Tilt: Videogame, coisa de menino – Parte 1: Bayonetta e o papel da imprensa

Tilt é uma seção recorrente deste blog onde matuto um pouco sobre as tendências atuais que mais me incomodam no mundo dos games, como certos mitos de design que se perpetuam desnecessariamente. Se um determinado jogo adotou um recurso só porque está na moda, é aqui que irei comentar – ou melhor dizendo, reclamar.

Quem me acompanha pelo Twitter já sabe que esses dias resolvi baixar a demo de Bayonetta e que, após terminá-la, corri para adquirir o jogo sem pensar duas vezes – uma bela mudança de atitude para quem tinha declarado não ter interesse no jogo exatamente por causa da protagonista. Após testar o jogo e pirar na qualidade dele, não tive como deixar de maturar novamente sobre o assunto do machismo/elitismo em games, tanto na indústria quanto entre o público alvo.

Bayonetta Borboleta
Poucas borboletas são tão letais

Tudo começou com uma pergunta que não parava de fazer a mim mesmo enquanto jogava: será que Bayonetta, a personagem, é realmente uma epítome do problema? Sim, as formas da moça são ostensivamente exploradas no game… Mas a tal nível de cara-de-pau que tudo acaba ficando caricato demais para ser levado a sério. Além disso, há uma camada de feminilidade tão over e caricata quanto a sensualidade da personagem: Bayonetta anda como se estivesse em uma passarela, sangra pétalas de flores, exibe asas de borboleta durante o pulo duplo e deixa um rastro de flores quando volta ao chão. Tudo isso enquanto distribui golpes chave-de-buceta (entre milhares de golpes “comuns”) e manda beijinhos sarcásticos para inimigos derrotados.

De qualquer forma, não podemos esquecer que a Bayonetta continua sendo uma (relativamente) rara protagonista feminina em um gênero cheio de marmanjos bombados – ou seja, com bastante potencial para afastar N jogadores para cada nerd babão que pega o jogo só por causa das curvas dela. Se você duvida que ainda existam gamers que se sentem emasculados por jogar com uma protagonista feminina, só tenho uma coisa a lhe dizer: santa ingenuidade, Batman!

Bayonetta (PS3/X360)
Sim, ela tem um rosto (em uma cabeça desproporcionalmente pequena, mas tem)

A verdade é que o problema todo é muito mais complexo (e sério) do que um simples caso ostensivo de fan service, principalmente quando a personagem é bem mais apropriada ao universo desenvolvido para o game do que muitos outros casos semelhantes (Bayonetta é uma bruxa em conflito com forças celestiais de um universo mágico-surrealista; faz todo sentido que ela seja sensual, provocadora e escrachada). O problema da segregação/estereotipação das garotas gamers e dos jogos feitos “para elas” ou “para meninos” abrange fatos e situações muito piores e envolve todas as partes do processo, sejam elas estúdios, produtoras, imprensa e jogadores (de ambos os gêneros). E acho que podemos começar a esmiuçar esse problema a partir do pilar que tem a maior obrigação de escapar dele: a imprensa.

O quarto poder em mãos calejadas… de tanto cinco contra um

Aí vêm os jornalistinhas de segunda categoria e já começam a chorar: “peraí, como assim a imprensa primeiro? E os estúdios e produtoras? São eles que fazem e marqueteiam os jogos, pô”! Sim, verdade – e eles estão fazendo exatamente o que o mercado consumidor atual espera e compra. Se os consumidores só compram jogos com machos bombados destruindo coisas, as empresas não têm obrigação nenhuma de fazer algo diferente, tomar prejuízo e serem engolidas pelo próximo Call of Duty ou God of War. Em outras palavras, se o público está anestesiado em relação aos tipos de jogos feitos e, com isso, passou a aceitar estereotipações das mais diversas, cabe a quem analisar a situação e apontar alternativas? À imprensa, claro. Não gostou, toma leite e vai preencher planilha de Excel em um escritório qualquer, porra.

Jornalista de games
E ele nem está fazendo a resenha de Donkey Kong

Infelizmente a imprensa, em sua grande maioria, é formada pelos mesmos gamers punheteiros e está preocupada demais em babar em cima da mulherada digital, exatamente como seus leitores. Há exceções, claro, e a coisa hoje é melhor do que era há anos atrás… Mas alguns vícios ainda persistem. E em alguns casos, só vieram à tona recentemente. O Brasil abriga um caso claro disso.

Hoje em dia, por exemplo, temos uma revista brasileira que publica todo mês um pôster com uma gostosa (ou quase isso) vestindo roupas mínimas. E elas estão lá porque são jogadoras de Playstation? Claaaro… Tanto quanto as booth babes dos eventos de videogame. (Aliás, falando nisso… Que engraçado, não vejo atendentes com roupas sumárias e apertadas em feiras de livros, mostras de cinema… Porque será?). E se você acha que parou aí, a mesma revista mantém uma coluna especial de uma “garota gamer” que, basicamente, só responde pergunta de macho babão em uma única página. O que ela contribui para a revista além disso? Nada vezes nada. Resenha? Matéria? O que é isso? Pelo menos há outras redatoras escrevendo, certo? CERTO? Ahhh… Não. Ninguém. Só barbado.

(Estereótipo de) game girl
É assim que girl gamers são vistas

Não que os veículos sejam obrigados a contratar mulheres, mas este caso mostra muito bem como elas são vistas no meio gamer em geral: ou elas são gostosas e não jogam, ou jogam e são gordas, feias ou piranhas. As (supostas) exceções viram uma curiosidade bizarra, quase como ver um cachorro tocando piano (um cookie pra quem sacar a referência). Nesse ponto, a nossa imprensa está anos-luz atrás da gringa: praticamente todos os grandes portais de videogames americanos e europeus têm mulheres nas redações fazendo exatamente o mesmo tipo de texto que os homens, e às vezes até em cargo de editoria. (A porcentagem, aliás, é bem maior do que a de mulheres nos estúdios desenvolvedores – mas isso é assunto para outra parte desta série). Por outro lado, talvez exatamente por ser composta praticamente só de homens, a nossa imprensa local está, em grande parte, livre de outra faceta do problema: o feminismo extremado.

Serviço porco não tem gênero

Estas jornalistas “engajadas” até percebem o tamanho do problema… Porém, como burrice não é exclusividade de gênero, conseguem mirar suas metralhadoras nos alvos mais improváveis – e no próprio pé, às vezes. Parte disso já comentei aqui em relação a Metroid: Other M, o primeiro jogo da série que tentou transformar Samus em uma personagem de verdade… E por isso tomou porrada até dizer chega de algumas jornalistas pseudo-feministas (e homens tentando desesperadamente conseguir credibilidade), em proporção muito maior do que as falhas de roteiro e caracterização mereciam.

Bayonetta foi outro destes alvos. Os trailers e material promocional do jogo não ajudaram, claro, enfatizando as cenas de cunho sexualizado e o fato de que a roupa dela é feita do próprio cabelo, também usado em golpes especiais (logo, quanto mais fantástico o golpe, menos vestida ela aparece). Isso gerou as mais diversas reações de início… E depois, com o jogo lançado, as resenhas começaram a vir, muitas delas extremamente elogiosas – o que levou a média do jogo no Metacritic a cerca de 90 e credenciou-o como um dos grandes jogos de 2010.

E alguma dessas resenhas mencionava a questão da sexualidade exacerbada de Bayonetta? Quase nunca.

A situação ficou bizarra. Até hoje, ao navegar os portais de games mais famosos e buscar por opiniões sobre o jogo, você praticamente só topará com duas situações básicas: colunas (quase sempre escritas por mulheres) vendo sexismo a torto e a direito, e resenhas (quase sempre escritas por homens) ignorando solenemente qualquer coisa que não fosse a ótima jogabilidade. Entre os dois extremos de ignorância solene – um que ignora o jogo em si para levantar bandeira, e outro que ignora qualquer tipo de contexto em jogos – os leitores ficaram, no geral, na mão.

Graças aos céus, há exceções que apontam o que deveria ser óbvio para qualquer um que efetivamente jogar Bayonetta: além de ser ótimo enquanto jogo, ele também é uma ode à feminilidade, tão ostensiva quanto a sensualidade da protagonista. De fato, existe uma longa tradição de ícones que simbolizaram o poder feminino em forma de sensualidade: Marilyn Monroe, Barbarella, A Noiva (Kill Bill) e… Lara Croft.

Ícones femininos e a preguiça de pensar
Garota gamer que chuta a sua bunda
Nada é mais atraente para um homem (maduro, pelo menos) do que uma mulher que consegue vencê-lo

Mencionar Lara não é apenas uma questão de trazer o assunto de volta para videogames. Ela é sempre lembrada como uma personagem que supostamente fez um jogo vender horrores só por suas curvas, embora muita gente tenha esquecido que ela não foi a primeira nem a última tentativa de modelar uma gostosa em videogames – ela foi, sim, uma das poucas que deu certo em termos comerciais. E por que isso aconteceu? Porque ela não era gostosa; era uma acadêmica rica e bem-sucedida que não perdia a chance de dar uma alfinetada em homens idiotas. Ou seja, um modelo para as meninas tanto quanto objeto de desejo para os meninos. Isso sem contar que o jogo em si tinha apelo (sim, isso ainda importa!).

E se você não jogou Bayonetta, saiba que nossa bruxa é uma versão amplificada (e no talo) de Lara. Chega ao ponto de praticamente todos os homens no jogo serem idiotas toda vida, e o jogo quase parece uma espécie de machismo/sexismo ao contrário. De qualquer forma, Bayonetta pega o template de Lara e aplica à protagonista uma dose cavalar de algo que é pouco conhecido na grande mídia (e muito menos na de videogames) para criar uma espécie de meta-sátira da indústria: o feminismo sexualmente liberal, em que as mulheres buscam ter o controle de sua própria sexualidade em vez de renegá-la.

Mas querer que a imprensa gamer tenha alguma noção de que há diversas correntes de feminismo? É pedir demais para um setor do jornalismo que nem mesmo tem a pachorra de fazer o básico da profissão, como checar fatos antes de publicá-los.

Brindes para a imprensa
Com certeza não faltam camisetas no guarda-roupa de um jornalista de games

Deixa eu contar um pseudo-segredo: na maioria dos casos, os jornalistas de games são pessoas que estão lá por amarem jogos – não necessariamente a profissão jornalística – ou são jornalistas que não pensavam em trabalhar com games em especial, mas acabaram neste setor por falta de cacife suficiente para cobrir outros eventos culturais. Nenhum deles tem motivo para pesquisar mais profundamente sobre algo ou entrevistar especialistas em qualquer coisa que não seja games. Eles jamais vão procurar sarna para se coçar. O que eles querem é continuar ganhando jogos de graça para resenhar, ter a chance de tirar fotos com seus designers prediletos, comparecer a eventos fechados para bater palmas e jogar o novo console antes de todo mundo. E, em casos raros, beber de graça.

Ou seja, ninguém vai iniciar um debate sobre o design de Bayonetta, a personagem, e se indispor com os seus leitores punheteiros e/ou os estúdios que enchem os cofres com a situação. Só os idealistas em busca de uma bandeira irão fazê-lo – e é daí que vêm os casos de chororô politicamente correto, que por sua vez levam à idéia absurda de que personagens femininas têm que ser versões com seios do Master Chief ou do Marcus Fenix, personagens sem a menor profundidade e que só servem como invólucro para a fantasia de poder do jogador. OK, nós também queremos games como um veículo para a fantasia de poder… Mas não só isso, e principalmente não a ponto de alienar as meninas jogadoras.

O Distúrbio Alimentar de Miss Pac-ManParte de todo este discurso tem a ver, e muito, com como os estúdios tratam aspectos dos games como a narrativa e a caracterização dos personagens. Na próxima parte, vamos voltar no tempo e checar as pérolas de raciocínio dos primeiros desenvolvedores de games, como o famoso jogo sobre comer que foi feito para atrair meninas (gulosas, aparentemente) aos fliperamas e o caso do engenheiro de software que acreditava fazer “jogos-esperma”. Isso em que época? Acredite se quiser: final dos anos 70. É, não é de hoje.

20 comentários sobre “Tilt: Videogame, coisa de menino – Parte 1: Bayonetta e o papel da imprensa

  1. Fala Fabio!

    Com relação ao Bayonetta, não vou para o 8 nem para o 80. Não entendo como alguém pode criticar negativamente de modo sério este jogo. Pra mim é quase como que criticar House of the Dead: Overkill por não levar a sério os zumbis e ter uma história ridícula…se é que entende essa analogia esdruxula. Como tu mesmo comentou, Bayonetta é por demais caricato para ser levado muito a sério ou como uma afronta a qualquer coisa que seja. E acho certo quando você menciona que ele pode ser considerado como uma ode a feminilidade. Meu contato com o jogo foi pouco, apenas alguns momentos iniciais no Xbox 360 de um amigo, por isso estou dando uma de pedante, mas no meu ver ele tenta trazer uma proposta “avacalhada” como uma pura diversão e ao mesmo tempo uma crítica aos personagens exageradamente masculinizados como o caso do nosso amigo de tanga, Kratos.

    Pegando o ponto da mulher no lado de fora, concordo, realmente a coisa é uma vergonha. A cultura gamer está tão intrincada com o homem, que muitas meninas gamers por vezes sentem vergonha em admitir que são jogadoras. Além de todos os fatores citados no artigo com relação à imprensa e nerds tarados e babões que causam vergonha, principalmente em terras tupiniquins.

    Discordo um pouco quando foi mencionado o Metroid: Other M, pois minha epopeia com esse jogo nunca terá fim uhauhauha. Mas isso é assunto pro post específico, logo chego lá.

    Uma personagem que acho muito interessante e que seria legal o comentário do artigo é a Faith, protagonista de Mirror’s Edge. Na minha opinião, é uma personagem que passa muito do que deveriam ser as personagens do mundo feminino nos games. Falando por alto, ela não possui fragilidade, nem sensualidade excessivas, ao mesmo tempo que não é masculinizada ao ponto de perder suas características femininas. É nada mais, nada menos que uma mulher “normal”. Normal diga-se dentro de sua história de vida e da narrativa do jogo é claro.

    No mais, parabéns pelo artigo, foi ácido e com aquela sensação que faz te imaginar esmurrando uma mesa em algum canto, como é de característica dos teus posts. =D

    Abraço

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    1. Cara, dá uma olhada nas resenhas de usuários para DeathSpank no GameSpot. Tem sujeito que criticou o jogo por ter muito grind e ser um RPG de ação com esmagamento de botões a la Diablo. Ou seja, não conte com a capacidade das pessoas de detectar ironia, sarcasmo, sátira ou qualquer coisa que não seja dita de forma direta e explícita. Se nego não percebeu que DeathSpank é uma sátira, é pedir muito que percebam que Bayonetta não é pra ser levado a sério.

      Sobre as meninas gamers, isso era assunto para quando a série de artigos chegar ao público, mas vale adiantar agora: além da cultura gamer ser cheia de testosterona, há o fato de mulheres que não jogam olharem torto pras que jogam. Se bobear, isso é mais decisivo do que a recepção masculina.

      Sobre a Faith e personagens femininas equilibradas, há algumas, sim, claro. O ponto é que não se pode fechar o escopo de possíveis personagens femininas dentro de uma única fórmula sem estereotipar as mulheres. O que o pessoal não entende é que há espaço pras Faiths, pras Samus e pras Bayonettas, assim como na vida real há mulheres recatadas e espevitadas, pudicas e sensuais, mãezonas e childfree, independentes e conformadas, trabalhadoras e preguiçosas… Isto é, elas são pessoas de verdade antes de terem um gênero.

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  2. Keyboard Cat!
    Mande-me o cookie via Sedex. Até pensei em dizer que comer cookie é bom, mas me parecei inapropriado p/ o momento.

    Irei esperar até o fim da série p/ emitir meu parecer.

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    1. Para ser sincero, não sei nem o que é Keyboard Cat🙂

      Essa frase eu ouvi em um episódio da primeira temporada de Mad Men. Para quem não conhece, a série se passa nos anos 60 em Nova York e retrata a sociedade da época – o machismo e o racismo em especial – através de uma agência de publicidade na Madison Avenue. No episódio, uma das funcionárias (nenhuma delas publicitária; todas são secretárias e auxiliares) participa de um teste de batom e solta uma frase ótima para um slogan. Um dos publiciotários[*] que estava assistindo a cena depois comenta com os colegas que foi tão espantoso quanto ver um cachorro tocando piano.

      [*] Se não me engano, o personagem interpretado pelo mesmo ator que vai fazer o papel principal em L. A. Noire, próximo jogo da Rockstar.

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      1. Não seja por isso:
        http://en.wikipedia.org/wiki/Keyboard_Cat

        Neste link há alguns exemplos de como este meme interwébico é usado:
        http://knowyourmeme.com/memes/keyboard-cat

        No momento em que estava lendo, achei que fazia sentido, já que mulheres gamers geralmente são vistas como bizarras por outras. Como se uma mulher jogando fosse um “fail” sem tamanho.

        Mas e aí, Fabio, ainda pretende cumprir a promessa de irritar o maior número de gamers este ano? Vc pode até dizer que este texto deixaria muita gente com raiva, e deixaria mesmo, mas convenhamos que istas e imbecis em geral não são bons em captar e entender sarcasmo e irnonia. Sem contar que a grande maioria foge de textos com mais de 30 linhas.

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        1. Hauhauha isso que eu ia dizer. Imbecis e “istas” sabem ler?
          A maioria caça alguma pequena palavra ou frase aleatória no texto, para usar de fundamento em sua defesa ou como munição para escarnecer aquele que manifesta sua opinião de um jeito inteligente. Então….quem se importa com eles? xD

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          1. Ninguém. Mas seria bem engraçado vê-los dando chilique e usando argumentos estúpidos por aqui.😀

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  3. Não joguei, mas o que vi de Bayonetta me lembrou muitíssimo Elvira, a Rainha das Trevas. Um pin-up ambulante, totalmente “gótica-chic anos 80”, com hard rock e tudo, totalmente auto-depreciativo (humoristicamente). Era minha ídola na infância. Eu, uma pimpolha da classe “tomboy” com asco de Barbies e qualquer coisa rosa, queria ter um conversível com volante de corrente e fazer meus peitos dançarem quando crescesse.
    Mas ainda que minha mente infantil fosse incapaz de perceber a real sátira na personagem, eu não era indiferente ao tratamento desigual de heroínas em filmes. Odiava com afinco Indiana Jones, James Bond, Schwarzeneggers e afins com suas mulheres inúteis (que sempre se apaixanovam por eles, para minha eterna surpresa haha). Nos jogos de RPG, meus favoritos, eu prosseguia com uma história alternativa na cabeça onde a Maga Branca era na verdade “a escolhida” e o Cavaleiro Nobre era o apoio. E pensar que até hoje conta-se numa mão os tantos RPGs (não MMORPG) com protagonistas femininas.
    No fim das contas, é um detalhe cultural, pervasivo em qualquer mídia, em maior ou menor escala. Creio que em razão à idade dos games, e seu apenas recente boom como entretenimento, seja compreensível a situação.
    Filmes, por exemplo, já não tem essa desculpa. Queria saber por que ainda é “o cara bom” que derrota “o cara mau” (que tem muito mais chances de ser fêmea do que tem a “heroína” de uh… fazer alguma coisa heróica) em 80% (estatística puramente pessoal) dos casos? Tento pensar num blockbuster recente (fora Kill Bill) que não terminasse no velho “homem traz o bacon” de algum modo e estanco. X-Men? É muito “grupal” =P. Ah well, minha memória sempre me falha, mas creio que seja raro.

    Nesse ambiente por algum motivo ainda hostil às mulheres (e homens que não sejam, no fundo, garotinhos hormonais), personagens como Bayonetta são de fato bem vindos. Diz a lenda que foi o humor que mais feriu a KKK, levando-a a ruína pública, não? Sátira é sinal que há vida inteligente reconhecendo um problema teimoso. Amém.

    Não me importo se os seios da heroína gostem de ar livre. O jogo deve ser bom no que se propõe. Não PRECISA a moça ser peituda e lindíssima. Não precisa o herói ser bombado e hardcore. Precisa o jogo ser bom e a história dar certo pros personagens, hello Half Life.
    E não PRECISA ser A heroínA, mas poxa, podia ser mais vezes, nénão? Dêem uma folga pros caras =P

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  4. “Ícones femininos e a preguiça de pensar”

    Só essa chamada resume bem o que acho ser o maior problema não só dos gamers, mas dos maus jornalistas e do brasileiro em geral: Tudo tem que ser dado de bandeja, mastigado, o menor caminho é melhor caminho. Nem bem começamos algo e já permitimos aos preconceitos tomarem conta da nossa opinião. Ao invés de dar tempo para julgar se o game é bom, com uma boa protagonista, jogabilidade e história é mais fácil enxergar imediatamente mais um jogo com uma personagem mulher. Se é bom ou não vamos discutir depois, mas agora o importante é saber que ela tira a roupa pra atacar.

    E aí, infelizmente, vem os caras que tem que escrever um texto e garantir que ele venda também. Pra isso o mais fácil é mudar o texto um pouquinho, mexer aqui e ali, até que o pouco se torna muito e o raciocínio do profissional se perde e torna-se gamer demais pra vender junto a maioria. Não vejo problema no cara amar jogos, o erro está em não saber quando apertar o interruptor que desliga o player e deixar que só o profissional faça o trabalho.

    E caralho,
    Acho que em 20 e tantos anos de vida, lí pouquíssimos artigos sobre videogames que expressavam suas opiniões de uma forma tão clara e bem estruturada. Parabéns pelo texto.

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  5. Concordo contigo em partes. Acho que realmente estão saindo poucos jogos Bayonetas à venda. São os menos comprados, talvez, pelo excesso mesmo de feminilidade no game. Concordo que mulher em game, só se for pra homem se aproveitar (vide Kratos), ou para ser segunda pessoa depois do machão. Mas eu concordo também que a indústria está se curvando aos pocos ao público feminino. A Square Enix é a pricipal delas! Não dá pra jogar FFXIII sem a Lighting e os personagens masculinos são o atrativo que qualquer olho feminino! Na minha opinião, temos que ter visão das coisas.Por exemplo: Enquanto um camarada joga com um player bonito, por querer ser ele, a garota, joga com esse mesmo player, por que queria possuir esse player! Eu jogava Castlevania cod, pra olhar a “cauda” do Hector, ou resident evil, só pra contemplar a cintura e o rosto do Leon ou Chris.. beijo, gente! .

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    1. Bom, eu não sei se discordamos tanto assim então. Talvez por não ter seguido na série de artigos, não tenha ficado claro o seguinte: quando eu digo que a indústria ainda tem problemas para lidar com mulheres, não é só em relação às mulheres *virtuais* ou mesmo às gamers, e sim o fato dos estúdios e publishers ainda serem um clube do bolinha. Outro dia vi uma estimativa de que o número de mulheres trabalhando em desenvolvimento de jogos não chega a 5%, e ainda assim, era preciso levar em conta que as maiores porcentagens estavam nos estúdios de jogos para celulares e Facebook – ou seja, a presença delas é ainda menor nos jogos AAA pra console e PC. E enquanto isso não mudar, os jogos feitos vão assimilar o público feminino apenas até certo ponto, ou em representações maniqueístas dos gostos delas (jogos de simulação, de “trocar roupinha”, dating sims e afins).

      Note que eu não sou a favor de cotas nem nada. Pra mim isso é uma questão sociológica. Provavelmente há poucas mulheres no ramo porque ainda existe alguma tendência social a não esperar que mulheres estudem coisas como engenharia, TI ou ciência da computação, e como essas áreas são as que suprem os profissionais de games, o mercado está apenas refletindo os preconceitos sociais arraigados em níveis mais fundamentais – inclusive das próprias mulheres: tenho certeza de que você, e outras meninas gamers, têm ou tiveram amigas que consideram essas áreas “coisa de menino”.

      Isso dito, também achei interessante você comentar que joga prestando atenção nos personagens masculinos dessa maneira. É por isso que tenho certa dificuldade em levar a sério quando jornalistas *masculinos* sugerem que um game como Bayonetta seja “apelativo” e a personagem tenha sido feita só para os homens babarem – como se não fosse normal uma mulher gamer prestar atenção em um protagonista forte e sem camisa, por exemplo. Mais uma vez, é reflexo da sociedade: é cool ver sexismo e exploração sexual em toda parte quando se trata de mulher, quando a verdade é que tanto homens quanto mulheres gostam de pessoas atraentes do sexo oposto (ou do mesmo, se for o caso), e portanto vê-los em representações ficcionais é compreensível e agradável (só não precisa babar – tenho certeza de que vc não seguiria jogando RE e Castlevania só pelo Leon e pelo Hector se os jogos não fossem bons também).

      Uma coisa é Samus de colant e Leon em RE, outra coisa é Mulher Melancia, mas o pessoal trata como se fosse o mesmo grau de exposição. E é especialmente preocupante quando um homem vem com esse papo para “proteger as mulheres” – no fundo, o que ele está fazendo é sublimar a sexualidade delas, é o clássico medo masculino Rodriguiano de que a mulher possa gostar de sexo tanto ou mais do que ele, e não poder “ser controlada”. Daí Bayonetta e Samus “versão Other M” viram apelativas e “submissas”. Desconfio, e muito, do caráter de quem vem com esse papinho.

      Ufa, /rant over

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  6. Nossa, Você disse tudo! Obrigada por comentar o que escrevi, fiquei muito feliz! Verdade mesmo!!! Ainda estamos na fase “clube do bolinha”, mesmo a pesar, de gamers femininas estarem “aparecendo” por aí. Seria ótimo que houvesse um equilíbrio nessa seção, porém, creio eu que infelizmente o game para meninas, poderá ser como futebol para os meninos: minúscula porcentagem de moças aprecia e nem com o tempo os gostos parecem modificarem-se. E como em suas palavras comentou é realmente um aspecto montado na sociedade. Eu por exemplo, sou gamer e ser uma gamer foi um dos maiores motivos de eu não ter amigas. Mulher, não compra game, não joga game e tampouco comenta a não ser que o namorado dela esteje comentando com você e ela queira ficar dentro do papo. E exatamente como comentou, entendi que você declarou que não é só Bayonetta, mas “um todo” de exposições. Eu por exemplo, sempre gostei da Lara Croft e joguei até salvar todos os tomb riders!! Meus amigos comentaram esse jogo ser “feminista”. Não achei. É só uma mulher, atirando e fazendo o que homem faz! Não há feminismo, tampouco machismo em um player que você escolhe ser mulher ou homem, mas na complexidade de informações sublimares que como você disse, passam. Eu por exemplo, não morri de amores por God Of War, simplesmente, pelo excesso de apelação. Mulher lá é tudo objeto nú ou semi-nú, pra ser usado e descartado e não importa o descarte. Destruídas, dilaceradas, tanto faz! E sabe porque o apelo? Por causa que infelizmente, gamer feminina é vista como garota sem cérebro que tenta entrar no mundo dos gamers homens, mas não consegue em vista do nosso conhecido “clube do bolinha”. Gente! Apelem! Mas não exagerem, poxa! Se importa se eu passar meu endereço de home? Sei que você saca muito, mas de repente, sei lá, se houver um tempinho, me cederia essa honra, moço? Um grande abraço e muito sucesso nesse blog que já é um sucesso! Abração! http://www.animegameanalysis.atspace.com

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