Manual do Gamer Cool #3: Sem historinha

Na lição anterior deste Manual, o candidato a gamer cool “aprendeu” que só existem dois ou três jogos “originais” por geração (#not), e o resto é cópia (#NOT). Nesta lição, vamos aproveitar que um monte destas “cópias” apresentam narrativas completamente diferentes dos jogos “originais” e reiterar que isso “não importa” – afinal, história para quê? Game é game e filme é filme, certo manolo?

Lição #3: Quem quer historinha para nerd gordo dormir?

Ah cara, história para quê? Quem se importa? Todo mundo pula todas as cenas de corte e animações. O quê, você não? Ah, é só tu que assiste essas coisas. O quê? Todos os seus amigos também? Cara, vocês são estranhos. Aposto que jogam games de filmes…

Sprite do Prince of Persia
Na época isso foi uma revolução

Não sei a sua idade, mas independente de tê-los jogado ou não, já deve ter ouvido falar daqueles games antigos, da época das sprites e quadradinhos e pixels e… Nenhuma cena de corte. Sem músicas licenciadas (ou, no máximo, versões MIDI das mesmas). E sem roteiro – bastava uma premissa qualquer, especialmente se ela for tão simples quanto bancar o príncipe encantado e salvar a princesa.

Gamer cool que é gamer cool não pode deixar de idolatrar essa época, mesmo que não a tenha vivido. E uma das maneiras mais simples de demonstrar a sua idolatria é exibir um desprezo total e absoluto por qualquer coisa que foi introduzida nos games modernos pelos malvadosprodutoresatuaisquesópensamemdinheiroelucromano! (ufa, respira). Pegar pela música e pelas cenas de corte dá mais trabalho, já que, no fundo, as pessoas gostam de jogar com canções que já conhecem e de babar no realismo dos CGs da geração atual. Sobra o quê? A narrativa. Pau nela então!

Cena de Dragon Age
Para o gamer cool, nem esse tipo de cena de corte presta! *hmm boiola*

A tática é simples: tem diálogo com mais de 30 segundos? Pau no jogo. Há cenas de corte que mostrem qualquer coisa além de uma série de golpes e tiros em uma velocidade alucinante? É a droga da narrariva se intrometendo, então pau no jogo. Pior, você tem que entender o que está acontecendo para progredir? PAU NO JOGO. PAU NO JOGO. PAAAAU NO JOGO! PS.: Não se esqueça de citar como os jogos do Mario sempre batem na mesma tecla  (pouco importa se você realmente jogou alguma coisa com o personagem).

¢ΦΦ∫

Extended ultra hardcore mode replay

Tá achando pouco? Metal Gear Solid te incomoda mais do que a unha do Zé do Caixão arranhando o quadro-negro? Heavy Rain te irritou mais do que o Galvão Bueno na última Copa? Então, meu amigo, é hora de extravasar do jeito que só o gamerhardcorenaveiamano consegue!

Snake Gump, o Contador de Histórias
Snake Gump, o Contador de Histórias
  • Dê logo uma voadora com os dois pés e misture premissa com narrativa. Tirando um ou outro clássico, como o já citado Mario, jogos não deveriam nem se preocupar em explicar nada – o que importa é sair saltando, atirando e atacando. Até o primeiro Ninja Gaiden poderia ter ficado sem aquelas cenas estúpidas do início e do final; se o próprio jogador não se motivar sozinho com um ninjaassassinomuitolôcomano!, é problema dele.
  • Nunca se esqueça de tratar o todo pela parte. Metal Gear Solid não é uma exceção, é a regra. Se uma cena de corte passou de 15 segundos, tanto faz se ela tem um minuto ou 20; é a mesma coisa. E, claro, a culpa é do Kojima!
  • Por fim, sempre que topar com um jogo que não foi traduzido para o português e/ou não tem legenda, culpe a mera existência da narrativa. Afinal, como jogador, que catzo você tem a ver com o fato da produtora ter ou não uma equipe de localização pro português, né? E daí se aquele jogo não vai vender mais do que mil cópias aqui, e por isso não foi traduzido? Tira a história então, caramba!!!

¢ΦΦ∫

Psss, não diga isso em voz alta!
Naughty Bear
Explicar pra quê? O que importa é que é MUITOLÔCOMANU

Cara, não interessa que existam públicos e públicos, gêneros e gêneros, conceitos e conceitos. Se tu quer ser um gamer cool, entenda que o mercado de jogos é uma situação de soma zero: cada jogo feito com uma narrativa “rouba” dos “verdadeiros jogadores” (*cof*) outro jogo que poderia ter sido feito sem essa tranqueira atrapalhando. Além disso, cada jogo que consegue ser bem-sucedido sem ter uma narrativa “prova” que ela é “desnecessária”, mano – pouco importa se o conceito do jogo pede uma ou não.

Ah, e cada jogo com narrativa ruim “prova” que temos que jogar o bebê fora junto com a água da bacia. O quê? Se eu queria que os jogos não tivessem nenhum efeito sonoro porque alguns têm som ruim? Pára com isso mano, não é a mesma coisa. História é história, caramba, é uma parada que tá lá só para eu não entender, tá ligado? Não me venha com essa de que é só mais um elemento de design que pode ser mal planejado/executado como qualquer outro! Também pouco importa que nenhuma forma de entretenimento ou arte – da literatura à pintura, da escultura à dança – seja uma ilha; game é game, certo? Não tô nem aí se eles têm potencial para qualquer coisa, o que importa éjogáatéusdeducaímano! Cada um no seu pixel quadradinho!

¢ΦΦ∫

Na próxima lição… Desta vez não vou prometer nada porque sempre posso mudar de ideia e ter uma inspiração melhor, como nesta semana. Mas um leitor sugeriu, nos comentários da lição passada, algo muito interessante e que se encaixa com a lição de hoje… Então quem sabe?

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10 comentários em “Manual do Gamer Cool #3: Sem historinha

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  1. Cara, eu conheci seu blog quando tu colocou aquela “propaganda” [:p] lá no Girls of War falando do manual 2. Mas esse eu não gostei não. Assim, o 2 era sobre algo recorrente mas esse 3 é meio estranho pq poucas pessoas reclamam das histórias dos jogos, na verdade a maioria até gosta, sem contar q a minoria não faz um “barulho” tão grande quanto o das “cópias”. Espero q o 4 seja melhor 🙂

    PS: só uma pergunta, vc disse q o 3 ia ser sobre RPGs, pq mudou?

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    1. Bom, sei lá. Eu vejo isso direto de reclamarem de história, principalmente em portais de games. Questão de percepção.

      Aliás, o tema mudou exatamente porque teve um influxo disso, de reclamarem de história, em alguns sites que acompanho estes dias. Por isso, não vou mais prometer assunto pra coluna seguinte, não. Tenho uma lista de pautas aqui e vou escolhendo de acordo com o que me inspirar na hora… Assim sai mais natural. 😉

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    2. Concordo com o Fábio. Uma das reclamações que mais vejo por aí é sobre o jogo ter “muita história” ou “muito diálogo”.
      Mass Effect é um dos que mais recebe esse tipo de crítica. Reconheço que existe gosto p/ tudo mas quando vejo gente falando que Mass Effect tem “história e diálogo demais”, não consigo deixar de pensar que estes não passam de retardados mentais, daqueles que tomam sorvete pela testa.

      Ou pior: quando vc reclama que algum jogo poderia ter desenvolvido melhor a trama, como a série F.E.A.R. e Timeshift, que já são bons, mas seriam ótimos com uma história melhor trabalhada (esse negócio de um físico sem treinamento militar destruindo um exército inteiro em Timeshift foi difícil de engolir), os retardados se aglomeram p/ fazer o coro ridículo de “menos blablabla e mais powpowpow”, com argumentos igualmente estúpidos.

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      1. Bom, você foi bem mais… incisivo do que eu 🙂 Mas acho que está claro que a gente concorda.

        Até diria o seguinte. Quando vêm pra mim e dizem, *literalmente*, “menos falação e mais powpowpow”, eu ATÉ entendo. Tem jogo que eu pego exatamente pra isso, como MAG. A pessoa pode estar sendo simplória, mas está sendo honesta e declarando uma preferência

        O que me incomoda *mesmo*, e MUITO, é quando tentam justificar esse sentimento com argumentos supostamente sérios em um discurso anti-narrativa nos games EM GERAL. Pô, ainda não dá, porque no fundo é uma non-issue. Certos jogos foram feitos em função de uma narrativa (mesmo que porca) e outros com apenas uma premissa de cenário (mesmo que elaborada), e cada um tem seu público, ponto final.

        F.E.A.R. e Timeshift, quer esse povo queira quer não, foram jogos feitos a partir de uma *narrativa* – rasa que seja, mas ela existe. Quem não quer nenhuma narrativa, vai jogar MAG ou The Club, que só tem premissas para justificar o tiroteio e mais nada. SEMPRE há opções, até mesmo em jogos modernos e de tiro.

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  2. Totalmente off-topic:
    Fabio, que tal fazer um post ou uma série de posts que fale sobre as lojas das quais compra jogos e consoles e suas experiências com as mesmas?
    Todo player que quer jogar sem piratear precisa fazer uma verdadeira peregrinação interwebs afora buscando melhores preços (no Brasil e lá fora), formas de pagamento, prazos de entrega (isso quando entregam), referências de outros que compraram, atendimento e etc. Toda essa dificuldade atrapalha muito, e muitas vezes desestimula o jogador a comprar. Esse jogador, principalmente os que estão começando agora, pode acabar indo p/ pirataria ou, em raros casos, desistindo completamente de jogos.

    Como vc mesmo disse no outro post, precisamos falar e reagir quanto as práticas destas lojas, que parecem pensar que estão lidando apenas com pré-adolescentes ignorantes. Dando o devido crédito ou sabugada que merecem em função do que mencionei acima. Tenho certeza que esse tipo de referência ajudará muitos jogadores Brasil afora.

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    1. Olá Bruno,

      Sugestão anotada!
      Na verdade eu já pensei nisso e só não fiz ainda por dois motivos assumidamente mesquinhos:

      – Um dos meus consoles ainda é destravado.
      – Tenho medo do pessoal sair comprando em uma das lojas em especial e nunca mais conseguir comprar as barganhas lá 😄

      Estou sendo honesto aqui. Perceba que eu SEI que isso é bobagem. Por exemplo, se a tal loja vender mais, vai aumentar estoques, continuar mandando bem nos preços etc. A longo prazo todo mundo ganha.

      Então aguardem, que logo este post sai! 😀

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      1. OMFG! Vc tem console destravado?! Nunca mas entro nesse reduto de pirateiros malditos! A INDÚSTRIA DE GAMES ESTÁ MORRENDO E É TUDO CULPA SUA![/legalfag]

        Nah. Todo mundo tem pelo menos um pouco de sujeira nas mãos. Eu mesmo já crackeei alguns jogos de PC e estou pensando seriamente em adquirir um flashcard pro meu DSi XL, já que descobri recentemente que os portáteis da Nintendo não se resumem somente a Pokemon.

        Enfim, os que dizem que nunca piratearam ou são mentirosos ou burros demais p/ perceber que baixar múscas de graça também é pirataria.

        Agora, se os jogos comprados aqui tivessem preços que condizem com a realidade brasileira, de certeza iria preferir comprar um jogo original por mês ou a cada dois meses e estaria absolutamente satisfeito. E ter mais uma referência sobre lojas confiáveis, com preços mais razoáveis, boas formas de pagamento, que entregam na data certa e etc, já é de grande ajuda. Até pq imagino que vc também falará de lojas de fora, que tem preços ridiculamente baixos se comparados com os daqui.

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        1. Obrigado por entender o espírito. Na verdade, isso também é um assunto que sempre quis abordar no blog mas vem sendo protelado há tempos.

          Já adianto o básico do artigo, que seria o seguinte: comprar jogo a R$ 199 ou mais é tão danoso pro mercado nacional quanto comprar jogo pirata. Ambos mantém as coisas exatamente como estão.

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          1. Voltando ao assunto específico de lojas, preços acessíveis e facilidades de envio, já viu que a eStarland está dando uma atenção especial p/ brasileiros?

            Aqui o link:
            http://www.estarland.com/Brazil.html

            Veja em especial o serviço Per-Pack, que é de grande ajuda p/ evitar que o(s) produto(s) sejam taxados.

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  3. Porra, blablablá, onde é que eu pulo esse texto?!

    Hahahaha, muito bom. Já li os passos anteriores do gamer cool e tá ótimo. Uma coisa que eu vejo mais em relação à narrativa também diz respeito a como o jogador vai reagir a ela. Noto que minha namorada, por exemplo, não suporta CGs ou qualquer coisa que te TIRE do controle da ação (como Kingdom Hearts, por exemplo) mas adora quando a “historinha” está lá viva e clara e não te tira do controle em nenhum momento (como Portal, por exemplo). Como gamer velho, vivi as três correntes: a da não-historinha, da historinha em cgs e da historinha integrada à jogabilidade, e apóio as três! Pra tudo tem público e momento certo.

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