reais quando chegar no Brasil), ter banda larga em casa é tão dificil assim?

          Bom, você tem que ver que US$ 500 (não US$ 600) ainda é muito dinheiro para um americano, mas é factível que um porteiro, faxineiro ou garçonete vivendo em trailer nos cafundós do Alabama junte trocados por 3 meses e compre sem comprometer nada da vida deles. Aqui no Brasil, mesmo em parcelas a perder de vista, uma pessoa em situação semelhante não vai (ou não deveria) comprar o mesmo brinquedo por R$ 2200 (preço oficial do Xbone, a pré-venda começou essa semana).

          Além disso, só 60% do território americano tem banda larga. Lembre-se que lá as cidades têm uma composição diferente. Há gente com renda familiar de classe média alta morando longe do centro pela tranquilidade do local e pela facilidade de se deslocar de carro (bem mais barato do que no Brasil, muito mais rodovias e estradas etc.). Nesses lugares, até a recepção de celular não é das melhores, e internet banda larga, quando tem, é instável. Não é como no Brasil, em que só os mais pobres são empurrados para áreas mais afastadas.

          Se é assim nos Estados Unidos, imagina na maioria dos países da Europa, em que muitos lugares para morar são construídos sob fundações de séculos de idade e que geram problemas para instalação de infraestrutura de Internet.

          Obviamente que a gritaria toda não é em solidariedade a classe média do Uzbequistão que usa duas vacas e uma lata de cola para ter uma conexão de 48kbps. Então qual é realmente o grande problema? Quem realmente sai prejudicado nessa história?

          São vários problemas, na verdade. O primeiro é que os jogos de Xbone não vão custar US$ 30, sequer US$ 50. Vão continuar US$ 60, e por muito tempo. E *essa* é uma diferença crucial com o Steam: mesmo que no lançamento um jogo multiplataforma famoso saia pelo mesmo preço da versão física, o preço cai muito rapidamente, quando não vem mais barato já de saída. As pessoas abraçaram as versões digitais no Steam por causa disso. Quando você está abrindo mão do seu direito de revenda do produto, o mínimo que tem que receber é um custo menor, para compensar o prejuízo de não poder revender se quiser. A Microsoft errou loucamente por achar que as pessoas abririam mão desse direito em um produto *físico* só porque o mesmo produto no Steam em versão *digital* funciona da mesma forma. Daí a metáfora da moto e do carro no texto: se a Microsoft estivesse vendendo carro, tudo bem, mas ela tentou empurrar uma moto maior e mais cara para alguém que vê mais vantagens em pegar um carro. Aí fode.

          Outra é que o esquema que a Microsoft estava fazendo corta muita gente do bolo e cria um monopólio artificial do mercado de usados. Você não pode vender seu jogo – de novo, FÍSICO – no eBay ou Mercado Livre, a loja de bairro também não pode revender, e só quem pode fazer isso é um grupo seleto de grandes cadeias em parceria com a MS.

          Mais um: mesmo que você tenha banda larga, seja estável etc., o problema é que QUANDO cair (e uma hora VAI cair: se até eletricidade cai, porque não Internet?), fica claro que a culpa de você não jogar é *da Microsoft*. Se você está jogando a campanha de Halo 4 e cai a luz, você sabe que a culpa é da companhia de eletricidade, não do Xbox 360 ou da Microsoft. Quando você está jogando um MMO no PC e cai a Internet, você sabe que a culpa não é da desenvolvedora do MMO, e você comprou/pagou a mensalidade do jogo *ciente* de que isso poderia acontecer. Quando você está jogando qualquer jogo online e há parada dos servidores para manutenção, você é avisado antes e pode se programar; se for algo repentino (um hack), a desenvolvedora vai te compensar de alguma forma, quase sempre, nem que seja com extensão da sua assinatura. E mesmo que não compense, de novo, você comprou o jogo online sabendo que é uma experiência que depende de outras pessoas via Internet e que está sujeito a isso. No Xbone, porém, você pode começar a jogar a campanha de Halo 5 e de repente ficar impedido de continuar por algo que não te traz benefício nenhum, não estava previsto, e deveria funcionar normalmente offline como sempre funcionou na história dos videogames. Mesmo que só te aconteça uma vez a cada dois anos, é algo inaceitável porque só beneficia a Microsoft.

          O que ela fez de errado mesmo foi tentar apressar na marra algo que já estava em curso (migração de jogos para distribuição digital) no ritmo que os *consumidores* querem, não no dos geeks da Microsoft, e ainda por cima tentar aplicar isso a mídia *física*. Se ela tivesse feito o Xbone um console 100% digital, a resposta não teria sido tão brava. Ia ter gente reclamando, mas seriam desconsiderados como “não é o público”. No máximo, se contestaria a verificação online diária, já que nem o Steam faz isso. E bastaria a Microsoft flexibilizar esse prazo para a maioria ficar contente.

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        2. Sinceramente, eu! Eu tenho grana para comprar o xbox one, qualquer um pode fazer uma economia e comprar, mesmo que eu não compre ele, minha net é horrível, onde eu moro nem suporte pra 10 mb tem direito veio, além de ser praticamente o dobro da cidade vizinha que tem suporte até 100 ou 200 mb residencial (não lembro ao certo) mas aqui é bem mais caro, ta uma luta pros meus pais aumentarem a net aqui

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      2. Interessante esse comentário Fábio [e o de baixo tb], adicionou bastante ao texto.😉
        Mas é interessante como o mimimi da internet funcionou né? Depois q a M$ tirou esse DRM as vendas aumentaram. Mas o mais interessante é que aparentemente a M$ não queria fazer isso, e alguns ainda tão de cara feia, parece q não aprenderam ainda… Fico imaginando se daki a alguns anos esse DRM não volta.

        “Você consegue imaginar qualquer pessoa que não seja um completo geek adquirindo mais de 40 gadgets diversos em um ano?”

        Assim Fábio, eu não tenho grana mas no DealExtreme tem vários gadgets bem baratinhos, de 10, 20 dólares, então de certo modo dá sim pra imaginar alguém q compre mais de 40 gadgets em um ano q não seja geek hardcore. (apesar de serem poucos)

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        1. Assim Fábio, eu não tenho grana mas no DealExtreme tem vários gadgets bem baratinhos, de 10, 20 dólares, então de certo modo dá sim pra imaginar alguém q compre mais de 40 gadgets em um ano q não seja geek hardcore. (apesar de serem poucos)

          Tudo bem, mas no caso dos citados, pode apostar que a maioria fica bem acima dos 20 obamas. Lembro-me uma vez do próprio Major Nelson comentando como ele comprou um sistema inteiro de gerenciamento das luzes da casa via aplicativo no smarphone. Era desse nível para cima.

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