Stop: Por que eu tenho vergonha de ser “gamer” nos tempos atuais

House Facepalm - Ícone da seção Stop
It's not lupus

A cada ano, a cada mês – não, a cada dia – eu vejo mais um motivo para ter vergonha de ser um “gamer”. Tudo bem que a Internet veio para nos mostrar a quantidade real de idiotas no mundo, mas ainda assim, poucos grupinhos conseguem ser tão ridículos quanto os “guêimeres qui jógam até us dêdu cair”. E é nessa seção que eu digo a eles: STOP.

Se eu fosse obrigado a escolher um artigo sobre cultura “gamer“, e apenas um, para ler para sempre, seria o texto de Ben Kuchera no Ars Technica intitulado “In gaming, everything is amazing, but no one is happy” (No mundo dos games, tudo é maravilhoso, mas ninguém está feliz). É curto, direto ao ponto, com somente os links que precisa ter para corroborar suas afirmações… E não tem medo de apontar que os hobbystas dos jogos eletrônicos sofrem de um caso crônico de depressão coletiva profunda. Ou como o meu pai talvez pensasse, ataque de pelanca de criança birrenta que não apanhou na bunda o suficiente. O artigo pode ser resumido com seu terceiro parágrafo:

Uma vez eu fiz uma piada no Twitter dizendo que, se você prestar atenção somente aos comentários em artigos sobre games, vai achar que todas as pré-vendas [feitas por usuários] foram canceladas, que nenhum jogo vale o seu dinheiro, e que todas as editoras [de jogos] estão sendo boicotadas por todo mundo. Quando uma editora ganha um pouco de dinheiro que seja, já era; é egoísta da parte delas continuar a ter lucro. (…) E legiões de pessoas parecem estar examinando cada notícia em busca de qualquer desculpa para justificar sua [prática de] pirataria.

Gamer = criança mimada
Eu quelo 200 horas de jogo sem DLC, sem online e sem DRM... Para poder pirateAAAAHHH!!!

Quando li isso pela primeira vez, não foi uma ficha só que caiu – foi como se meu cérebro tivesse virado uma máquina caça-níquel que começou a cuspir moedas. Desde que voltei para valer ao mundo dos jogos eletrônicos, por volta de 2009-2010, sempre tinha sentido que algo estava diferente da época em que jogava Atari, ou depois Prince of PersiaLeisure Suit Larry no PC, ou depois Myst (que só recentemente descobri que foi alvo de críticas por “não ser um jogo de verdade” e ser “voltado a não-gamers” – parece famWiiliar?). E esse texto ajudou horrores a esclarecer o problema: os gamers ficaram mimados demais.

É tentador ficar calado e deixar esse pessoal tomar conta dos comentários – afinal, a essa altura, quem se importa com entidades randômicas na Internet vomitando ódio por coisas tão inconsequentes? São só um bando de nerds gordos sebentos que reclamam da batata frita que ganharam de brinde, não é? Aí é que está – não apenas. Parte também é iludida pela conversa mole de ódio a um “sistema” que nunca existiu, pela promessa de “igualdade” que só o despotismo esclarecido anticapitalista poderia nos suprir, e por outras formas de idealismo irracional. Mas chega de “filosofância”. O ponto é que cada vez mais esse pessoal, minoria ou não, está sendo ouvido pela indústria e principalmente pela imprensa. E se essa tendência continuar, a maioria silenciosa é que vai pagar – e de uma maneira muito mais profundamente danosa do que um mero DLC que qualquer ser normal sabe que pode ignorar solenemente.

Na seção Stop, eu vou assumir esse papel de quem dá tapa na cara para trazer a pessoa histérica de volta à realidade. It’s a dirty job but someone’s gotta do it. E para começar, não vou pegar apenas uma demonstração de irracionalidade contraproducente gamer, e sim três – todas fresquinhas, com menos de 15 dias de forno. Divirtam-se. Ou não.

EA, a pior empresa americana em 2012?

Loser do video game
Para quem não sai do porão, DLC é pior do que crise financeira e desastre ambiental

No início de abril, foi encerrada a votação do blog The Consumerist para a pior empresa nos Estados Unidos em 2012. A final ficou entre o Bank of America e a Eletronic Arts, que acabou levando por votação popular. As justificativas incluíam o mimimi de sempre sobre DLCs e, supostamente, o fato de novas empresas menores serem “alvo fácil de compra” por parte da EA – que aparentemente pode forçá-las a se venderem quando bem entender, né (facepalm)… Ah, e também reclama-se dos videogames ainda “terem preço premium”, ignorando que os custos de desenvolvimento quintuplicaram nos últimos 10 anos enquanto o preço final continua exatamente o mesmo, US$ 60 – sem sequer correção da inflação.

Mas o que mais chama a atenção não é o desconhecimento geral da matéria de videogames, e sim a ideia de que uma mera editora de jogos que “guarda” conteúdo extra para venda posterior a US$ 10 seja pior do que fabricantes de cigarro, empresas petrolíferas e bancos/agências de crédito que dispararam a crise mundial. Aliás, também é espantoso que se leve a sério qualquer blog criado pela Gawker Media, mas deixa pra lá. O ponto principal é que isso mostra como muitos gamers têm problemas sérios de prioridades na vida e de direcionamento ideológico. Esse tipo de birra boba ainda vai ser um tiro no pé… Aliás, vai ser não, está sendo. Quando a EA recuar e daqui a cinco anos só lançar jogo para Facebook/celular, Battlefield, The Sims e jogos de esporte, em vez de insistir com Dead Space, AliceSim CityDragon Age, The Old Republic e Mass Effect ou apostar em Mirror’s Edge e Shadows of the Damned, todas essas pessoas vão reclamar. E sem moral nenhuma.

GoG dá Fallout de graça e o pessoal ainda reclama?

Fallout de graça no GoG.com
É de graça, é de coração... Mas reclamam assim mesmo

No caso da EA, pelo menos há algum motivo para reclamar dela, por mais que a reação seja desproporcional e birrenta (basta não comprar os jogos e/ou DLCs dela, pronto). Agora, outros dois casos recentes são muito mais contraproducentes e beiram o retardamento mental. Um envolveu o GoG.com, site de jogos antigos “remasterizados” para sistemas recentes, tocado pela CD Projekt Red, também responsável pela série The Witcher. Até então, a CD Projekt Red era intocável pela sua oposição ferrenha ao DRM, dedicação a clássicos esquecidos dos videogames, sua série de RPGs madura… Tudo apenas para PC. Até que este mês eles lançam The Witcher 2 para Xbox 360 e, simultaneamente, começam a vender jogos independentes no GoG.com.

Só pela palavra “Xbox”, era óbvio que uma parcela dos piores fanboys que existem, a “master race” que só joga no PC, iria começar a pôr a CD Projekt Red contra a parede… Mas eu esperava que isso fosse acontecer só mais pra frente, quando a empresa lançasse algum jogo multiplataforma simultâneo. Também achei que seria elogiada por dar mais espaço aos indies, inclusive em casos como The Legend of Grimrock, um jogo decididamente retrô. Tolice minha: nunca subestime a idiotice potencial de quem joga video games hoje em dia. A CD Projekt Red transmitiu ao vivo uma conferência para anunciar oficialmente as novidades e, como forma de comemorar o novo passo do serviço, disponibilizou de graça por 48 horas Fallout – isso mesmo, o original, um dos maiores clássicos dos jogos eletrônicos em qualquer gênero e época.

Calvin birra
ESSE EU JÁ TENHO PÔ!

E você acha que o povo ficou satisfeito? Não, muito pelo contrário: mal a conferência acabou e os comentários da página foram inundados de gente reclamando por já terem o jogo, e com “argumentos” do gênero “Fallout de graça como agradecimento aos fãs? Os fãs ‘de verdade’ já têm esse jogo, isso só premia aqueles que não são fãs, que não usam o serviço regularmente”. Lembra algum papo sobre “true” gamer x jogador “casual”? Pois é. E independentemente da bobagem de sugerir que o GoG.com seja para “casuais”, pensem bem nisso: agora o pessoal reclama de jogo ser dado de graça. Sério, se eu fosse o GoG, nunca mais daria nenhum jogo de graça, para ninguém. Para quê?

Konami reduz o preço de PES 2012 e isso quer dizer “danem-se fãs”?

Fifa 12 x Pro Evolution Soccer 2012
Briga de gente feia

Todo mundo sabe que Fifa e Pro Evolution Soccer saem todo ano e que, nos últimos 3-4 anos, a série da EA tem largado na frente, tanto em termos de vendas quanto de recepção da crítica especializada. A Konami conseguiu melhorar a engine na versão 2011, mas para manter o patamar de vendas e superar o descrédito gerado pela fraquíssima versão anterior, optou por cortar o preço em 50% cerca de 6 meses após o lançamento. A estratégia deu certo e triplicou o número de vendas na América LatRina, principal base de vendas do jogo ao lado do Japão. Não por coincidência, a EA resolveu lançar Fifa 12 um pouco mais barato que o normal (R$ 180 nos consoles e R$ 60 nos PCs) e recentemente baixou ainda mais, para inacreditáveis R$ 30 no PC, por exemplo. Ou seja, concorrência e lei de oferta/demanda funcionando exatamente como deve ser.

E neste mês, logo após a redução de Fifa 12, a Konami anunciou que Pro Evolution Soccer 2012 atingiu 1 milhão de cópias na América LatRina e, com isso, seria reduzido de preço – de novo para R$ 99 nos consoles e, no PC, acompanhando o preço da EA, R$ 30. Parece ótimo, né? Quem não gosta de redução de preço? Pelo visto, jornalistas hipsters britânicos não – para eles,  isso quer dizer que a Konami está dizendo um “dane-se” para quem comprou o jogo no lançamento.

Para tudo. Sério mesmo? Eu não sei o que me espanta mais: a ignorância completa de como o mercado sempre funcionou; a ingratidão; ou a completa falta de senso de perceber que está jogando contra a própria torcida.

Copa Santander Libertadores em Pro Evolution Soccer 2012
Um dos dois motivos pelos quais ainda vende bem na América LatRina - o outro é o saudosismo incurável do latinoamericano

Vamos pelo começo: a Konami já fez isso antes. Por que só agora é diferente? Só porque a Konami anunciou que vendeu um milhão de cópias na América LatRina? E aí entra o segundo problema: como o sujeito não percebeu que o anúncio é uma bela jogada de marketing para distrair do fato de que este PES, mesmo sendo bem melhor do que os anteriores, ficou ainda mais para trás em vendas, com estimativas de 3 milhões de cópias contra 10,7 milhões de Fifa 12?

E finalmente, como assim “dane-se”? Quem comprou no lançamento teve seis meses a mais de jogo, pegou servidores online mais cheios, e agora terá novos “patos” para derrotar; quem está comprando agora terá que correr atrás e verá uma nova versão sair daqui a pouco. É muito justo que pague menos. Fora que todo jogo cai de preço com o tempo – o caso de PES 2012 é especial só por que houve um anúncio formal? Era melhor não anunciar, então, para ninguém ficar sabendo?

É pior ainda que o caso do GoG porque não somente temos uma reclamação de algo obviamente benéfico, como ela foi feita por um profissional da imprensa. Esse cara não é apenas uma entidade randômica fazendo mimimi por não ter levado vantagem em alguma coisa; é um “porta-voz” de um suposto “senso crítico” que será ouvido por muita gente. E se essa noção de “crítica” vingasse, a Konami logo desistiria, Pro Evolution continuaria na sua descida para o anonimato, e não teríamos concorrente nenhum para Fifa – que, é bom lembrar, só chegou no topo nessa geração exatamente porque PES tinha a fama de ser mais jogo, e que a única vantagem do Fifa era as licenças. E aí vem um jornalista imbecil e quer enterrar a Konami por tornar o seu jogo mais acessível seis meses depois?

A coisa só não é pior por que, bem ou mal, gamers ainda são consumidores e é difícil convencer a maioria dos consumidores que brindes de qualidaderedução de 50-60% no preço sejam coisas ruins. Mas que me dá vergonha enorme de ser gamer, dá.