Skyrim e a unanimidade burra que não existe

Capa de The Elder Scrolls V: Skyrim (PC)Quem me acompanha no Twitter e viu com calma a relação dos meus Jogos do Ano (e a dos leitores) sabe que eu não acho (e nem boa parte dos leitores) que The Elder Scrolls V: Skyrim seja tão fora de série assim, por melhor que ele seja – e é sim muito bom, especialmente depois de uma dose de vodka, que te faz esquecer do hype nojento da “nerdaiada” (e do departamento de marketing da Bethesda, que inundou a internet de memes em apenas dois dias). Eu tinha prometido a mim mesmo que não ia mais falar sobre isso no blog, mas uma entidade randômica qualquer da Internet, dessas que não somente lêem o UOL Jogos como participam do fórum (tem pouca coisa mais derrota para um gamer brasileiro do que debater no fórum do UOL), me acusou no Twitter de fazer “golpe de marketing” por não escolher Skyrim como jogo do ano – já que, segundo a tal entidade, “todas as listas elegeram, só a sua é que está certa?“.

Eu poderia perder horas escrevendo sobre a quantidade de absurdos lógicos que alguém com tal déficit de educação/cultura básica é capaz de cometer em uma frase tão curta… Começando pela falácia do apelo à maioria e indo até a ideia ridícula de que listas de melhores disso ou daquilo podem ser “certas”, e não apenas a média de um punhado de opiniões pessoais. Mas acho que não preciso ensinar a missa ao padre nesse blog. O que me impediu de esquecer completamente essa idiotice que o sujeito escreveu foi o uso da palavra “todas”. Até então, só tinha visto as listas do VGA e do Gamespot, e de fato Skyrim levou o prêmio GOTY (Game of the Year, Jogo do Ano) nas duas… Mas há literalmente dezenas de outras fontes. Ainda assim, eu tinha mais o que fazer do que sair caçando os fatos. Porém, recentemente fui notando pelos tweets dos portais e revistas de games que a realidade era bem diferente – Skyrim não é essa unanimidade que alguns fanboys estão arrotando, não. O que é bom: como já dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

Para tirar essa dúvida de uma vez por todas, fui caçar quem ganhou GOTY em diversos portais e publicações de renome (se essas fontes têm credibilidade fica a gosto do freguês – o ponto aqui não é esse, pelo menos não agora). E vejam só o que achei pesquisando no artigo “GOTY” na Wikipédia e no Destructoid, o único site conhecido de que me lembro e que não foi mencionado nesse artigo:

  • Destructoid – Portal 2
  • Edge – The Legend of Zelda: Skyward Sword
  • Eurogamer – Portal 2
  • Gamasutra – Portal 2
  • GamesRadar – Portal 2
  • GameTrailers – Uncharted 3: Drake’s Deception
  • IGN – Portal 2
  • Kotaku – Portal 2

Enquanto isso, Skyrim ganhou nos seguintes portais/revistas/associações/etc.:

  • 1up
  • GameSpot
  • GameSpy
  • Giant Bomb
  • Joystiq
  • Spike Video Game Awards (VGA)

E ainda tem alguns a serem divulgados:

  • Academy of Interactive Arts & Sciences (EUA)
  • British Academy of Film and Television Arts (Reino Unido)
  • EGM
  • Game Informer
  • GDC (Game Developer Choice Awards)
Live-action de The Elder Scrolls V: Skyrim
Live-action de The Elder Scrolls V: Skyrim

Nem mesmo entre os prêmios por votação do público há essa unanimidade para Skyrim que se acredita. Por exemplo, Portal 2 levou o Golden Joystick Awards, enquanto os leitores da IGN e os telespectadores do canal G4 escolheram The Legend of Zelda: Skyward Sword. E ainda há mais chances de acontecer em outras fontes, já que 1up, Eurogamer, Gamespot, Game Informer, GameFAQs e outros ainda não divulgaram os resultados de suas votações (pelo menos de acordo com a Wikipédia). Da mesma forma, nos agregadores de notas mais famosos, GameRankings e Metacritic, Skyrim não é o jogo com a melhor média de 2011, e sim Batman: Arkham City (ainda que por apenas um décimo no Metacritic).

Ufa. Bem, o meu ponto é simples: a quantidade de vídeos, mods, falação e memes que Skyrim gerou está mascarando o fato de que há muita gente que adorou Skyrim, mas mesmo assim não o considerou o Jogo do Ano. E não são poucos: olhando bem para a lista acima, ainda existe uma possibilidade real de que o jogo nem sequer leve a maior quantidade de GOTYs de 2011. Portal 2 ainda é um sério candidato – e não vou me espantar nem um pouquinho se o jogo da Valve levar o prêmio nas duas Academias, na EGM e na GDC (a Game Informer deve ir de Skyrim mesmo, e se não for, de Batman: Arkham City).

Na punheta com Skyrim
Isso é que é ficar na punheta com Skyrim

Então, se quiserem me acusar de fazer marketing, de ser “hipster” ou coisa que o valha, o façam se baseando em fatos: eu escolhi como Jogo do Ano Catherine e depois Dark Souls, dois jogos que não ganharam em nenhuma das fontes acima. Até agora, só vi a revista argentina Loaded e um editor do Gamespot [*] concordarem comigo sobre Catherine… Portanto, usem isso contra mim se quiserem, mas não me venham com essa história de que Skyrim é “claramente” o Jogo do Ano quando nem mesmo escolha da maioria ele é ainda – e se não for, aí defender Skyrim contra Portal 2 é que vai virar “hipster”… A coisa fica ainda mais séria quando se leva em conta que os fanboys estão indo ativamente atrás de quem não elege Skyrim como Jogo do Ano, o que é um absurdo e demonstra a imaturidade de uma parcela do público que o jogo atinge; isso é o tipo de coisa que só acontece em games, e quase nunca em nenhuma outra área de expressão – talvez porque nosso hobby possa até ainda ser tratado como coisa de criança para alguns, mas na verdade é tratado por vários jogadores como fonte de punheta e de discussões adolescentes.

Se eu fizesse essa militância toda com Catherine, até entenderia me perseguirem… Mas se vocês procurarem em todas as fontes acima, vão descobrir que a única na qual deixei comentário sobre o resultado de GOTY foi no Gamespot, e por outros motivos e jogo: Portal 2 recebeu indicações em muito mais categorias – incluindo várias bastante importantes para um RPG, como História, Diálogos, Personagem, Atuações Vocais etc. – enquanto Skyrim só foi indicado a Melhor RPG e a GOTY, e é difícil entender esse semi-paradoxo. Sim, existem outros fatores importantes em um RPG, o que pode até justificar a escolha de Skyrim como GOTY pelo Gamespot… Mas isso no mínimo demonstra que Skyrim  passa longe de estar tão claramente acima dos outros candidatos naturais a Jogo de 2011 – para isso, teria que ser melhor do que é em história, inteligência artificial e animações, no mínimo. Aliás, foram exatamente essas bolas, entre outras, que vários editores do Kotaku levantaram no seu interessante debate sobre Skyrim, e que impediram o jogo de levar o prêmio por lá.

E chega, que esse assunto me irrita. Vou lá pegar mais uma dose de vodka e jogar Skyrim.

Æ Æ Æ Æ Æ

[*] Aproveitando o link, notem que, ao mesmo tempo, somente um dos editores do GameSpot escolheu Skyrim como GOTY, e quatro deles nem mencionaram o jogo em seus Top 10 pessoais. Me pergunto como ele levou GOTY no final… E aposto que foi apenas para evitar a barragem de comentários dos fanboys.

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7 comentários sobre “Skyrim e a unanimidade burra que não existe

  1. Bem, foi o que eu disse no último Drops… é o meu jogo do ano porque foi o que mais me prendeu no mundinho e isso pra mim é o fator mais importante. Pra outros não, e eu entendo. O foda é quando nego só aponta os defeitos dele ao invés de apontar as qualidades dos outros jogos. Parece horário político onde um puxa os podres dos outros mas se esquecem de falar de sua plataforma.

    Não que seja o seeeeeeu caso, veja bem (troll smile). Hehehehehehe!

    E eu como já disse também, to espremendo as últimas quests do jogo e estou mais calmo com ele. Corria o risco de me tornar um jogador de WoW, ou o Gollum, mas parei antes. Ao menos Skyrim tem apenas 150 horas e não seis anos de duração. Nos nossos Drops seguintes continuamos falando do jogo, mas porque o resto da galera também só pegou agora. Até o CHUVISCO!!!!! E é divertido ficar trocando as histórias, já que é um jogo diferente pra cada um. Então embora eu tenha deixado de ser militante do partido Dovahkiin, o assunto rende de modo mais descontraído.

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    1. Não seria o meu caso nem que você usasse toda a trollagem do mundo: duvido que você encontre qualquer material em português na net que elogiou mais Catherine, e explicou mais os porquês, do que este blog. 😄

      Eu ouvi o episódio, e vi tudo isso que tu falou. Tu só não explicou de onde tirou o “hipster”. Hipster é quem repete meme de Skyrim 😛

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  2. Eu gostei muito, muito mesmo de Skyrim. Mas mesmo pra mim está longe de ser GOTY. Eu não joguei Catherine nem Batman e muito menos LoZ: Skyward Sword (infelizmente, quero muito jogá-los), então não posso falar sobre eles… Mas joguei Portal 2 e esse sim, na minha opinião, merece o prêmio.

    Por mais fã de The Elder Scrolls que eu seja, eu reconheço que não é TÃO bom assim, e que tem vários probleminhas que atrapalham, como bugs (que o diga meu Xbox que já travou 5 vezes, coisa que nunca tinha acontecido antes), o combate que não é tão bom, a AI que algumas vezes é irritante e podia ser melhor, a história que poderia ser mais bem desenvolvida (e principalmente os personagens) etc. Já Portal 2 é um jogo mais polido, ao meu ver, e que apesar de ser bem menor e ter menos coisas para fazer, realiza tudo o que se propôs de forma excelente. E isso é melhor do que atirar praticamente para todos os lados e realizar uma ou outra coisa muito bem, algumas bem e outras marromenos.

    E realmente, essa pessoas que ficam perdendo tempo enchendo o saco de outras só porque elas não gostam das mesmas coisas que eles é lamentável, dá pena até. Eu sempre ignoro, não adianta muito tentar discutir com eles. =p

    Porém, no fim do dia, eu continuo gostando e me divertindo jogando os dois, e é isso o que realmente importa. rs

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    1. E realmente, essa pessoas que ficam perdendo tempo enchendo o saco de outras só porque elas não gostam das mesmas coisas que eles é lamentável, dá pena até.

      O mais chato mesmo nesse caso é que nem é isso, e sim algo pior: não estão me enchendo o saco porque não gostei de um jogo – eu adorei Skyrim, é o primeiro Elder Scrolls que me empolgou – e sim só porque não o acho o melhor do ano, nem segundo, nem terceiro.
      Ou seja, na verdade você tem DOIS problemas aí: (1) a incapacidade de aceitar que outras pessoas tenham prioridades diferentes quando avaliam uma obra qualquer, e (2) a incapacidade de perceber que, para A ser melhor que B, não é necessário que B seja péssimo, ruim, nem nada. Pelo contrário, tanto A quanto B podem até ser excepcionais. Infelizmente, no caso de (2), as pessoas tendem a pensar de forma muito binária e excludente porque é mais fácil – ver graus/tons de cinza exige mais neurônios.

      Eu sempre ignoro, não adianta muito tentar discutir com eles. =p

      Eu também, tanto que não saio postando sobre Skyrim em fóruns ou portais de games. O meu problema com essa história foi exatamente *virem atrás de mim* nos meus espaços pessoais de expressão, como no blog e no Twitter. Aí a discussão na verdade deixa de ser sobre Skyrim – pode notar que não fiz resenha dele nem vou fazer, só menções na Back quando o estava jogando e chega – e passa a ser sobre a incapacidade dos locutores de aceitar os pontos (1) e (2) acima; Skyrim é apenas o exemplo. Aí eu não vou me calar porque senão esse comportamento se espalha, essa coisa binária e impositiva, e temos que mostrar que a realidade não é o que esses malas pensam. Daí esse artigo, inclusive.

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  3. Bom, Fábio, pra começar o meu comentário, já digo que isso é a coisa mais comum em todos os nichos de premiação ter um favorito que chegou aos 40 do segundo Tempo. Em 2010 tivemos Black Ops saindo no fim do ano levando um monte de premiações que achei completamente injustas.

    A indústria do Cinema sabe disso tão bem, que deixa pra lançar seus filmes “cabeças” durante o inverno, próximo da data das Grandes Premiações como o Globo de Ouro e o Oscar. Visto que a indústria do cinema americana sabe dividir perfeitamente os seus filmes “cabeças” dos filmes pipocas, que por sua vez, saem no verão. Logo, eles aproveitam bem esse hype.

    Concordo com sua colocação de que Skyrim é supervalorizado, e apesar de tê-lo jogado por 80 horas, ainda acho que The Witcher 2: Assassins of Kings é o RPG do ano, e é o Jogo do ano na minha doce lista pessoal, que como você mesmo colocou, não é melhor que a de ninguém, apenas diz respeito a um conjunto de opiniões.

    Agora, dizer que foi o próprio Marketing da Bethesda que enfiou os memes nas redes sociais foi um pouco forçado. Os memes de “Arrow to the Knee” e afins são apenas um Déjà vu de “Stop Right there criminal scum” de Oblivion. E tem um joguinho aí gerando uma quantidade muito maior de conteúdo na rede e ninguém chamou ele de jogo do ano nem nada, por que ele não veio em uma caixa de plástico, o Minecraft.

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    1. Fala rapaz! Bem-vindo ao blog.

      O lance dos 40 do segundo tempo é um fator, mas nos games é menos massacrante do que nas outras mídias – e pior, esse fator não foi decisivo já no ano passado, no qual os três jogos que mais levaram prêmios de GOTY saíram TODOS no primeiro semestre (na ordem: Mass Efect 2, Red Dead Redemption e Super Mario Galaxy 2). Black Ops pode ter levado alguns, mas nos portais e revistas mais visitados e com mais credibilidade, a contenda ficou mesmo entre esses três que citei.
      E bem ou mal outros candidatos grandes, como Uncharted 3 e Zelda: Skyward Sword, também saíram no final do ano. Acho que pesa mais a favor de Skyrim o fato de que muitos jogadores (e jornalistas), mesmo os mais viciados, ainda estavam jogando o game quando as premiações começaram – por motivos óbvios 😄

      Sobre o marketing, não acho forçado, não. Hoje em dia praticamente todas as empresas de tamanho razoável têm profissionais única e exclusivamente para fazer esse tipo de trabalho, de espalhar material pela net. Não lembra do caso do funcionário da BioWare escrevendo reviews positivos para Dragon Age II no site do Metacritic e não sei mais onde? O que talvez não tenha ficado claro é que não vejo isso como um problema em si, e sim que as pessoas não notem que memes não precisam ser necessariamente espontâneos – isso quer dizer que elas estão confiando cegamente em conteúdo da internet que é, essencialmente, impossível de rastrear com precisão. Mas de fato, não é *só* por isso que o jogo fez sucesso, claro.

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