Tilt: O 3DS e a nova vida quase 100% portátil

tiltTilt é a seção em que matuto sobre as tendências que mais me incomodam no mundo dos games. Se um certo jogo, estúdio, publisher, veículo, público ou categoria de profissionais adotar um discurso furado, é aqui que irei comentar – ou melhor, criticar.

Quando escrevi um artigo sobre a aquisição do Vita e por que o fiz antes do 3DS, na contramão do “senso comum” de que o console da Nintendo “tem mais jogo” e “é mais portátil”, estava esperando duas reações básicas diferentes (e sob certa perspectiva extremas) nos comentários. A primeira, e óbvio, seria de fanboys da Nintendo me acusando de ser Sonysta enrustido ou algo do gênero. Graças a [insira aqui sua divindade preferida], não só isso não aconteceu, como pelo menos um leitor captou parte da segunda reação: notar nas entrelinhas do texto que eu pegaria o Nintendo 3DS um dia, sim (e seguindo o conselho do Raphael e outros proprietários do console, foi um XL). Só faltou alguém apontar que eu não aguentaria esperar o lançamento de Shin Megami Tensei IV e já pegaria o aparelho junto com o remake de Devil Summoner – Soul Hackers (encomendado em pre-order na Play-Asia, mas não chegou ainda).

3DS comprado, comparação com o Vita
O peso do Vita na hora de jogar o 3DS comprado depois

Com o bichinho na mão por cerca de um mês, agora posso me debruçar sobre aquele artigo e ver se fiz a escolha certa em ir no Vita primeiro. A resposta curta é “sim”, mas… Como sempre acontece na hora de se escolher algo para comprar, tudo depende do que você espera obter, e por isso minha resposta pessoal não deve ser encarada de maneira tão simplista. O que posso fazer aqui é me distanciar ao máximo de qualquer memória afetiva, deixar bem claro o que é preferência pessoal e o que é fato, e pôr na mesa todas as cartas que influenciaram a decisão. Isso tudo serve não apenas para me explicar, como também para informar o leitor que esteja pensando em adquirir um dos dois portáteis ou decidindo se vale a pena comprar o outro depois.

De qualquer maneira, a aquisição do 3DS e as comparações dele com o Vita e até o DS e o PSP acabaram transformando o mês de abril no mês dos portáteis aqui em casa, com pelo menos 80% do meu tempo para jogos dedicado aos quatro aparelhos no sofá, no metrô, no banheiro e na cama. Fora terminar Tomb Raider no PC e Metal Gear Rising: Revengeance no PS3, praticamente não joguei mais nada que não fosse portátil. Ah, teve Pro Evolution Soccer 2013 no PC também, mas isso foi para trabalho – já que o Sílvio Luiz mostrou parte da gravação em sua página no Facebook, agora posso contar que estive envolvido com a tradução de Pro Evolution Soccer 2014 (que terá novidades em termos de narração de games de futebol, aguardem!). Mas já estou saindo por várias tangentes; vamos ao que interessa, que é o 3DS, seus jogos, seus pontos fortes e fracos. Olho no lance!

Jogos, parte 1: valem a pena, mas prepare a carteira

Uma coisa que antecipei no texto sobre o Vita e se provou muito verdadeira foi a dificuldade financeira de se comprar jogos para o 3DS; tanto jogos da Nintendo quanto exclusivos de terceiros demoram muito para baixar de preço. Embora eu já tenha reunido a mesma quantidade de jogos físicos nos dois consoles (seis em cada), todos os jogos para Vita foram adquiridos lacrados, enquanto metade dos de 3DS eram usados. Mais: dois dos três lacrados só estavam com bons preços por motivos bem específicos (Resident Evil: Revelations baixou quando as versões de PC, PS3, Wii U e Xbox 360 foram anunciadas, e Pro Evolution Soccer 2012 está baratíssimo por não ser a edição mais recente de uma franquia de esporte anual). Como em geral todos os jogos carro-chefe da Nintendo ficam no preço oficial (R$ 150) por pelo menos um a dois anos, ainda não tenho – e provavelmente não terei por muito tempo – jogos como New Super Mario Bros 2, Mario Kart 7 e Luigi’s Mansion: Dark Moon. Só tenho Starfox 64 3D e Kid Icarus: Uprising por tê-los encontrado usados, e só me permiti gastar mais de R$ 100 em um clássico absoluto cujo remake eu queria muito jogar: Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D.

Nintendo: jogos caros
Junte as 100 moedas, que os jogos são caros

Isso dito, vale lembrar que quando a Nintendo acerta a mão, é em cheio. O Vita pode ter mais jogos bons no total, mas quando a Nintendo lança algo próprio de grande porte, é qualidade quase garantida, que vale seu dindin. Mesmo com tantos jogos do Mario para terminar em outras plataformas, Super Mario 3D Land me pegou de jeito e é ainda melhor do que esperava (noves-fora ser um jogo muito fácil nos primeiros mundos). Fire Emblem: Awakening é sim tudo isso que os críticos estão dizendo, e provavelmente aparecerá em algumas listas de melhores jogos de 2013. O remake de Ocarina of Time não apenas preserva bem a essência de um dos melhores jogos já feitos, como melhora visual e interface com muita elegância. Kid Icarus: Uprising, como mencionei no artigo sobre a rebarba de 2012, se provou um daqueles jogos que vende o console sozinho, e ganharia um lugar na minha lista de Melhores de 2012 se eu tivesse jogado-o antes.

O mesmo não acontece com tanta frequência nas produtoras terceiras, e a notável exceção, Resident Evil: Revelations, vai sair para outras plataformas… Mas se você gosta de RPGs e jogos tipicamente japoneses, coisas como o remake de Tales of the Abyss (original de PS2), Etrian Odyssey IVKingdom Hearts: Dream Drop DistanceCode of Princess e o futuro Shin Megami Tensei IV arredondam muito bem a biblioteca. Só não espere jogos de ação e aventura “ocidentalizados”, porque o melhor que irá conseguir é o recente Castlevania e o mezzo-clone de Diablo da Square Enix, Heroes of Ruin.

Jogos, parte 2: downloads (de lançamentos em cartucho ou somente digitais)

Mesmo deixando a parte financeira de lado, há uma grande diferença prática de se construir uma biblioteca nos dois consoles. Quase todos os jogos de Vita que quis comprar foram encontrados em lojas físicas, e as exceções (como Zero Escape: Virtue’s Last Reward) estão disponíveis em versão digital na PSN. Já no 3DS a história é diferente, seja no mercado oficial ou “cinza”. Por exemplo, acabei pegando Fire Emblem: Awakening na eShop não por ser mais barato, mas porque a versão física esteve esgotada por semanas. Etrian Odyssey IV continua desaparecido das lojas locais, e vou acabar capitulando para a versão digital também; até Castlevania Lord of Shadows – Mirror of Fate sofreu com problemas de distribuição. E essa escassez de cartuchos é relevante por que nem todos os jogos de 3DS estão na eShop. Até a semana passada, a loja virtual tinha até uma seção inteira dedicada a informar quais não podem ser adquiridos via download. Kid Icarus: UprisingStarfox 64 3DTales of the AbyssZero Escape, Heroes of Ruin Ace Combat: Assault Horizon Legacy são alguns desses, e até pouco tempo atrás Mario Kart 7 e Ocarina of Time 3D também não estavam disponíveis na eShop. Mas parece que a Nintendo já percebeu que essa política é um erro, pois até onde pude notar, todos os jogos lançados para o 3DS  em 2013 saíram em versão digital no mesmo dia que suas versões físicas. Vamos ver se ela mantém a postura a partir de agora.

Categorias jogos digitais eShop 3DS
Ainda falta muita coisa aí

Outro problema crônico da eShop é a quantidade de jogos digitais disponíveis, sejam eles clássicos ou novos, mesmo após dois anos de console. O Virtual Console da eShop tem apenas uma pequena fração da vasta biblioteca de consoles antigos no Virtual Console do Wii. A seção de jogos clássicos de NES refeitos em 3D tem apenas seis jogos, e mesmo os títulos de Gameboy e Gameboy Advance mal enchem os dedos de duas mãos. Enquanto isso, a biblioteca de jogos de PSP e PSOne compatíveis com Vita na PSN já chega a dezenas de jogos em um ano.

Também há poucos jogos somente digitais inéditos para 3DS em comparação com as lojas digitais da Sony. Mesmo descartando o que ganhei de graça da PSN Plus (Mutant Blobs AttackJet Set Radio HD, ChronovoltCanabaltZombie Tycoon IIPlants vs. ZombiesRetro City RampageVelocity) e da Playstation Mobile (Fuel TiracasCubixxLemmings), já comprei para o Vita coisas como Escape Plan, Guacamelee, Thomas Was AloneUncharted: Fight for FortuneOut of Mind e Sound Shapes e baixei jogos free-to-play como Jetpack JoyrideTable SoccerFrobisher Says!. Enquanto isso, na eShop do 3DS, só ganhei 3D Classics: Urban Champions (via Club Nintendo) e comprei Crimson ShroudLiberation Maiden e Gunman Clive. E isso sem contar que alguns dos jogos de Vita são cross-buy (pague uma e ganhe ambas as versões, de PS3 e Vita) enquanto na eShop não há nada parecido em relação ao Wii ou ao Wii U.

Canadá nas configurações do 3DS
Como eu queria morar *mesmo* no Canadá…

A pequena vantagem da eShop reside na facilidade de compra com cartão de crédito nas versões gringas. Comprar jogos digitais na PSN ou na eShop brasileiras dá na mesma: inscreva-se, escolha algo em um catálogo bem limitado, insira os dados de seu cartão, pague e baixe. Porém, usar a eShop americana ou canadense é um pouco mais simples do que usar a PSN americana. Enquanto na loja da Sony nos EUA não é mais possível comprar diretamente com seu cartão de crédito, mesmo que ele seja internacional, na eShop canadense consegui fazê-lo sem grandes problemas (tem um macete com o CEP escolhido, mas isso é detalhe, procurem guias na Internet). A desvantagem é que a eShop cobra imposto (daí usar a canadense, que fica em cerca de 2%, dependendo do estado selecionado). Além disso, vale avisar que embora seja possível usar eShops de países diferentes, elas precisam ser de países da região do console, já que o 3DS tem trava de região. Eu alternei entre as lojas dos EUA e Canadá sem nenhum problema, salvo a chateação de recadastrar dados e aceitar os Termos de Uso a cada mudança. Obviamente, se você tem fundos em uma eShop, eles não aparecerão na outra, mesmo que ambas sejam da mesma região. De resto, os jogos baixados de eShops diferentes – de novo, da mesma região – funcionam normalmente, e você pode baixá-los de novo simplesmente voltando à eShop do país em que o jogo foi comprado.

Três dimensões e olhos ainda inteiros

Uma das minhas preocupações maiores ao pegar o 3DS era justamente aquilo que mais o diferencia: o 3D. Já tinha testado o aparelho um pouco em uma loja, com Ocarina of Time 3D, e tinha achado normal; só fiquei feliz de ter conseguido enxergar o efeito sem problemas. Mas eu tenho uma tendência a ficar com dor de cabeça ao olhar demais para uma tela pequena ou ler no ônibus, então me perguntava como reagiria a mais do que 10 minutos usando o 3D do aparelho. Para minha sorte, reagi muito bem: já cheguei a emendar 3 horas com ele ligado sem problemas, e o pior que aconteceu foi começar a perder um pouco o foco visual por vista cansada após tanto tempo jogando – algo que me acontece com todos os outros portáteis mesmo sem 3D. Até agora nem sequer reduzi o efeito em nenhum jogo, a não ser para ver como ficava em 2D. E após um mês de uso constante, acho que posso me arriscar a contestar alguns mitos sobre o 3D do console.

O 3D do Miyamoto
Será que foi assim que nasceu a ideia do 3DS?

Primeiro, cansei de ouvir gente dizendo que o efeito não fazia muita diferença, que nem sempre funciona direito etc. etc. Em um ou outro jogo, de fato, o efeito “falha” um pouco. Para manter a visão 3D, é necessário posicionar o aparelho bem de frente para seus olhos e evitar qualquer inclinação mínima; mas em Ocarina 3D, por exemplo, mesmo apoiado em uma mesa, às vezes aparecem “fantasmas” no plano de fundo. Tales of the Abyss é outro caso problemático: o 3D adiciona muito serrilhado e não passa um aspecto de profundidade real. Mas essas são as exceções. Mesmo em jogos nos quais o 3D não acrescenta nada à jogabilidade (algo que Super Mario 3D Land faz muito bem), em geral o efeito é muito bonito e ajuda a chamar a atenção para elementos de design. Um bom exemplo é Fire Emblem: Awakening; como jogo tático em um tabuleiro virtual, a tridimensionalidade de edifícios e obstáculos realça bem as partes do mapa que as unidades precisam circundar, e os efeitos de fogo e fumaça que “saltam” na tela são esteticamente muito agradáveis e ajudam a compor o clima. Outro acerto é Pro Evolution Soccer 3D, em que dependendo da câmera selecionada, a profundidade extra ajuda horrores na hora de mandar bolas enfiadas. E tem Bit.Trip Saga, em que o 3D simplesmente deixa os jogos da série ainda mais psicodélicos (!).

Outra coisa que notei: embora seja possível desligar totalmente o efeito 3D, a grande maioria dos jogos na verdade não se adapta bem a isso. Quero dizer, o jogo não fica totalmente “flat”; sempre há alguma perda visual, especialmente nas bordas e contornos. Em alguns casos, é como se os elementos que aparecem em planos diferentes na visão 3D virassem “recortes” achatados e sobrepostos em cima de uma mesa. Curiosamente, os jogos que ficam bem sem nenhum 3D tendem a ser os mesmos que também têm efeito 3D bem implantado, como Resident Evil: RevelationsStarfox 64 3D ou Super Mario 3D LandTales of the Abyss, por exemplo, mantém o problema das bordas serrilhadas mesmo com o 3D desligado. Portanto, não adianta dizer “ah, qualquer coisa desliga o 3D” para alguém que esteja com medo de não conseguir enxergar o efeito: melhor testar o aparelho por conta própria e ver como seus olhos reagem. Além de perder uma das coisas que diferencia o console, você pode acabar com jogos que claramente não foram feitos para serem vistos em 2D.

Uma evolução “lateral” de hardware

O hardware do 3DS
Desnudando o bichinho da Nintendo (Ó A PERVERSÃO)

Não é preciso jogar muito para perceber que o 3DS claramente não se compara ao Vita em termos de potência. É, já estou ouvindo os gritos de “mas gráfico não importa!!!”… O problema, pessoal, é que gráficos são apenas uma das coisas que dependem de potência do hardware. Mais poder de processamento e mais memória também permitem mundos de jogo maiores, inteligência artificial mais elaborada, mais NPCs e coisas acontecendo ao mesmo tempo, menos tempo de loading e assim por diante; aliás, o próprio efeito 3D consome recursos, e se potência extra não importasse mesmo, não haveria razão para o 3DS existir. O fato do hardware não ser um salto tão grande em relação ao DS é o que tem impedido certos jogos multiplataforma ocidentais de ganharem versões no console da Nintendo, já que ele essencialmente lida com jogos do mesmo nível do fim da vida do *PSP* (tirando Resident Evil: Revelations, não vi nenhum jogo mais detalhado e bonito do que God of War: Ghost of Sparta, de 2010). Não à toa, a maioria dos jogos de 3DS que experimentei ainda tem a mesma cara e filosofia de design dos jogos para DS, apenas com resolução maior, e isso diz muita coisa sobre o que o aparelho consegue efetivamente fazer (noves-fora o 3D). Ah, e o console tem trava de região – cuidado ao importar de lojas inglesas ou da Play-Asia!

Por outro lado, ele acerta bastante em algumas coisas. A resolução maior é bem-vinda e mais do que suficiente para encher bem a tela do XL – um problema na versão XL do DS, em que diversos jogos ficavam “estourados”. O console também tem armazenamento interno de 2 GB e vem com um cartão de memória (2 GB na versão normal e 4 GB no XL), uma bênção para quem teve que lidar com o Vita, que vem “pelado” nos dois tipos de armazenamento. Melhor ainda, o 3DS não exige cartões de memória proprietários e caros, já que as licenças digitais ficam no armazenamento interno – o que também permite passar os jogos de um cartão a outro simplesmente copiando e colando/arrastando e soltando em um PC, como se fossem arquivos comuns. E como dito acima, o 3D é um diferencial interessante sim, nem que seja apenas esteticamente falando. No geral, o 3DS é um Nintendo DS com uma série de recursos extras “laterais”, ou seja, que mais complementam do que elevam os padrões do console anterior.

3DS vs. 3DS XL
Maior, melhor, mais bonito e não tão mais caro

Outros detalhes importantes: o Circle Pad é bem funcional, e nem mesmo Resident Evil: RevelationsKid Icarus: Uprising me deixaram com vontade de ter um segundo analógico. Os botões são mais firmes do que os do DS, o peso é surpreendentemente leve, e a tela de toque, embora ainda não seja multitouch, é bastante resistente às “canetadas”. As três câmeras (duas externas, para fotos em 3D, e uma interna) têm a mesma resolução das câmeras do Vita, mas são visivelmente piores e só tiram fotos aceitáveis com muita luz, de preferência natural.

Já a bateria do XL dura mais que no 3DS comum, mas mal chega às 5 horas de jogo constante que eu tiro no Vita, um aparelho ainda em sua primeira versão. Embora o uso constante do 3D não ajude, arrisco dizer que o problema é a iluminação de fundo da tela de cima: desde o início estou deixando-a no máximo porque baixar o brilho um ponto que seja (o máximo é 5) já escurece demais a tela. Somando tudo, eu diria que é muita roubada pegar o 3DS normal em vez do XL hoje em dia; entre cartão de memória maior, bateria mais próxima de um dispositivo comum atual, telas quase 100% maiores (e só assim comparáveis à do Vita) e a possibilidade de jogar games de DS em 1:1 com tamanho semelhante à tela do DS original, o XL oferece bastante compensação pelo custo extra.

Céu e inferno online

E aí vamos para o que costuma ser o elefante branco da Nintendo… Não, não o Wii, espertinho, e sim as modernidades online às quais nos acostumamos em smartphonestablets, outros consoles (portáteis ou não) e dispositivos. O 3DS é um passo peculiar nesse campo para a Nintendo, já que acerta e erra com igual “maestria”. Um dos erros mais clássicos é a insistência em Friend Codes; para quem não sabe, tratam-se de códigos alfanuméricos que você precisa digitar para poder adicionar alguém à sua lista de amigos em consoles da Nintendo, sem a opção de simplesmente pesquisar online pelo nome ou apelido do seu amigo. No 3DS, pelo menos a Nintendo atrelou um único Friend Code ao console (no Wii, era um código por jogo), mas ainda manteve a besteira de não permitir que você adicione à sua lista de amigos alguém que já o adicionou à dele (isto é, não tem jeito: os dois precisam passar seus códigos pessoais). Além disso, embora a rede da Nintendo funcione direitinho – talvez por não ser tão usada quanto as dos concorrentes – não vi nenhum jogo fazer algo diferente com o online, como Persona 4: GoldenSoul Sacrifice fazem no Vita. Até agora, só vi modos básicos como luta 1-contra-1, deathmatchdeathmatch em equipes.

Nintendo 3DS StreetPass
Passou, recebeu – e funciona bem!

Do lado positivo, não esperava que iria curtir tanto os recursos StreetPassSpotPass – respectivamente, as capacidades de se conectar a outros 3DS e a pontos de Wi-Fi abertos mesmo com o aparelho fechado, no modo sleep. Ambos servem para receber conteúdo extra, seja Miis de outros usuários, itens de jogos ou mapas e fases extras das desenvolvedoras. O Vita tem funções semelhantes reunidas no aplicativo near, mas não é a mesma coisa. Por exemplo, o aparelho da Sony não se conecta automaticamente a uma rede aberta nova, como o SpotPass faz; porém, ao conectar o Vita manualmente a um ponto de acesso novo, o console reúne informações sobre quem está jogando na sua região, incluindo quais jogos ou aplicativos estão sendo mais usados. É comum descobrir que mais de 80 pessoas usaram o Vita na minha região naquele dia segundo o near, mas raramente recebo um game good (conteúdo extra de um jogo) nessa brincadeira; enquanto isso, sempre que saio de casa com o 3DS, topo com apenas 2 a 5 Miis de outros jogadores, mas sempre recebo itens em Resident Evil: Revelations, Super Mario 3D Land e Fire Emblem: Awakening. A impressão é de que o StreetPass funciona bem demais e compensa o fato de terem mais Vitas circulando por aí do que 3DS, pelo menos na região onde moro.

Outro ponto alto, que compensa em parte o fato da eShop ainda não atrelar suas compras a uma conta pessoal, é o Club Nintendo. Só é possível fazer uso dele se você “setar” seu aparelho para os Estados Unidos ou o Canadá, mas como as lojas desses países são mais baratas e completas, você pode matar dois coelhos com uma cajadada só. A ideia do Club Nintendo é premiar os consumidores fiéis: cada aparelho e diversos jogos vendidos nos últimos dois ou três anos (incluindo alguns do fim da vida do DS e do Wii) vêm com um PIN ou número de série para registro no site. Cada registro confere moedas, e você pode usá-las para receber brindes da Nintendo. Os brindes físicos não são enviados para o Brasil, mas você pode converter moedas em códigos para download de jogos na eShop. As opções são limitadas e demoram para mudar, mas sempre pode haver algo interessante; hoje é o último dia para pegar Super Metroid e Super Mario 64 no Virtual Console do Wii, ou Kyrby’s Pinball e 3D Classics: Urban Champions para o 3DS. E o mais importante: ao cadastrar sua conta do Club Nintendo no aplicativo da eShop no seu 3DS, suas compras digitais ficam registradas no Club Nintendo – o que além de conferir moedas extras, permite que a Nintendo saiba o que você comprou caso seu 3DS seja roubado, perdido ou danificado. Há casos relatados em que o suporte da Nintendo conseguiu restaurar suas compras digitais em um novo console via Club Nintendo.

Conclusões

Gente com o 3DS não falta
Gente com o 3DS não falta

Tanta volta, tanta volta, mas só consegui chegar à conclusão mais óbvia: compre o 3DS se preferir bastante as franquias da Nintendo, e compre o Vita se preferir bastante qualquer outra coisa. Os detalhes aqui relatados servem mais, acredito, para aqueles que estão tão dispostos a se divertirem com um bom jogo do Mario ou do Kid Icarus quanto com mais uma edição da série Uncharted ou modernices como Sound Shapes. Sem uma preferência clara por determinadas séries e tipos de jogabilidade, ainda acho que adquirir o Vita primeiro faz muito mais sentido, mesmo que seja mais caro; além do custo ser compensado com coisas como a PSN Plus e a disponibilidade completa do catálogo em versão digital, o aparelho está melhor preparado para encarar o futuro. Quero dizer, o 3DS logo ficará 200% dependente da Nintendo e do mercado japonês, à medida que diversas franquias de produtoras terceiras ocidentais migram para a próxima geração de consoles domésticos. Já está meio que acontecendo agora: enquanto jogos da PSN e físicos ganham versões para Vita com os mesmos recursos e cross-play (jogo online entre as duas versões), nem mesmo jogos digitais lançados na eShop do Wii U, como Bit.Trip Presents… Runner 2, ganham versões para o 3DS. A única exceção é justamente um jogo recauchutado, com base em duas edições anteriores lançadas para PSP e Wii: Monster Hunter Ultimate 3.

Ainda assim, não pense que o 3DS não vale a pena, e não só por causa do preço menor. Com os lançamentos de 2013, finalmente a biblioteca do aparelho está criando uma cara própria, mais independente de Mario, ainda que bastante japonesa (o que pra mim é bônus). Bem ou mal, recursos como o 3D, StreetPass e as duas telas ainda são únicos, mesmo em comparação com os consoles domésticos; o Vita tem tela multitoque e o touchpad traseiro, mas eles não são tão usados quanto os recursos principais do 3DS. E com a base instalada que o console tem, batendo os 30 milhões, ele ainda vai durar algum tempo, mesmo após seus jogos se tornarem visualmente obsoletos. Em última instância, faça como eu: dê uma olhada nos jogos de 3DS mais bem avaliados no Metacritic, veja se consegue encontrar 5 a 10 exclusivos que queira jogar e, em caso positivo, comece a juntar dindim para comprar o aparelho. Até porque ou você acaba achando mais coisas dignas depois disso, ou se surpreende com jogos para os quais não dava muita bola antes (como aconteceu comigo em Super Mario 3D LandStarfox 64 3D e até Pro Evolution Soccer 3D). Agora dêem licença que vou lá ver se finalmente consigo terminar Ocarina of Time…

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