Uma amostra do (ótimo) jornalismo de games portenho

Argentina em cada décadaCom quase 30 dias em Buenos Aires, percebi que podemos brincar o quanto quisermos sobre como os portenhos se acham europeus, são arrogantes etc., já que há um certo fundamento… Mas eles têm seus bons motivos. Eles atendem melhor, são MUITO mais educados no trânsito, comem melhor e se exercitam mais. Ao contrário do que se imaginaria, também parecem ser bem menos pudicos, a julgar pelo tamanho médio das roupas das argentinas – se soltassem aqui aqueles agroboys e moleques recalcados da Uniban que fizeram os quinze minutos de fama da Geisy Arruda, o número de crimes contra a mulher aumentaria 299% em menos de um mês.

Agora, que os argentinos escrevam melhor sobre videogames me surpreendeu.

Logotipo da LoadedAcabei de comprar a revista Loaded deste mês ao ver a capa com Metal Gear Solid: Revengeance. Só quando cheguei em casa me dei conta que a edição também tinha os Melhores do Ano dos editores. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que não fui só eu e vários editores do Gamespot que não colocaram Skyrim entre os 5 melhores do ano, mas também os colegas portenhos: o jogo amargou uma sétima posição. E o melhor – adivinhem quem ficou em primeiro? Nah, não precisam adivinhar; vou traduzir aqui o texto sobre o vencedor, um texto que me deixou morrendo de inveja. (Quem souber castellano pra valer, sinta-se à vontade para corrigir minha tradução porca, por favor!)

Mais uma vez, os redatores da Loaded decidem premiar a originalidade e a surpresa acima dos velhos consagrados e dos jogos que terminam com um número. Poucos [fichines?] enfrentaram tanto preconceito quanto Catherine esse ano – um jogo com menos nudez do que vários desta lista, mas que por sua temática francamente adulta, ganhou a pecha apelativa de “jogo erótico”, como se fosse uma dessas patéticas aventuras hentai que às vezes escapam do Japão. Catherine é uma tentativa admirável de mesclar o gênero mais cerebral (quebra-cabeças/enigmas) com o mais emocional de todos, a novela visual narrativa. Gosto de imaginar a equipe da Atlus caminhando em uma corda suspensa entre dois arranha-céus, já que este jogo é um ato de equilibrismo que busca envolver o jogador com sua história e, ao mesmo tempo, desconstruir constantemente o gênero. Catherine não quer ser um filme nem um anime; sabe perfeitamente que é um jogo e consegue ser uma grande novela visual e um grande jogo de enigmas, e ao mesmo tempo parodiar os dois gêneros com enorme acidez, tanto quanto com afeto (que o jogo inclua uma versão 8 bits de si mesmo é apenas um dos seus múltiplos toques de genialidade).

Logotipo de Catherine (PS3/X360)A mecânica do lado dos quebra-cabeças de Catherine é simples: de noite, nos pesadelos de Vincent (e nos nossos, se jogarmos na dificuldade normal ou alta), movemos blocos para criar escadas que nos levem ao topo, à saída, ao despertar. Porém, o despertar é ainda pior, porque de dia Vincent está encurralado entre duas mulheres prontas para pegar em armas: uma, Katherine, a noiva para toda a vida; a outra, Catherine, uma sedutora irresistível. A base do jogo está na tomada de decisões sob pressão – talvez a ação mais aterrorizante da vida real. Algumas de nossas decisões (qual bloco mover nos pesadelos?) têm consequências imediatas; porém, o mundo desperto é injusto, ambíguo, traiçoeiro. Um conselho mal dado (ou dado no momento errado) pode significar a perdição para uma das almas perdidas que vagam no bar que Vincent frequenta. E as pequenas mentiras que escrevemos para Catherine e Katherine por celular são peças de dominó cambaleantes que caem em cima de nós no momento mais inesperado.

Como Braid, como Portal, como nosso ganhador de 2010 Heavy Rain, Catherine se voltou para o que há de mais primitivo nos videogames para reinventar a interação, a forma de contar histórias, a forma de nos envolver com um jogo. Mais uma vez, a equipe da série Persona demonstra ser uma das poucas equipes de desenvolvimento interessadas em como pensam e sentem as pessoas reais.

Revista Loaded # 74É claro que o fato de também terem escolhido Catherine como Jogo do Ano me agradou, mas não só isso – até aí, vários editores do Gamespot mencionaram o jogo, e um o escolheu como GOTY também. A questão é o texto. Leiam essa parte acima de novo, com calma. E depois me digam: independente de concordarem ou não, onde se pode encontrar um texto tão conciso, apaixonado por games e, ao mesmo tempo, tão racional sobre a preferência por um jogo na imprensa brasileira? Só consigo imaginar alguns artigos e resenhas do Fábio Santana e olhe lá. De resto, o povo do Kotaku Brasil, das revistas da Editora Europa (com algumas exceções, como o próprio Fábio), do UOL Jogos, do Arena Turbo e afins vai passar o resto da vida e nem chegar perto desse pequeno artigo acima. Enquanto isso, os que têm potencial para chegar lá estão por aí, rodando a Internet em podcasts e sites, sem nunca encontrar espaço nas revistas mainstream… Talvez exatamente porque não querem ter que escrever coisas como “…senão Kratos se materializará do seu lado!!!!”. *suspiro*

E enquanto eles têm a Loaded, nós perdemos a EDGE… *mais suspiro*

13 comentários sobre “Uma amostra do (ótimo) jornalismo de games portenho

  1. S\abe que eu ando com bem menos tempo online e resolvi comprar uma revista para ler em horas vagas, quem sabe até me tornar leitor assiduo para ficar por dentro dos lançamentos e tal… aí fiz a experiencia de comprar a Playstation (por algum motivo meu alarme não disparou quando vi que tem uma coluna “gostosa aleatória de roupa intima do mes”)… cara, sério… lembrei porque parei de comprar esse tipo de coisa.

    Fabio, alem de importar a Loaded, hehe, tem alguma que voce recomenda?

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    1. O pior é que o Fábio Santana tá largado nessa revista. É um desperdício de talento sem tamanho isso, o sujeito fazendo análises extensa e detalhada sobre o que deu certo ou não em FF XIII (eu li inteira mesmo não gostando da franquia, só pq o texto era bom) no meio da tal coluna e de umas aborrescentices hormonais beirando o ridículo… Não é à toa que a revista se manteve enquanto a EDGE e a Ngamer morrerram, é disso que o gamer brazuca gosta.

      Tu não ficou com a impressão de que a revista tem 100+ páginas mas tu lê em 15 minutos? Pq quase todo o conteúdo dela é anúncio e detonado, que não é material de leitura e sim de referência…

      Hoje eu só leio o que sai no site da EDGE gringa e olhe lá. Assim que sair do Brasil vou assiná-la.

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  2. Quanto ao texto em si, oq + me surpreendeu não foi necessáriamente o fato de ele ser (muito) bem escrito, mas pq parece q o cara escreveu com uma “calma” entende? Acordou num lindo dia, comeu seu churrasco e fez… Pq realmente me pareceu um texto q só poderia ser escrito nesse tipo de condição. Não só aki como lá fora tb, os textos parecem ser escritos numa pressa, parece q o autor não teve tempo pra colocar toda sua análise no papel.

    Sobre a classificação dos jogos, ao mesmo tempo q eles “acertaram” em algumas partes, fiquei meio confuso pq parece q eles “embaralharam” um pouco, tipo ao meu ver não ficou “certinha” [caralho! é a lista definitiva de jogos do ano!], ficou “só” na opinião deles mesm.*
    [a meu ver colocar Zelda SS depois de DeusEX e LA:N é meio sacangem… :S]

    E quanto à “inveja” em si, em mim ela é um pouco menos egoísta, queria um Loaded não só aki mas como em todo o mundo, quem sabe não mudasse a cabeça dos nerds por aí…

    PS:* Oq me levou a pensar… Será q o critéria de escolha de cada um como jogo do ano não pode ser considerado o “impacto” q cada um representou não só na cabeça de cada um mas tb na “vontade de dedicação” em cada jogo?
    Vou explicar: ano passado quem ganhou foi RDR né? Mas na prática ele não tinha muita inovação na “formula GTA” além de ser um cenário diferente [logo com + possibilidades], mas ao q parece isso foi tão significativo [junto com o fato de ser um BOM jogo] q muita gente realmente achou q merecia ser o jogo do ano mesmo com outros discordando [e seu concorrente Mario G2 tb seguia a mesma linha], ou seja: o jogo do ano no final foi oq o pessoal acabou jogando +. Mas agora tamo em 2011 [praticamente, já q nenhum jogo “bomba” foi lançado ainda, tá todo mundo jogando coisas do ano passado] e a variedade de jogos bons q chamaram a atenção das pessoas é tão grande q fica difícil um consenso, TES5 foi o primeiro de muita gente e mesmo não sendo inovador foi oq + chamou atenção por “novidade”, oq esplica talvez essa “adoração” por ele.
    [1- Mas é meio estranho um jogo q é meio a “essência” dos jogos de PC ser o + jogado numa época onde as pessoas parecem ter “nojo” do PC. 😛
    2- Só pra efeito de comparação, o jogo mais jogado por mim no ano foi o Alice e se não fosse eu ter jogado um pouquinho de Zelda SS (q tristeza eu não ter wii, buááá) eu o teria escolhido como jogo do ano
    3- Putz! Q gigante! Me empolguei! ^-^]

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    1. Os argentinos com certeza são menos estressados do que em São Paulo. Quase nenhum restaurante que fui serviu comida apressado, e quando aconteceu foi no mais barateiro e a comida tinha jeitão de requentada no microondas (e mesmo assim muito boa, especialmente a carne). Nós ficamos exatamente com a impressão de que parar pra comer aqui significa parar mesmo, dar uma relaxada. Nos cafés à noite então nem se fala. Aliás, todo café aqui é restaurante e vice-versa, outro sinal de que não são lugares para se entrar correndo.
      Eu consigo imaginar tranquilamente o cara escrevendo esse texto em um café daqui. Eu mesmo estou pensando em ir trabalhar no último dia em um café próximo, só pela onda.

      Sobre Skyward Sword ficar atrás de jogo X e Y, não tem sacanagem nenhuma aí. 2011 teve jogos demais acima da média para ficarmos de mesquinharia com posicionamento. Mesmo no caso de Skyrim, embora ache que ele não merece nem ficar no Top 10, quanto mais ser Jogo do Ano, não tenho problema nenhum dele entrar em listas porque o jogo É BOM o suficiente para isso. O que me irrita é quererem transformá-lo em unanimidade burra e impô-lo como a sétima maravilha do universo – e o mesmo vale para Skyward Sword, Catherine, Batman: Arkham City ou whatever. São *só jogos eletrônicos*, ninguém precisa bitolar com isso. Ah, e se você não notou, *eu mesmo* pus Deus Ex no Top 5 do blog e não Skyward Sword.

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      1. Não, não quis impor minha opinião não só apontei algo q eu percebi, realmente não foi a intenção. Só acho q a lista tenha ficado meio parcial talvez em relação a posicionamento mas não tô reclamando [meu inconciente talvez] afinal é normal esse tipo de escolha. [oq me leva q eu deva tentar ler o texto da revista pq não entendi direito o posicionamento deles (maldito latim!)]

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  3. o Top 10 é surpreendente mesmo! E, se todos os textos forem tão bem argumentados, a imprensa de jogos argentina está MESMO décadas na nossa frente. Reparou que nem Modern Warfare 3 nem Battlefield 3 entraram na lista? e Uncharted 3 lá embaixo? Aqui no Brasil, só esses 3 detalhes já terminariam com um ou dois editores mortos na rua em atentados.

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    1. Pois é. Um dos editores votou em MW3 e BF3, ambos pouco abaixo de Skyrim – aliás, esse foi o único editor que escolheu Skyrim em 1º, talvez não por coincidência – e outro escolheu Uncharted 3 como GOTY, mas de resto, vc vê pelo resultado que a revista é mais plural. Até comentaram no texto de abertura sobre como houve listas pessoais que divergiram nos DEZ jogos – isto é, NENHUM jogo em comum entre os escolhidos de um editor e de outro. Pode-se discordar de qq um deles, e da revista, mas não se pode acusá-la de ser tatibitate e previsível.

      Estou lendo-a aos poucos e até agora deu pra ver que sim, de vez em quando há alguma brincadeirinha típica de gamer, mas no geral a impressão que tenho é de que existe uma linha que eles não cruzam porque já superaram os hormônios da adolescência. E não falta coragem, não. Estou lendo agora sobre uma feira de desenvolvedores de jogos argentinos e o editor responsável pelo artigo – aliás, o mesmo que escreveu esses parágrafos sobre Catherine – disse com todas as letras que a área de Showcase Indie foi a mais decepcionante da feira pela falta de ideias. Nem jornalista gringo tem o culhão de dizer que indies precisam melhorar assim, tão na cara. Não falam isso nem da área de indies da Xbox Live, que é notória por ser desova de lixo, com raras exceções.

      E lembrando que tu foi o cara que escreveu sobre como os videogames precisam se livrar um pouco da imagem do Mario, acho que tu vai gostar desse trecho do mesmo artigo, sobre o “abismo que separa al consumidor y al productor argentino de videojuegos”, como os games desenvolvidos aqui são sempre para navegador e celular e/ou para consumo internacional:

      É um fenômeno parecido com o do Novo Cinema Argentino em torno dos anos noventa, quando parecia que toda proposta de valor estava destinada a consumo do circuito de festivais. Porém, o cineasta argentino sempre manteve um olho na sua terra, enquanto os desenvolvedores locais parecem ir atrás de jogos universais – ou pelo menos do país imaginário da Disney e da Nintendo, governado com mão de ferro pelo ditador Super Mario e um congresso de Angry Birds.

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      1. Como assim desenvolver jogos universais é ruim? E se eu quiser desenvolver um jogo vou ter que ficar falando de coisas nacionais como Saci-Pererê só para parecer nacionalista “ai eu sou Brasileiro com orgulho”! e seu quiser passar uma mensagem com meu jogo ou uma historia que seja universal que passa uma mensagem a todos os povos não vou poder por que tenho que fazer jogos com coisas obrigatoriamente Nacionais para bancar o nacionalista.

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        1. Ele não disse que fazer jogos universais em si é ruim, mas que SÓ se fazem jogos para consumo internacional (e imitando os jogos dos outros, como fica claro na parte da “ditadura do Mario”). Falta de diversidade de temas é sempre ruim, tanto para um lado quanto para o outro.

          Além disso, não seja reducionista: existem mil maneiras de fazer algo com relevância local/pessoal sem apelar para nacionalismo barato e sem perder a universalidade dos temas. Não precisa apelar para referênciazinhas folclóricas. Não por acaso o cara jornalista citou o Novo Cinema Argentino, um momento do cinema deles que justamente fez muito sucesso internacional e colocou o cinema argentino no circuito de festivais de novo. Se esses filmes fossem o equivalente a “falar sobre Saci-Pererê”, isso jamais teria acontecido.

          De fato, nacionalismo é uma merda. Mas ficar só imitando os outros também é.

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  4. Opa, valeu por traduzir! Até dá pra entender marromenos o castellano, mas quem não sabe a língua (como eu) perderia muita coisa do artigo. =)

    Excelente mesmo, adoro textos assim. Aliás, é o motivo pelo qual acompanho você e o Aquino. O Fabão então, tenho profunda admiração por ele. É como o C falou num outro post, independente de concordar ou discordar, dá gosto ler opiniões bem argumentadas. ^^

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  5. “Texto de churrasco” é definitivamente meu novo adjetivo favorito, hahaha.
    Sabe, quando eu leio um texto sobre jogos não é para ver o que eu conseguiria ver no youtube em 2 minutos. Eu quero a opinião de alguém que pegou o espirito da coisa e tem algo a dizer – preferencialmente fazendo isso na calma, depois de ter comido um baita churrasco.

    Realmente eu consegui ler a Playstation em 15 minutos, basicamente porque eu não precisava terminar as frases para saber o que estava escrito. É um amontoado de cliches, verdades prontas e coisa e tal que eu realmente senti que estava lendo uma Capricho para meninos. Na verdade o estilo do texto lembra bastante.

    Mas aí que está, o que me incomoda não é a Capricho nem a Playstation, se tem seu publico e faz as pessoas contentes, uhuu, bom pra eles. O que me incomoda é a falta de opção. E se eu não for um aborrecente que precisa mandar meu gamerscore para uma revista para o Brasil todo saber que eu sou fodaum? E se eu quiser mais do que catalogos de lojas, materiais de referencias e matérias aleatórias com peitos?
    É dificil, pelo que voce falou acho que vou ver se a Loaded entrega no Brasil hehehe

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    1. Hahaha, de fato, “texto de churrasco” agora vai pegar 😄

      Se a Loaded entrega no Brasil eu não sei, mas pela capa ela é distribuída em outros países da América Latina e até no México. Então há uma boa chance.

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