Sim, o NGP pode dar certo

NGP (New Generation Portable), sucessor do PSPImagino que todos os leitores já estejam cientes do anúncio do PSP2, ou NGP (New Generation Portable), e tenham gasto o verbo em discussões reais ou virtuais sobre os detalhes do aparelho – e suas chances contra o Nintendo 3DS em especial. Não sei se é impressão minha, mas ao que parece, muita gente está duvidando da viabilidade do aparelho, o que me deixou um pouco espantado. Ao ler as notícias, pensei exatamente o contrário: não apenas os principais problemas do PSP parecem ter sido resolvidos, como ele introduz algumas possibilidades inéditas para um portátil da Sony.

Para quem ainda não checou as especificações, aí vai um resumão. O NGP é um pouco mais fino que o PSP original; trocou o disco por uma alavanca analógica e introduziu uma segunda alavanca; tem giroscópio/acelerômetro, assim como o controle Sixaxis; tem tela de toque OLED de 5 polegadas (um pouco maior que a do PSP) com resolução de imagem muito próxima à dos consoles HD; traz dois touchpads na parte de trás do aparelho; usa cartões de memória em vez de mídia UMD; suporta wi-fi e Bluetooth (e 3G em modelos mais caros); e, por fim, tem um GPS. Além disso, o aparelho foi demonstrado com títulos inéditos em portáteis, como Little Deviants e Uncharted, e ports diretos de jogos para Playstation 3 (!!!) como Metal Gear Solid 4 e Lost Planet 2.

Ainda assim, a opinião geral era de que a Sony estaria cometendo o mesmo erro do lançamento do PSP – insistir em um portátil que, segundo os detratores, é apenas uma versão reduzida do seu console principal. Não vejo o NGP dessa maneira, e acredito que ele irá aumentar a fatia de mercado da Sony no campo dos portáteis – tanto por seus próprios méritos, quanto por alguns vacilos da Nintendo com o 3DS que podem se perpetuar ao longo do ano. O embate entre NGP e 3DS pode parecer-se superficialmente com o do PSP com o DS, mas a verdade é que os aparelhos, o público e as circunstâncias de hoje, cerca de cinco anos depois, são bem diferentes; não dá para analisar as chances do NGP com base no cenário da era anterior.

Os aparelhos

It's broken!O primeiro mito é que o NGP seria apenas uma versão portátil do PS3, assim como o PSP seria uma versão portátil do PS2. Já disputo logo de cara a comparação do PSP mesmo: o maior problema do portátil de estréia da Sony era exatamente não oferecer uma experiência equivalente ao Playstation 2, em diversos níveis. A falta de uma segunda alavanca analógica inviabilizava certos tipos de jogos e simplificava outros, por exemplo, e demorou anos até que os jogos chegassem ao mesmo nível gráfico e quantidade de conteúdo de um game de PS2. Todo mundo aponta que o motivo do sucesso do DS foi oferecer uma experiência única, o que é a mais pura verdade… Mas isso não quer dizer que inexista um público forte para experiências mais tradicionais em versão portátil – é só que nenhum aparelho as oferecia para valer.

O NGP certamente corrige muitas, senão todas, as falhas do PSP nessa frente. Além das duas alavancas, o poder de processamento (o chip é quadcore!) permite ports diretos do Playstation 3 (eu disse 3), o que significa que as desenvolvedoras conseguirão lançar jogos para o portátil de maneira bem mais rápida e simples. Enquanto o PSP ficou sem blockbusters como Call of Duty, o NGP deve recebê-los de maneira simultânea com as versões para consoles domésticos, sem perda de qualidade visual ou jogabilidade. Com a provável chegada do serviço de save remoto ao PS3, é bem provável que certos jogos permitam continuar jogando no NGP do ponto em que você parou no PS3 e vice-versa.

Tela de toque do NGPAo mesmo tempo, o portátil tem recursos demais para ser considerado apenas um PS3 em miniatura. O PS3 não tem tela de toque, 3G, GPS ou câmera portátil embutida. E o Sixaxis, por ser “apenas” um controle sem tela, não pode ser usado exatamente da mesma maneira que o NGP permite. Confiram o vídeo abaixo, que apresenta diversos jogos do portátil, para terem uma ideia de como o acelerômetro e os touchpads traseiros poderão ser usados – especialmente na incorporação de realidade aumentada.

É claro que o NGP não se distancia tanto do PS3 quanto o 3DS (ou mesmo o DS) se distancia do Wii… Mas há coisas novas o suficiente para que as produtoras possam brincar e oferecer títulos únicos ao NGP, também. Isso sem contar que, com a tela de toque, portar jogos lançados para DS se torna mais viável; vários deles não usam a tela de cima para nada além de informações que possam ser exibidas em um GUI ou menu, como é o caso de, digamos, Scribblenauts.

O público

Sim, o DS mostrou que a maior parte do público queria uma experiência nova e única em um portátil. O problema é que o 3DS, até prova em contrário, oferece a mesma experiência do DS com visuais 3D e recursos online aprimorados. Ainda não tivemos a chance de jogar games que utilizem o espaço 3D para bagunçar as premissas de jogabilidade já estabelecidas pelo DS; com isso, uma parcela do público do DS não deve migrar agora para o 3DS, ainda mais considerando o preço inicial. Além disso, com o anúncio do NGP, quem não tinha o DS e estava pensando em adquirir o 3DS mais pelo poder gráfico dele agora tem uma opção com processamento ainda mais poderoso. Na outra direção do espectro, com certeza há uma parcela de usuários que entraram no mundo dos games com o DS e que depois adquiriram um ou mais consoles HD desta geração – e podem acabar enxergando o NGP como algo diferente do DS, ou seja, por oferecer uma experiência portátil nova para eles.

Marcus Rivers, garoto-propaganda do PSPPosto de outra maneira, desta vez os dois portáteis não estão desbravando público, e sim disputando o público já existente, em grande parte. Não vou me espantar se o DS ainda perdurar como o portátil mais vendido em 2011 e 2012, por exemplo. É uma questão lógica: o 3D enquanto recurso de jogo ainda é uma incógnita, e o 3DS não é um portátil barato, ao contrário do seu antecessor. A não ser que a Sony distribua o NGP a um preço muito acima do 3DS (e, por extensão, do PSP), a concorrência agora será diferente, com camadas variadas de público e situações mais complexas.

As circunstâncias

O PSP sofreu no início com o mesmo problema do PS3, e demorou bem mais para sair do buraco: a falta de apoio irrestrito das produtoras terceiras a um aparelho caro e complicado de entender. Enquanto o console doméstico era sofisticado demais e faltava suporte ao desenvolvimento alheio, o portátil sofria com o esquema de controle parece-mas-não-é-um-console-tradicional e com outros detalhes menores, como a mídia exclusiva UMD. Mesmo a própria Sony demorou anos para levar ao PSP algumas de suas franquias famosas de sucesso, como Killzone, Resistance e Metal Gear Solid, por exemplo. Além disso, o PSP não dava espaço para inovação formal em jogabilidade, o que sempre desanima os desenvolvedores mais criativos.

Uncharted para NGPCom o NGP deve ser diferente, considerando o que foi apresentado até agora. As Activisions da vida podem “portar” seus blockbusters agora. Certos jogos poderão ser feitos de uma vez só tanto para o PS3 quanto para o NGP – não uma versão para cada um, mas exatamente a mesma versão rodando nos dois aparelhos. As produtoras especializadas em jogos de DS e celulares podem ganhar mais uma plataforma de distribuição com uma curva mínima de aprendizado. E por fim, a própria Sony já saiu demonstrando um Uncharted portátil, que pode acabar sendo lançado em um período muito próximo a Uncharted 3, ao contrário do que acontecia com o PSP até pouco tempo atrás. O mesmo vale para os novos Killzone e Resistance.

Outra circunstância importante é a posição do portátil em relação à geração vigente de consoles. O PSP, além de não ser exatamente a versão portátil do PS2 prometida, foi acompanhado pelo PS3 pouco tempo depois. Bem ou mal, em um ano o PSP foi de promessa de portátil “com cara de geração atual” para uma realidade em que mal conseguia emular o visual da geração passada. O NGP, por sua vez, deve se manter no mercado por pelo menos três anos oferecendo a mesma qualidade visual de um console doméstico de última geração, e com o mesmíssimo esquema de controle do PS3. Ou seja, vai ter muito mais chance de impressionar o gamer mais tradicionalista.

Unreal Engine no NGPO que eu quero dizer é que, entre oferecer uma experiência única ou apenas emular os consoles domésticos, o PSP não ofereceria totalmente nem uma coisa nem outra. Enquanto isso, o NGP já vem prontinho para fazer pelo menos uma delas: agradar plenamente àqueles que não querem nada mais do que a mesma experiência que têm em casa com o PS3 ou X360. Qualquer coisa que o portátil conseguir realizar com seus recursos menos tradicionais, como tela de toque e GPS, já será lucro para a Sony em termos de fatia de mercado. Mesmo que ele recebesse apenas ports de jogos do DS, isso já faria alguns donos de DS tombarem para o NGP ao adotarem um novo portátil – quem não quer Uncharted, Super Scribblenauts e Angry Birds na mesma plataforma? Imagine como será, então, se as desenvolvedoras souberem aproveitar os recursos novos.

Tudo em aberto

Claro que tudo isso é teoria e posso dar com os burros n’água, mas se o NGP afundar, duvido que seja pelos mesmos motivos que limitaram o PSP a cerca de 25% do mercado (Japão à parte). Ainda precisamos saber coisas não reveladas, como preço final, duração de bateria, utilização de cartões de memória (serão proprietários da Sony?), trava de região e assim por diante. Falta também confirmação de recursos cruciais, como os saves remotos e planos de 3G. E ainda há alguns mistérios do 3DS, como a data de lançamento de diversos títulos – Ocarina of Time 3D já foi empurrado para depois da E3 – e o conteúdo exato da eShop, a loja online da Nintendo que deve vender jogos de Game Boy e otras cositas más ainda a serem reveladas.

Em outras palavras, não me cobrem depois; não estou dizendo que o NGP vai dar certo com certeza. O ponto principal, na verdade, é que não se deve praticar futurologia olhando demais para o passado; foi exatamente por fazer isso que  muita gente falhou em prever que o DS iria tomar o mercado de assalto há alguns anos atrás. Canetinha? Duas telas? Poder de processamento bem menor que a concorrência? Tudo isso não tinha precedente, e assim teve quem achasse que o PSP iria destruir o DS. O tempo mostrou que não era o caso. E embora o NGP não seja, nem de longe, uma revolução na maneira de jogar, o fato é que o 3DS também não é (até onde se sabe). Por isso, muito calma nessa hora, que ainda há muita briga pela frente.