Combo: Jogo político, Pauta #1 – Impostos

ComboNem só de videogames vive o homem ou a mulher – ainda mais quando eles renovam o interesse por música, vídeo, cinema, narrativas diversas e, por tabela, ideologias. A seção Combo foi criada para firmar qualquer intersecção entre os games e o “mundo lá fora”, sob qualquer perspectiva.

Mario vs. Luigi na eleição americana“Pô, tu vai falar de política no seu blog de [trollagem de] games”?

Sim, claro. Primeiro, porque política não é necessariamente sinônimo de partidos, figuras estrambóticas, conchavos e corrupção – política é a arte da organização social humana, e desse tipo de política não dá para escapar, nunca. Segundo, porque diversas coisas que acontecem no nosso dia-a-dia de viciados em videogame têm relação direta ou indireta com política, por mais que a maioria dos gamers finja que não. E isso está me cansando um pouco, o que significa que lá vem pauta pro blog.

Portanto, se você não tem saco para política de nenhum tipo, eu poderia tascar o velho ditado sobre como aqueles que não se interessam por política são governados pelos que se interessam, mas… Como esse blog virou #trollgame, eu vou é jogar na tua cara o seguinte: cale a tua boca e não fique de mimimi sobre projetos de lei para proibir venda de jogos, sobre os altos impostos do setor ou sobre a imagem que se tem dos videogames como “coisa de criança”. Engula o choro e aceite tudo isso como reflexo da tua ignorância política, porque é exatamente o que acontece. E nessa série de artigos, pretendo explicar/relembrar direitinho como isso funciona, começando pelos impostos.

Em tempo: a ideia desta série de artigos surgiu, de certa forma, do tema do LagCast Connection #036. Discutir polêmicas que envolvem games foi uma boa sacada, mas achei que dava para ir mais longe com aquilo, e o resultado está aqui.

Pauta #1: Você apóia os impostos altos, mesmo que não saiba

Chega de tanto imposto
E a mordida real é bem maior

Estamos passando por uma época de revolta contra impostos altos não apenas na área de games, com movimentos como o Jogo Justo, mas no país em geral, desde as iniciativas de combate à CPMF e do Impostômetro até o Dia Sem Imposto. Não me levem a mal: para quem está chegando aos 40 e viveu uma era em que o valor dos impostos era discutido apenas nos programas humorísticos e na hora de preencher declaração do Imposto de Renda, é um avanço e tanto. Agora, ainda precisamos dar um outro salto importante: passar a entender porque diabos os impostos são altos, e o quanto contribuímos para isso ao aceitar como verdades absolutas certas políticas que não são universais e implicam, necessariamente, em maior tributação.

O primeiro grande erro é achar que impostos são altos no Brasil por causa de roubalheira, má administração de recursos ou necessidade de mais infraestrutura. Todos estes fatores contribuem, mas mesmo que todos eles fossem sanados, os impostos ainda seriam altos – não estratosféricos como são hoje, claro, mas ainda assim altos. E porquê? Porque nós exigimos demais do Estado. Queremos que ele nos dê saúde, educação, estradas, aposentadoria, habitação, empreguinho público com bom salário e estabilidade, vale-coxinha e o caralho a quatro… De graça. Sinto informar, mas só há uma forma do Estado pagar tudo isso: arrecadando cada vez mais imposto.

Protesto Game Over
Mensagem dos gamers para o governo mãezona

A única maneira de reduzir impostos a níveis mais aceitáveis é entender que o Estado não é a sua segunda mãe e assumir a responsabilidade por sua vida. Ao Estado cabe apenas legislar, policiar a sociedade e assumir obras de infraestrutura que viabilizem a iniciativa empresarial e individual; o resto é questão de ideologia política, e não um direito inalienável como se acredita. Essas obrigações administrativas básicas já consomem imposto o suficiente, então qualquer coisa além acaba gerando uma conta extra para a sociedade em geral. Por exemplo, a tal da educação públicagratuitaedequalidade, como diz o bordão desgastado, não tem nada de “gratuita”: ela apenas divide a conta entre todo mundo na forma de impostos, incluindo aqueles que não irão usá-la – exatamente porque a “qualidade” do bordão passou longe. /facepalm

E o que isso tem a ver com os jogos? Com os importados, não muito; ainda assim, a mentalidade do Estado-mãe limita o crescimento do mercado local de outras maneiras. De imediato, essa mentalidade cria barreiras no varejo, já que (boa) parte da conta vai para os empresários e, consequentemente, para o preço final. Contratar um funcionário no Brasil, hoje, significa pagar dois salários; ou seja, se o atendente da loja de games da sua rua ganha X reais, a loja gasta mais X em encargos trabalhistas, impostos comerciais e taxas administrativas – isso tudo fora os custos normais de funcionamento, como consumo de energia, gastos com limpeza e material etc. E todos estes impostos e encargos do lojista existem para quê? Para financiar educação e saúde públicas, previdência social e por aí vai (se vai parar no bolso de corrupto é outro problema, da polícia e do jurídico; a justificativa legislativa destes impostos continua sendo “o bem da sociedade”).

A verdade da escola
"Mãe, porque tenho que ir bem na escola?" / "Para arrumar um bom emprego, ser escrava dos impostos e bancar aqueles garotos perdedores que não estudaram porra nenhuma!"

Isto é: quando você se conforma e paga R$ 180 em um Gran Turismo 5 porque o preço “está em conta” (para os padrões brasileiros, claro), você está pagando não apenas pelo jogo mas pela escola de alguém, por aquele hospital do SUS em seu bairro que você nunca vai usar, e pela aposentadoria daquele tio mala que parou de trabalhar cedo aproveitando uma mamata do Banco do Brasil. Se você acha que o governo tem sim que bancar essas coisas para toda a população, então sinto muito – senta na etiqueta do preço e não reclama. (Aliás, é isso que me impede de ter 100% de confiança no Jogo Justo: o projeto depende mais de uma mudança de mentalidade geral quanto ao papel do Estado do que da vontade dos gamers e dos profissionais do setor. Mesmo que se prove por A + B que a arrecadação irá aumentar, a mentalidade de Estado-mãe faz com que os representantes do governo dificilmente queiram rever tributos de qualquer espécie. O medo de perder receita é muito maior do que a ganância.)

Agora, se você acha estes impostos um abuso, comece a repensar seus conceitos. Ninguém tem que bancar nada pra você. Arregace as mangas e conquiste as coisas você mesmo: só assim terá moral para reclamar que estão te sugando. Enquanto achar que a sociedade tem que pagar a educação dos seus filhos, a sua cirurgia de apêndice e o seu vale-coxinha, sinto muito, mas vai tomar imposto alto na cara até aprender.

8 comentários sobre “Combo: Jogo político, Pauta #1 – Impostos

  1. A regra mais básica da economia é que não existem almoços grátis.

    Mas é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que alguns brasileiros entenderem que eles não têm direito a usufruir do trabalho dos outros (e serviços custeados pelo estado são trabalho de alguem, bom ou ruim) de graça.

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  2. Caralho, meu irmão, tu abriu a minha cabeça. Realmente em alguns países de primeiro mundo, como Japão, as pessoas aposentam muito mais tarde e trabalham mais, lá também tem escola, hospitais, entre outras coisas, mas como eles tem dinheiro e não tem um sistema corrupto, os custos de construir essas coisas e pagar gente e não fantasmas para trabalhar é muito menor, ainda considerando que eles tem mais poder aquisitivo, porém em todo país do mundo tem escolas e hospitais, o brabo é que aqui no Brasil o estado paga aposentadoria, salario desemprego, bolsa escola e bolsa família, gastos enormes com higiene publica como ruas sujas, vandalismo, etc. mas na minha opinião esse é somente um dos fatores para os impostos altos. Para o principal fator é a corrupção, mas não só dos políticos, se fossem só eles, ainda daria para remediar a situação, o problema que a corrupção está no Brasil inteiro, em todas as classes sociais, desde dos ricos que sonegam impostos e o governo é obrigado a aumentar já visando que tantos % vão ser sonegados, aos pobres que compram produto pirata mesmo que o oriignal seja pouca coisa mais caro. As pessoas que querem ser honestas são obrigadas a não ser, pois terão que comprar um produto caro, porque o vendedor tem que ganhar sua margem de lucro, mas se aquele produto vendesse mais, a margem de lucro por produto seria menor, o imposto seria menor, porque o próprio governo veria que aquilo está gerando um comercio grande, como aconteceu com os carros, que tinham uma taxa de imposto gigante, mas por gerarem tantos lucros, os imposto foram abaixando, embora tudo isso começou no Brasil quando o Collor resolveu diminuir os impostos sobre os carros por conta própria (como ele mesmo disse, os carros no Brasil eram carroças), por isso que o projeto jogo justo é importante.

    Mesmo assim, muito bom seu ponto de vista.

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    1. Cara, boa parte da corrupção moral – aquela além da administrativa, a que se espalha por todas as classes sociais como você falou – nasce da ideia de que os que trabalham e produzem precisam dividir com os que “não têm oportunidade”. Não sou radical de achar que todo mundo tem oportunidades iguais, mas de qualquer maneira, não é redistribuindo e dividindo a conta na marra que se resolve essa desigualdade. Pelo contrário – você só freia inovação e crescimento e deixa de incentivar quem quer produzir, justamente aqueles que podem dar oportunidades justas para quem precisa (mais empregos, por exemplo). Pense nisso: a nossa maior corrupção é achar que os outros devem alguma coisa à gente.

      Quanto à corrupção ser o principal fator, cuidado, porque isso pode muito bem ser cortina de fumaça. Não tenho dados concretos, mas não me espantaria de descobrir que a crise econômica mundial recente custou muito mais aos países desenvolvidos do que toda a corrupção dos últimos dez anos, ou que o Bolsa Família consumiu mais dinheiro do que os desvios de verba ocorridos desde que foi implantado no Brasil. Incompetência sempre custa mais, no final das contas. E como surgiu a crise econômica? Com instituições financeiras dando crédito podre e barato, incentivadas pelo governo, em nome de “facilitar o acesso” à casa própria para um público que na verdade não tinha como pagar as hipotecas. As dívidas em cascata quebraram bancos e deu no que deu. Bolsa Família, então, nem se fala; todo mundo sabe que aquilo é uma forma velada de redistribuir renda sem nenhuma obrigação por parte de quem recebe.

      Em ambos os casos, a lição é a mesma: não tem que facilitar nada pra ninguém, principalmente às custas de terceiros – sejam eles bancos, indústrias, empresas ou o contribuinte individual. Tem é que criar condições para que se possa produzir honestamente e sem interferência de quem não produz. O resto cresce naturalmente a partir daí. Pode apostar que independente dos serviços públicos que o Japão tenha hoje, a nação só virou uma grande nação industrializada porque sempre houve vontade de trabalhar e pouquíssimos entraves à produção. Assim, em menos de 40 anos eles viraram líderes em tecnologia, enquanto a gente não fabrica nem calculadora aqui no Brasil.

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