Combo: We Dare e os gamers virgens puritanos

ComboNem só de videogames vive o homem ou a mulher – ainda mais quando eles renovam o interesse por música, vídeo, cinema, narrativas diversas e, por tabela, ideologias. A seção Combo foi criada para firmar qualquer intersecção entre os games e o “mundo lá fora”, sob qualquer perspectiva.

Interrompemos a nossa programação normal – isto é, jogar, trabalhar e fazer anotações para a próxima parte da série sobre como os videogames são um Clube do Bolinha – para prestar um serviço de utilidade pública e apresentar mais provas cabais de como boa parte de vocês, gamers, são uns párias nerds estereotipados de porão do caralho.

Primeiro, o pomo da discórdia: o trailer de We Dare, o novo jogo da Ubisoft para Wii e PS3 que promete servir como forma de, bem, “quebrar o gelo” em festinhas privadas por aí.

OK, já se recuperou? E aí, deu risada? Se sim, parabéns, você é uma pessoa normal. Só não repara, que tem uns 999 nerds endignaldos (sic) à sua volta neste exato momento. E para estes 999, na boa: quem vocês estão tentando enganar? Eu não nasci ontem e sei exatamente porque vocês estão achando esse trailer o fim do mundo.

Vamos tirar uma coisa do caminho antes. Não vou nem me deter no fato do jogo ser pra Wii e de como isso, por si só, já cria uma puta má vontade entre os jogadores nerds de porão estereotipados do caralho (tradução oficial e sancionada para “gamers hardcore”). Agora, uma coisa é fato, como o Retina Desgastada apontou no Twitter:

@regames Longe de mim ficar horrorizado. Mas é impressionante a falsidade do produto… como se o jogo fosse a coisa mais sexy do mundo!

@regames É tão falso quanto comercial de cigarro ou pasta de dente com todo mundo feliz e saudável, como se o produto fosse o motivo.

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Olha como jogar Playstation transforma uma mulher

Perfeito, e assino embaixo. Só vamos combinar uma coisa: esse tipo de comercial, com gente sorridente, bonita e com cara de modelo jogando videogame, é a coisa mais comum. Não é uma exclusividade de We Dare, e não é mais “na sua cara” do que, digamos, alguns comerciais do Kevin Butler. Porra, o próprio Kevin Butler é um ator e tem muita gente que acha ele irreal demais. [Newsflash: não é. Tem muito tiozinho jogando videogame por aí sim, e há países desenvolvidos em que a média de idade dos jogadores já está em cerca de 35 anos. Calcule que qualquer moleque de 10 anos hoje joga videogame, e fica claro que tem muita gente beirando os 50 jogando também].

Não, o problema não é esse. O problema é que ele associa um jogo com sexo. Sexo de VERDADE. No mundo real. Na sua sala, na sua casa. E ainda sugere troca de casais e bissexualismo. DE VERDADE – não pegação virtual entre duas personagens de Mass Effect. E para os jogadores nerds de porão estereotipados do caralho, isso é o mesmo que mostrar a um crente provas cabais de que Jesus foi uma pessoa comum e comeu a Maria Madalena até dizer chega.

Puritanismo, hipocrisia e comportamento passivo-agressivo

É impressionante como quase todas as notícias sobre este trailer nos portais famosos de games demonstraram algum tipo de indignação. Teve até “jornalista” (cof) dizendo que o trailer demonstrava “como a Ubisoft acha que mulheres irão ceder só por jogar o game”. Meu amigo, eu sei que você não está acostumado com a coisa toda, mas deixa o titio lhe explicar: não é que O GAME faça isso. É que as pessoas normais, adultas e que não vivem no porão da casa dos pais geralmente precisam baixar a guarda e ficar à vontade umas com as outras antes de fazerem qualquer coisa que envolva intimidade física. Como elas baixam a guarda vai variar de pessoa a pessoa, e nada impede que isso aconteça com piadas tolas, conversas sem sentido ou gracinhas que, para qualquer observador de fora, vão sempre parecer ridículas – como We Dare parece ser.

Cara Legal
Bem LEGAL, você, hein?

Note que isso não quer dizer que We Dare em especial vai conseguir essa proeza de “quebrar o gelo”, muito menos que conseguirá convencer um grande público. Não é a qualidade do game que está em discussão aqui. O que está em discussão é a hipocrisia de muitos de vocês que estão aí, comentando, enquanto olham pornografia muito mais forte na internet do que mera troca de casais e estão, na verdade, extremamente incomodados em saber que, mesmo que este jogo fosse tão sexy quanto a propaganda sugere, vocês JAMAIS conseguiriam estar na situação demonstrada no vídeo. JAMAIS. Mesmo que as mulheres e homens do trailer fossem pessoas “comuns” e não modelos de passarela, vocês SABEM que elas não te convidariam. E é por isso que estão incomodados.

E como sempre acontece quando o puritanismo e a hipocrisia se encontram, os responsáveis tentam encontrar uma desculpa politicamente correta para esconder suas verdadeiras motivações. O sujeito mencionado aí em cima veio com um papo pseudo-engajado para tentar impressionar mulheres, mas não consegue disfarçar o ponto de vista tipicamente passivo-agressivo de nerds socialmente ineptos que tentam desesperadamente ser o Cara Bonzinho. Para quem não lê inglês, eis um trecho do artigo que acabei de linkar e que resume bem o que estou dizendo:

O que há de errado com os Caras Legais? O maior problema é que os Caras Legais™ são terrivelmente inseguros. Eles ficam tão ansiosos para serem queridos e amados que fazem coisas para outras pessoas apenas para ganhar aceitação e atenção, em vez de fazê-las pelo simples prazer de compartilhar. Você nunca sabe se um Cara Legal realmente gosta de você pelo que você é ou se ele se agarrou por desespero, graças ao mínimo de atenção que você lhe deu.

(…) Percebam isso, pessoal: INSEGURANÇA NÃO É SEXY. É BROCHANTE.

E é exatamente isso que o trailer de We Dare está fazendo com vocês, gamers, jornalistas, desenvolvedores e o escambau que perderam seu tempo no Twitter com qualquer coisa que não fosse dar risada: o trailer lembra, de forma escancarada, o quanto vocês são inseguros, criados à base de contos de cavaleiros brancos – ou melhor, encanadores italianos – que salvam a princesa… E que não beijam ninguém no final. Sinto muito, mas vocês sabem que é verdade. Ainda dá tempo de admitir e mudar. Não que eu aposte muito nisso, mas já fiz a minha parte. O resto é com vocês.

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