Rewind – Guacamelee! (PSN/Vita)

Rewind - Análises
Análise

Rewind é a nova seção de resenhas do blog Re: Games, escritas da forma mais direta possível e após terminar um jogo (ou pelo menos jogá-lo por tempo suficiente, caso não tenha um “fim” claro). Não é sempre que termino um jogo, então vale a oportunidade de publicar uma análise…

Guacamelee! (PSN/Vita)
Mexicotroidvania?

Quem acompanha este blog já deve ter sacado que eu nunca fecho jogos com 100%; normalmente estou mais interessado em experimentar o máximo possível de jogos diversos (e terminá-los se forem bons o suficiente) do que em ficar repetindo os mesmos trechos incessantemente até conseguir tudo. O último jogo que me deu vontade de explorar cada canto foi Castlevania: Symphony of the Night, e antes dele, Super Metroid – justamente os dois maiores clássicos de um subgênero cuja graça toda é explorar, apropriadamente denominado “Metroidvania” (e que infelizmente só joguei em 2011-2012, por não ter tido o 1º Playstation nem o Super Nintendo, respectivamente). Nem mesmo outros jogos bem cotados nessa linha, como Shadow Complex, Cave StoryInsanely Twisted Shadow Planet ou os Castlevania de Nintendo DS me fizeram tentar chegar aos 100%… Até Guacamelee! ser lançado.

Claro, ajuda bastante o fato do jogo ser mais curto do que alguns dos citados, mas outros são ainda mais contidos e mesmo assim não me empolgaram tanto. Guacamelee! consegue te impulsionar em busca dos 100% com um equilíbrio perfeito entre fácil e difícil, entre referência nostálgica e inovação, e entre uma jogabilidade que é ao mesmo tempo familiar e distinta – tanto no combate quanto na movimentação no mundo 2D de jogo. Dito dessa maneira, o jogo parece um ideal inalcançável, a pedra filosofal que diversos desenvolvedores gostariam de atingir para renovar suas franquias; que a Drinkbox tenha conseguido tal feito em seu terceiro jogo e com uma franquia nova é impressionante. Isso coloca Guacamelee! no mesmo patamar de Mark of the Ninja em 2012: aquele jogo para distribuição digital que não apenas mostra um conceito familiar, porém muito próprio, como o faz com execução impecável, algo incomum em jogos independentes.

Arriba Mexico, arriba

Pôster de Lucha Libre contra Carlos Calaca em Guacamelee!
LA LUCHA DEL SECULO! /portunhol

Guacamelee! já entrega boa parte do seu conceito-base no nome (para quem não entendeu, um trocadilho com “guacamole” e “melee”, que em inglês significa luta corpo-a-corpo). O jogo apresenta uma típica história “salve a princesa” com temática mexicana, em que o protagonista Juan morre, encontra uma máscara mágica de luchador no reino dos mortos e volta à vida – não apenas para recuperar seu amor, mas para evitar que a dimensão dos vivos seja completamente mesclada ao mundo dos mortos. Essa premissa básica inspira tudo no jogo: desde a arte inusitada, cheia de referências ao Dia de Los Muertos e aos maiores estereótipos da cultura mexicana, até a jogabilidade básica de beat’em up, com direito a golpes e combos inspirados em lucha libre. Chega a ser curioso como um jogo consegue ser tão estereotipado e ainda assim respeitoso, em uma lição crucial para os seduzidos pela besteira do politicamente correto: é absolutamente impossível jogar Guacamelee! e não querer que o México fosse realmente assim tão divertido.

Além da bela direção de arte, com um traço único, o jogo tem diversas – mas muitas mesmo – referências a outros jogos (de clássicos a indies recentes), a memes e até à imprensa (procure por um cartaz da luta entre “El Destructo vs. La Bomba“). Mas podem ficar tranquilos, não se trata de um novo Retro City Rampage – primeiro, porque as referências estão todas adaptadas para o contexto “Mexicotroidvania” do jogo, o que deixas várias delas hilárias (“El Ninõ de Carne“?!?); segundo, porque mesmo nos piores casos, são apenas tentativas de humor em um jogo que se sustentaria sozinho tranquilamente sem elas. O melhor exemplo é como a Drinkbox conseguiu inserir mais uma referência ao famoso “a princesa está em outro castelo” e ainda assim fazer você rir na sequência (sério). Mesmo que você não goste de tanta referência “espertinha”, a arte, os diálogos e o jogo em si vão te distrair com muita facilidade.

Golpe para cima, para baixo, para os lados… e para se mover

Golpes em Guacamelee! (PSN/Vita)
Puedes golpear para movimentarse /portunhol

Embora o cenário e a premissa já sejam pontos “fora da curva” interessantes, o que realmente distingue Guacamelee! de outros jogos “Metroidvania” e de plataforma é a sua lógica interna de utilizar as mesmas mecânicas para combate e exploração. Como sabemos, uma das características que define esse subgênero é adquirir power-ups para conseguir acessar áreas novas do mapa. Em Metroid, esses power-ups costumam ser upgrades para a armadura da protagonista Samus; em Castlevania, são habilidades mágicas via itens, não necessariamente utilizadas em combate. Guacamelee! inova e permanece fiel ao seu conceito de luchador ao usar golpes em vez de itens. Por exemplo, para alcançar determinada plataforma, pode ser necessário dar pulo duplo, um gancho (que faz o personagem subir mais um pouco) e um soco direto (que faz o personagem avançar um tanto), e os três movimentos são desbloqueados com o progresso na história.

Nem todos os “power-ups” de movimentação/exploração são golpes, como o de escalar paredes correndo, mas os outros que são golpes obviamente servem para combate. Como em qualquer bom beat’em up, o objetivo está em enfileirar combos com golpes diferentes e evitar ser atingido com esquivas e pulos; o principal diferencial nas mecânicas básicas é uma maior ênfase nos golpes com agarrão, o que faz muito sentido para um luchador. Há um sistema de pontuação baseado em sua eficiência, e quanto melhor você se sair, mais dinheiro ganhará, e assim poderá liberar novos golpes e power-ups de saúde e vigor mais cedo. De início, o combate é variado apenas o suficiente para entreter; porém, à medida que novos inimigos com diferentes padrões de ataque e movimento são introduzidos, a necessidade de acertar com precisão o momento de golpear/esquivar e a profundidade do combate ficam bem evidentes. Inclusive, para fazer 100%, é preciso ter total domínio dele, graças a uma missão opcional em Santa Luchita (procure a “combo chicken” [!] no ginásio) e a uma área dedicada a desafios de combate, o último deles particularmente difícil.

Do céu ao inferno, and I like it

Esqueleto gigante em Guacamelee! (PSN/Vita)
El esqueleto gigante no es boliño /portunhol

Quem me acompanha aqui no blog sabe que eu não sou fã da ideia de que jogos precisam ser difíceis, muito pelo contrário. Mas desafio é bom, e Guacamelee! tem uma abordagem excelente – e de certa forma até tradicional – para equacionar esse velho problema: quer apanhar do jogo? Vá tentar fazer 100% para você ver. Ou, sob outro ponto de vista, quer tentar fazer 100%? Então trate de dominar o jogo, e você receberá um poder extra e um final alternativo pelo seu esforço. No fundo, a ordem dos fatores não altera o produto, e o que importa é a perfeita integração dos dois objetivos. Você pode muito bem terminar Guacamelee! em seis a oito horas, apanhando um tanto nos dois últimos chefes finais mas, de resto, apenas curtindo as piadas, o combate e o fluxo geral do jogo; ou você pode passar horas a mais nele (no meu caso, o dobro) para dominar tudo que ele tem a oferecer, encontrar todos os coletáveis e sentir aquela sensação de dever cumprido que só Demon’s/Dark Souls conseguiram passar nessa geração de consoles. E olha que não há vidas e você não volta ao último checkpoint por cair de plataformas, apenas se perder toda a saúde para dano direto. O jogo sabe a diferença entre punir à toa e exigir habilidade.

É impressionante como Guacamelee! consegue se equilibrar tão bem entre dois extremos em praticamente tudo, em grande parte por causa do excelente design de fases. O combate tem nuances complexas que você nunca irá notar – e nem precisará – se quiser apenas avançar e explorar um pouco o mundo do jogo. A maior parte dos coletáveis está visível ou em áreas ocultas cuja existência você consegue intuir olhando o mapa, mas conseguir chegar no item pode exigir um pouco de prática, e algumas áreas pedem até bom raciocínio lógico. A dificuldade vai do trivial ao complicado de forma bem suave durante a progressão do jogo, sem nunca facilitar demais nem parecer “roubada” ou aleatória. E até o humor salta entre os dois pólos, indo da referência mais óbvia ao momento mais TROLL em games dos últimos dez anos, pelo menos – você vai saber quando chegar nele. (Quem jogou buscando os 100% provavelmente já sacou qual é, mas só para confirmar: sim, é na área secreta da Tule Tree, naquela hora em que uma galinha hiperdesenvolvida disse algo que, dependendo do seu humor, te fez tacar o controle/o Vita no chão ou entrar em posição fetal e chorar. :-D)

Um clássico instantâneo?

EL POLLO! de Guacamelee! (PSN/Vita)
…con fritas? /portunhol

Ser o jogo que é já faz de Guacamalee! uma aquisição obrigatória para quem tem Playstation 3 ou Vita  (e se não tiver, trate de convencer um amigo a comprar e aproveite para jogar, nem que seja em co-op; a implementação do modo, que usa a mesma ideia de “bolhas” de New Super Mario Bros Wii, pode não ser das melhores, mas pelo menos você experimenta o jogo). Imagine então se eu disser que você alterna entre dimensões, inclusive ao pular entre uma parede e outra? E que o equivalente à forma morph ball em Metroid, para acessar túneis apertados, é virar uma galinha? E que a trilha sonora mistura ritmos mexicanos com uma leve camada eletrônica, e não sairá de sua cabeça por dias? E que os controles são muito responsivos? E que o jogo roda quase perfeitamente? (O único bug que vi não incomodou, pela frequência dos checkpoints.) E que ao comprar uma versão você ganha a outra, com direito a cross-save via nuvem e a usar o Vita como controle do jogo no PS3, essencialmente transformando o portátil no equivalente ao GamePad do Wii U?

Falando em Playstation, é quase um sacrilégio que Guacamalee! seja exclusivo. Sem exagero: se ele fosse multiplataforma, em vinte anos a área secreta da Tule Tree entraria para o imaginário dos jogadores da época como a “fase da árvore”, evocando o mesmo respeito que hoje temos pela “fase da água” em títulos antigos do Mario. Não consigo lembrar de nenhum outro jogo de plataforma, de qualquer subtipo, que tenha me empolgado tanto nessa geração. Guacamelee! com certeza é o título que melhor atualizou a fórmula “Metroidvania” desde que ela existe – e sem precisar usar de truques visuais e pseudorrealismo moderno, como Shadow Complex. Sim, o jogo é simplesmente bom desse jeito, e vai aparecer com certeza em diversas listas de melhores jogos de 2013. Jogue JÁ.


Pontos fortes

» Atmosfera  » Combate  » Controles  » Criatividade  » Design
» Dificuldade (Curva, Desafio)  » Direção de Arte  » Excelência Técnica
» Mecânicas (Inovação)  » MOMENTO MAIS TROLL DE 2013
» Trilha Sonora 


Fast Forward - Análises
AVANÇA!
(Critérios de classificação)

Pontos fracos

« Implementação do co-op  « Sem co-op online


4 comentários sobre “Rewind – Guacamelee! (PSN/Vita)

Sem comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s