Tilt: Diablo III e as perguntas que não querem calar

Tilt é uma seção recorrente deste site onde matuto um pouco sobre as tendências atuais que mais me incomodam no mundo dos games, como certos mitos de design que se perpetuam desnecessariamente. Se um determinado jogo adotou um recurso só porque está na moda, é aqui que irei comentar – ou melhor dizendo, reclamar.

Logotipo de Diablo III (PC)Acabei de desinstalar aqui o beta de Diablo III.

Calma, não me xinguem, não me matem. Não estou fazendo pouco caso de ter conseguido uma chave, não. É só que após uma sessão mais longa, o jogo deu uma travada homérica no meu micro que quase mandou o driver de vídeo para o saco. Como é o mesmo que uso para trabalho, não posso me arriscar.

Ainda assim, joguei mais de 5 horas dele, o suficiente para passar do período em que o jogo ainda está te segurando pela mão e fazer uma ou duas missões maiores (incluindo resgatar um velho amigo e visitar uma cidade icônica da série, agora em ruínas).  E também o suficiente para deixar um monte de perguntas ruminando na minha cabeça, independentemente da qualidade (ou falta dela) do jogo. Vocês saberiam me responder alguma dessas questões a seguir, por favor?

Por que a Blizzard pode fazer, 10 anos depois, basicamente o mesmo que Call of Duty faz todo ano sem ninguém espernear?

Desculpem-me, mas por melhor e mais polido que o jogo seja, ele é Diablo II com uma nova mão de tinta. Para se ter uma ideia, a mecânica mais diferente introduzida nessa versão é a possibilidade de destruir o cenário, o que em 95% do tempo só tem efeito cosmético. E morre aí. Sim, eu sei que a falta de criatividade incomoda menos exatamente porque já se passaram 10 anos e todos têm saudade de Diablo, enquanto uma edição nova todo ano aumenta o risco de enjoar de uma série. Mas há franquias por aí que, mesmo sendo anuais, ainda apostam mais na novidade – basta ver como Assassin’s Creed: Revelations incluiu até plataforma em 1ª pessoa e tower defense! Se esses elementos ficaram bons é outra discussão; o ponto é que mesmo sendo parte de uma série anual, Revelations arriscou mais do que a Blizzard em 10 anos.

Witch Doctor em Diablo III (PC)Por que Diablo III pode ter personagens absurdamente estereotipados e nenhum politicamente correto patrulha a Blizzard?

Metroid: Other M quase foi queimado em praça pública por feministas malas (eu sei, quase um pleonasmo isso) somente por ousar sugerir que uma mulher poderosa também possa ser uma pessoa comum, que tem sentimentos como qualquer outra. Deus Ex: Human Revolution teve sua cota de patrulha por causa de uma personagem mendiga negra. Até o Mario foi usado pela PETA por causa da roupa de Tanooki. Agora, Diablo III pode ter uma classe witch doctor com um negro tribal que anda curvado, fala como um retardado e parece ter saído diretamente de um romance pulp da década de 50? Não que eu ache que o jogo merecia patrulha por isso – trata-se apenas de preguiça autoral, falta de ideias – mas por que Diablo III está imune aos gamers-patrulheiros de plantão?

Por que Diablo III pode ter mensagens de ajuda “popando” na tela toda hora e ninguém reclama?

Uma das reclamações-frases-feitas que se joga a torto e a direito por aí hoje é que os jogos atuais “tratam o jogador como um idiota” por sempre ficarem exibindo mensagens do tipo “aperte X para fazer Y”, mesmo que o jogador já tenha usado aquele comando dezenas de vezes no jogo. O que pode mesmo ser bem chato quando não há a opção para desativar tais mensagens… Só que, como a maioria dos jogos tem sim essa opção e os reclamões parecem nunca ter pensado em procurá-la, talvez seja apropriado mesmo tratá-los como burros. Mas enfim, voltando a Diablo III: o jogo não só tem isso toda hora, como uma das mensagens exibidas era totalmente incorreta, insistindo que eu tinha itens para ocupar um certo slot do personagem quando não era o caso. E aí?

Skills em Diablo III (PC)Por que a interface e a árvore de poderes pode ser tão simplificada sem Diablo III ser acusado de ter sido “diluído”?

De Mass Effect 2 a Dungeon Siege III, o povo ama reclamar que uma série, especialmente de RPGs, foi “diluída” para “agradar os casuais” só porque a tela de gerenciamento de personagens, inventário, habilidades, magias ou whatever agora não tem 356 opções, e sim “só” 128. Diablo III abre com apenas quatro slots de habilidades, nas teclas 1 a 4, e complementa com um ataque em cada botão do mouse. E só. Depois você vai desbloqueando sub-habilidades, claro, mas a complexidade foi claramente reduzida, assim como a quantidade de poderes no total. Cadê o mimimi?

Por que Diablo III pode exigir que você esteja online o tempo todo e mesmo assim não vemos uma fração do escarcéu que se faz com outros jogos/publishers?

Admita-se que quando essa exigência foi anunciada, houve sim uma certa perplexidade e punhos cerrados em protesto. Mas não durou uma semana, ninguém ficou ameaçando “nunca mais comprar nada da Blizzard”, e quando finalmente saiu a data de lançamento do jogo, todo mundo foi correndo para a página de pré-venda e ninguém – ninguém – sequer lembrou do detalhe do DRM constante. Se fosse em séries e jogos que ousaram muito mais do que Diablo III, como Assassin’s Creed, Driver: San Francisco ou sei lá mais que jogo usa DRM, todas as notícias mencionariam o tal do DRM, sempre, seja qual fosse a pauta real.

Arena PvP em Diablo III (PC)Por que a Blizzard pode anunciar com antecedência que o jogo virá literalmente sem um pedaço e ninguém aponta para a Activision?

Mass Effect 3 saiu com um DLC no primeiro dia que não era absolutamente essencial para a história maior do jogo, mas ainda assim o povo caiu matando – mesmo que o jogo ainda ofereça uma experiência tão longa quanto os anteriores e até tenha incluído algo que os outros Mass Effect não tinham, o modo multijogador. A mesma reclamação foi usada contra diversos outros jogos na mesma exata situação. Enquanto isso, a Blizzard anunciou – malandramente, no final da tarde em uma sexta-feira – que Diablo III será lançado sem a arena PvP anunciada antes. A promessa é de que a arena será lançada em um patch depois, e embora não haja motivo nenhum para duvidar disso, a pergunta que não quer calar é: por que ninguém está acusando a Activision de apressar a Blizzard para lançar logo o jogo?

¿¿¿¿¿

Entendam que eu não estou dizendo que o jogo é um lixo, ou que acho isso tudo aí em cima uma demonstração inequívoca de que a Blizzard merece ser crucificada. Tive ótimos momentos de nostalgia com Diablo III; não tenho problema em ignorar/desativar as mensagens se o jogo for bom; todo jogo tem seus estereótipos; sou totalmente a favor de interfaces mais enxutas (mais opções nem sempre significa mais profundidade, muitas vezes é só entulho inútil mesmo); e não estou nem aí para a arena PvP. A questão do sempre-online me preocupa sim, mas isso é assunto para outro dia.

O ponto está nos dois pesos e duas medidas. Ou será que, na verdade, o ponto é que gamers são papagaios de pirata? Caso a se pensar. A única coisa que sei é que, pessoalmente, desisti de comprar o jogo a preço cheio. Quando baixar de preço, quem sabe. Espera, baixar de preço onde? A Blizzard não vende o jogo no Steam, nem em lugar nenhum… Mas malvada é a EA, que vende em N lojas online e ainda tem um catálogo no Steam bem maior do que o da Activision, né não? /facepalm

Agora, confessem: vocês ainda vão comprar assim mesmo, né? Para depois continuarem esbravejando contra a EA, a Ubisoft, a Activision etc.? Sejam sinceros.

Mesmo assim, você vai acabar comprando / You're still gonna buy it

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