Tilt: Videogames, TV e violência – chega de dar IBOPE e ser bonzinho

Tilt é uma seção recorrente deste blog onde matuto um pouco sobre as tendências atuais que mais me incomodam no mundo dos games, como certos mitos de design que se perpetuam desnecessariamente. Se um determinado jogo adotou um recurso só porque está na moda, é aqui que irei comentar – ou melhor dizendo, reclamar.

Após o caso da notícia do Globo Online, a reação dos gamers às tentativas de associar a tragédia de Realengo com os videogames, e de ressuscitar a velha idiotice de que jogos eletrônicos influenciam comportamento alheio, foi mais forte do que o normal. Porém, este fim de semana, outro portal de notícias/rede de TV foi adiante com esse discurso, e de forma ainda mais explícita e escrachada. Ficou claro que, desta vez, não se trata apenas de incompetência jornalística ou de convicções pessoais passando reto debaixo do nariz (e do senso de responsabilidade) de editores: foi uma pauta deliberada para dar audiência, mesmo. E o pior é que atraiu o público que o programa em questão normalmente não atrairia: jovens que jogam games.

TV sangrandoE não, não estou exagerando: a conta no Twitter de um “admirador” do tal portal (que, com certeza, é administrada por uma agência de publicidade/marketing ou algo similar) saiu comemorando, neste último sábado, as 43 mil menções ao nome do portal, geradas por mais uma hashtag criada por gamers em protesto. No domingo, o assunto virou o suposto “bloqueio” à hashtag, e com isso pouca gente parou para perceber o que estava acontecendo.

E o que está acontecendo? Duas coisas. Primeiro, estamos dando IBOPE para uma mídia morta. Segundo, estamos sendo bonzinhos demais.

Deixem a televisão aberta morrer

TV estúpida, telespectadores...?O pessoal que joga games, às vezes, parece esquecer que são os pioneiros de uma geração que vai em breve tomar de vez o poder sobre a informação. Não importa o quanto os mais velhos, os mais avessos à tecnologia ou os mais ignorantes esperneiem, o fato é que essas tentativas de menosprezar ou demonizar jogos eletrônicos, a Internet e até gadgets são gritos de desespero de quem sabe que vai ficar para trás muito em breve (e, em alguns meios e situações, já ficou bem para trás). Isso inclui a questão da TV, especialmente a aberta, como fonte de informação e/ou entretenimento. Percebam o seguinte: a TV não consegue, e nunca conseguirá, competir com a Internet em termos de rapidez e pluralidade da informação – ou com a urgência e interatividade dos videogames enquanto forma de entretenimento. Daí a gritaria.

Matérias como essa devem ser ignoradas. Sim, eu sei que “muita gente ainda depende da TV para obter informação”. O problema é que, a cada ano que passa, essa audiência diminui. Não é à toa que a reação ao discurso de que videogames influenciam crianças/pessoas tem sido maior agora: não é porque os gamers cansaram, ou porque o caso de Realengo foi grave, e sim porque hoje temos muito mais gamers de diversas idades do que há 5 ou 10 anos atrás. E esse pessoal assiste cada vez menos TV. Hoje em dia, temos lan house em favela, pacotes de banda larga a preços muito menores do que TV a cabo e computadores populares a R$ 800 em 12 prestações sem juros. Tenham paciência: em breve, esse tipo de pauta não dará audiência, e sim destruirá a reputação de quem a empurrar. Quem jogou games e/ou usa a Internet sabe muito bem que esse tipo de generalização é estúpida – e muito em breve, esse pessoal será a maioria esmagadora da população.

Chega de protesto bonzinho e educativo

Midia sensacionalistaOutro problema sério é a forma como estamos reagindo enquanto grupo de pessoas comuns que praticam uma atividade normal qualquer – por exemplo, com protestos em um espaço totalmente irrelevante como o Twitter. Vamos ser sinceros, gritaria no Twitter não leva a porra nenhuma. E tentamos ser irônicos ou, pior ainda, “educativos”. A ironia até tem seu lugar; mas o didatismo, a esta altura, tem que vir depois do protesto oficial cabível, que está ainda em aberto.

No caso do Globo Online, o protesto podia e deveria ser feito junto à editoria do jornal e às associações de imprensa porque se tratava, antes de mais nada, de um caso de extrema falta de ética e de desconsideração à profissão jornalística. O protesto oficial dos gamers enquanto grupo deveria ter sido feito pelas entidades que se propõem a representá-los, como a Acigames. No entanto, o único texto divulgado não foi uma moção de repúdio encaminhada às associações jornalísticas, às agências de notícias ou nada do gênero, e sim apenas… Um texto qualquer. Uma simples coluna. E só.

Sim, eu disse apenas. Não importa o quanto o texto seja bom em si ou lave a alma de muitos gamers: o fato é que ele não é uma moção de repúdio, não é um protesto formal, nem algo que poderia virar pauta em um veículo de comunicação que estivesse disposto a comprar a briga (e podem apostar que há, nem que sejam revistas de entretenimento/cultura/ciência, como a Bravo ou a Superinteressante, ou os sites de tecnologia). É um texto grande demais, educativo demais, distanciado demais e autocentrado demais – e que, por tudo isso, não chegou aonde deveria: ao grande público e/ou a quem poderia replicá-lo para além das fronteiras dos gamers.

Assessorias de imprensa em vez de advogadosFaltou muita coisa nele. Faltou a voz dos produtores e profissionais da indústria de games, que podem muito bem considerar matérias como a que foi ao ar hoje como perjúria e uma tentativa deliberada de denegrir uma profissão em busca de audiência. Faltou ser um comunicado à imprensa mais direto, ressaltando que a Acigames é uma entidade legítima como qualquer outra e que não irá tolerar difamação gratuita, inclusive recorrendo à Justiça quando for cabível. Faltou, enfim, tudo. A maior prova está no que conseguimos até então: uma curta edição da notícia do Globo, que pouco fez para diminuir a associação entre a tragédia de Realengo e jogos violentos… E, na sequência, outra matéria na rede concorrente, e desta vez feita sob medida para capitalizar em cima da indignação do público gamer. Sinto muito, mas fomos nós e a Acigames que sugerimos a pauta a eles – e deixamos claro que não temos capacidade de reagir direito.

De certa forma, isso não me espantou. Bem ou mal, a Acigames é recém-nascida e ainda tem muito feijão para comer como representante de grupos reunidos em torno de uma atividade, a dos jogos eletrônicos. Só espero que esse caso ensine a lição: a essa altura, é preciso coletar declarações dos representantes da indústria local, reuni-los em um press release, resumir o assunto nos dois primeiros parágrafos, encaminhar o texto às agências de notícias e, onde for possível, publicar o comunicado em jornais e sites como peça publicitária. Tem que começar o texto de forma bem dura, como por exemplo:

“Nós, representantes da indústria e do comércio de games, reunidos na Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games, manifestamos nosso repúdio às matérias sensacionalistas na imprensa brasileira que, recentemente, tentaram transferir a responsabilidade do crime praticado na escola em Realengo para uma mera forma de entretenimento – isentando, assim, de responsabilidade o próprio assassino e a patente falha de segurança pública.

Milhões de pessoas sadias e equilibradas das mais diversas idades se divertem com jogos eletrônicos, assim como outras tantas consomem outras formas de entretenimento, com ou sem representações ficcionais de violência. Não há absolutamente nenhuma comprovação científica de que livros, filmes, novelas, séries de TV ou jogos eletrônicos façam com que pessoas saudáveis se tornem assassinos seriais. Entretanto, apenas os jogos eletrônicos não recebem o benefício da dúvida, o que estigmatiza não apenas as pessoas que os consomem, como também quem os produz. Por mais que a liberdade de expressão permita que se formule hipóteses, afirmar abertamente que jogos eletrônicos possam causar tragédias como a de Realengo, como vinculado recentemente em um canal de TV, exige comprovação científica; do contrário, trata-se de perjúria e calúnia. Caso essa tendência sensacionalista perdure, nos sentiremos obrigados a buscar reparação legal por possíveis danos materiais e morais aos envolvidos com essa forma de entretenimento”.

E por aí vai. Se for para incluir algo mais, que sejam as declarações oficiais das empresas do setor e, talvez, reforçar que há classificação indicativa em todas as formas de entretenimento, incluindo os jogos. E tá bom demais. Por outro lado, qualquer coisa em tom mais brando que esse terá efeito zero. Não adianta insistir.

Em resumo, chega de ser bonzinho. Já passou da hora.

≈≈≈≈≈

PS.: E para os meros mortais que jogam games como nós? Continuem não vendo TV. Aliás, façam melhor: em vez de ficar apontando o dedo pra hipocrisia de quem passa filme violento e depois tenta demonizar os games, tentem sempre lembrar às pessoas que vocês conhecem de que assistir TV não oferece nada de construtivo que não se possa obter sozinho na Internet ou em um livro. Se for pra se mexer, contribuam para que a TV continue morrendo aos poucos em sua irrelevância. Esqueçam dos videogames por enquanto – pensem em como a TV não é nada, e passem isso adiante.

9 comentários sobre “Tilt: Videogames, TV e violência – chega de dar IBOPE e ser bonzinho

  1. Falou bem, principalmente a parte relacionada a o que nós, indivíduos podemos fazer. É isso, nesse estado de garimpar atenção desesperadamente, só precisamos difundir a cultura que pode ser obtida por praticamente qualquer outro meio e a própria TV trata de enterrar a si mesma.

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  2. É por textos como esse que eu digo aquelas coisas que fazem um troll corar. hehehe

    Fui ver essa matéria pela curiosidade e as duas únicas frases que passaram pela minha cabeça, enquanto assistia, foram: “não acredito que estou dando ibope pra isso” e “é por causa dessa baboseira que estamos fazendo tanta comoção?“. Achei que foi um sensacionalismo tão ultrapassado e desesperado, que ficou até bobo. E, no fim das contas, cheguei à mesma conclusão que você: a única coisa que tais reportagens merecem, de nós gamers, é serem ignoradas. O tipo de protesto que tendemos a fazer é inócuo. Uma gritaria indignada que não leva a nada concreto, infelizmente. Só veríamos mesmo algum resultado se a indústria e associações correlatas se unissem, tomando ações diretas cabíveis… O que vão fazer apenas quando esse tipo de matéria produzir algum impacto real e significativo no business, né? Até lá os games continuarão sendo retratados assim na TV. Mas isso não me incomoda mais porque, como você falou, sabemos que a geração nerd-geek-gamer-etc “vai em breve tomar de vez o poder sobre a informação, que será propagada de forma ainda mais dinâmica e flexível do que já está sendo na internet. Foi-se o tempo em que éramos meros espectadores, recebendo conteúdo passivamente. Estamos cada vez mais reflexivos, questionadores e contestadores, e às mídias só caberá a adaptação.

    ^_^

    PS: Fabio, depois posso mostrar esse seu texto lá no GoW? =D

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    1. Você tem carta branca para mostrar qualquer texto meu quando quiser.🙂 Sempre é um prazer ser replicado em bons blogs. Aliás, preciso depois mandar um mail para propor uma parceria. Só não pus ainda um banner do Girls of War aqui no menu ao lado porque não o tenho.

      P.S.: Estou há duas escrevendo o artigo sobre Bully. Não vai sair agora, e durante a semana terei pouco tempo, mas quando sair espero que você leia. Sério mesmo, acho o jogo mal interpretado por causa das expectativas que a associação “Rockstar + tema escolar” poderia gerar.

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      1. Oba! \o/

        Manda o email sim, não esquece. ^^

        PS: Pode deixar que lerei o artigo sobre o Bully. Mas tenha certeza que não subestimo o jogo e muito menos demonizo a Rockstar (como muita gente faz). Pelo contrário, considero seus jogos ótimos. Acredito quando você diz que o enredo do Bully é bem elaborado e faz críticas maduras, mas não consigo deixar de implicar com certos momentos de humor negro. É questão de gosto pessoal mesmo, tenho birra de qualquer coisa que envolva bullying. xD

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  3. Bom, não preciso nem dizer que concordo, depois das macabras coincidências no Twitter. Acho que cada gamer que por inocência deu ibope para aquela reportagem, deve no mínimo fazer um facepalm e não repetir a dose. Deixar a TV morrer é a melhor solução. Eu mesmo já não a assisto mais, salvo uma vez ou outra para ver um filme ou coisa do tipo.

    Muitos gamers por aí se revoltam e socam paredes e xingam no Twitter, o que é de certo modo compreensível, já que há uma trupe de sensacionalistas que tentam a todo momento atacar os games como forma de chamar a atenção, o que esquenta a cabeça de muitos quando se deparam com mentiras descabidas sobre algo que conhecemos e gostamos tanto. Mas usar essa tática de fogo, xingando e se desesperando, acaba por só ajudar essa mídia moribunda, por motivos que tu já citou. Antes de toda essa galhofada, eu nem lembrava que existia Rede Record, tampouco sabia da existência do R7… Acho que eles conseguiram o que queriam.

    E é nessa tática de fogo que alguns gamers até tem um lapso de serenidade e pensam em algo mais efetivo, como um ação judicial. Mas novamente pensam de modo inefetivo em ações que seriam ridicularizadas e que se algum advogado biruta encabeçasse os descabimentos propostos que vi no twitter, daria em um grande e redundante NADA. O mais certo seria mesmo que os representantes da indústria de games ou a inerte ACIGAMES buscassem seus direitos em defesa de sua classe. Ah, e só a título de curiosidade, no tocante judicial, perjúrio não existe como crime (que seria uma outra história) e calúnia não cabe no caso. A figura certa, no que diz respeito aos crimes contra a honra, seria somente difamação. Sei que tu usou a calúnia e perjúrio em sentido amplo na carta, não necessariamente vinculado com o sentido estrito do âmbito jurídico, só dei o toque pra esclarecer possíveis desavisados.

    Sem muito mais o que dizer eu acho, apenas manifestar minha total concordância e dar o meu apoio pra ti, Fabio. Ótimo texto, fui dormir mais tarde ontem só esperando tu lançar ele. Que 5 minutinhos mais demorados hein!? xD

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  4. Tenho permissão pra criar uma corrente de e-mail com esse conteúdo? Garanto que cito a fonte!

    Abraços e continue trollando!😉

    #PrecoJusto

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  5. Oi Fabio!

    Antes de mais nada, parabéns pelo blog! Vim parar aqui por indicação da Bebs e estou gostando muito dos textos. Ainda tenho alguns na fila, como o do GTA e do Bully, mas o fato de eu estar comentando aqui significa que terminei o primeiro deles!

    Vou comentar brevemente: Não sei se devemos depender de associações, como a AciGames, para exercer nossa defesa. Acho a voz do público que defende a mídia dos jogos deve ser manifestada independentemente, mas sempre de maneira sensata e bem fundamentada. Eu, por exemplo, coordeno um projeto de pesquisa e desenvolvimento de games no Rio de Janeiro. Em essência somos acadêmicos, mas como eu também sou desenvolvedor/produtor, me preocupo muito com a imagem veiculada a respeito da mídia dos jogos eletrônicos.

    Dessa forma, após a tragédia de Realengo, preparamos uma carta aberta sobre a repercussão negativa em relação aos “games” e acho que ela reitera a mensagem que você passou no post. Espero que concorde.

    http://direitorio.fgv.br/sites/direitorio.fgv.br/files/Carta-Aberta-Realengo-CTS-Game-Studies.pdf

    Estamos passando por uma gradual adaptação social, mas ela não vai terminar enquanto não nos mantivermos firmas em defesa da mídia.

    Parabéns pelos textos!

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