Start: Metroid: Other M (Wii)

Avatar BuddyPoke do autor do blogStart é uma seção recorrente deste blog com primeiras impressões de games que estou “testando”, ou ainda pensamentos um tanto vadios sobre games antigos que estou jogando novamente ou mesmo pela primeira vez. Isto é, não se trata de resenhas completas. Estas podem ou não vir depois, mas não prometo nada.

Capa de Metroid: Other M (Wii)Como seria de se imaginar, sim, estou com Metroid: Other M em casa, jogando-o (quase) sem parar. Da última vez que olhei no contador do jogo, já tinham se passado 7 horas (fora as tentativas múltiplas de passar de certos trechos, o que quer dizer que já passei pelo menos 10 horas com o game dentro do Wii).

Nesse meio tempo, li algumas resenhas. Em geral as profissionais, de sites e revistas como o GameSpotGamePro ou Edge Online, são elogiosas, e a média do game no Metacritic beira o 80. Porém, as resenhas de blogs (não o PowerUps, obviamente) e portais estão replicando algumas reclamações e críticas que… Sinceramente? Não acreditem em nenhuma. Elas parecem resultar de um ou mais dos seguintes fatores:

  1. Falta de familiaridade com qualquer sistema de controle que use menos do que 345 botões e alavancas
  2. Medo de que outras séries estabelecidas sigam o exemplo e ousem inovar pra valer
  3. Uma vontade absurda de aproveitar a chance para fazer discurso politicamente correto (no caso, pseudo-feminista)
  4. E, como sempre, o ódio ao Wii por ele ter ajudado a popularizar ainda mais os videogames

Senão, vejamos, ponto a ponto:

1. Os controles de Other M são praticamente perfeitos: responsivos, intuitivos, simples e ao mesmo tempo cheios de possibilidades

Wii Remote de ladoOpinião é opinião, e qualquer um tem o direito de preferir outros sistemas de controle ou que o game tivesse feito uso do Nunchuk. Agora, dizer que os controles de Other M têm qualquer problema técnico é simplesmente loucura, má-vontade ou mau caratismo mesmo.

Estou jogando Other M há horas e em nenhum momento sequer ele deixou de reconhecer a mudança de perspectiva para 1ª pessoa assim que viro o controle para a tela. É praticamente instantâneo, sempre. Não conheço nenhum jogo de Wii que reconheça tal movimento brusco tão rapidamente e sem errar – e isso sem o MotionPlus. O mesmo vale para levantar o controle na vertical para recarregar mísseis ou recuperar energia.

Controles de Metroid: Other M (Wii)Em nenhum momento o fato da esquiva estar mapeada para o d-pad me fez deixar de esquivar na hora certa. A ação é automática e acontece mesmo que você já esteja apertando em uma das laterais para se mover (isto é, não é preciso soltar o d-pad e apertá-lo novamente para esquivar). Também não deixei de me movimentar direito por usar o d-pad em vez de uma alavanca analógica: os aposentos de Other M são confinados a uma perspectiva lateral ou áerea/isométrica, então não há muita margem para desvios de movimentação de qualquer maneira.

Por fim, a distância do botão A, usado para que Samus se transforme na morph ball, está longe de atrapalhar; em nenhum momento você vai precisar mudar de forma bruscamente no meio da ação, então há tempo de sobra para largar o dedão do d-pad e apertar o A.

Em resumo: mesmo com todos os golpes, finalizações, formas e armas, em nenhum momento o game deixou de aplicar tudo o que tentei fazer ao apertar as combinações ensinadas no tutorial e durante o jogo. E isso tudo só com o Wii Remote na horizontal, sem nem mesmo usar o botão B. Mais minimalista, impossível. Parece uma versão bombada dos controles do Nintendinho/Master System, fazendo coisas que você nunca imaginaria em games da época.

2. O game mistura elementos, posições de câmera e jogabilidade de diversos gêneros de forma tão suave que parece impossível

Se tem uma coisa que o gamer médio raramente aceita é que games misturem gêneros ou perspectivas, apesar de alguns deles conseguirem fazê-lo de forma suave e sem sustos. Heavenly Sword é um bom exemplo, alternando entre combate com armas brancas e armas de fogo, entre 3ª pessoa com câmera fixa e 1ª pessoa pura, entre grandiosidade épica e sutileza confinada, e assim por diante.

Câmera atrás de Samus em Metroid: Other M (Wii)

Metroid: Other M também é um desses games variados e suaves. Além da movimentação lateral e da possibilidade de mudar para a 1ª pessoa ao apontar o Wii Remote para a tela, o jogo também alterna para uma visão especial em 3ª pessoa, com a câmera “seguindo” Samus em momentos climáticos ou quando ela entra em elevadores e aposentos apertados (note que não se trata exatamente de uma câmera acima-do-ombro como em Resident Evil 4; é possível ver quase toda a armadura de Samus, por exemplo, como na imagem acima).

Há um trecho em especial, na qual Samus tenta conversar com uma cientista, em que a perspectiva atrás-de-Samus se alterna algumas vezes com cenas de corte de poucos segundos cada, tudo de maneira um tanto brusca; tirando esta parte, as modificações de perspectiva nunca foram um problema nas 7 horas que joguei, tanto do ponto de vista da jogabilidade quanto do estético.

3. A nossa heroína agora é um ser de carne, osso e mente, e não um ciborgue com belos olhos azuis

Os olhos de Samus em Metroid: Other M (Wii)Sabe o que mais me incomoda nessa história de que “era melhor quando ela era uma protagonista silenciosa”? É que no fundo, isso é apologia da falta de profundidade. Samus certamente representa um marco da inclusão feminina nos games desde Metroid, pelo jogo ter desafiado muitas expectativas inconscientes do público ao só revelar no final que o protagonista era uma mulher. Porém, um personagem não é só o seu gênero.

Por mais que o papel de Samus como protagonista feminina seja importante, tal papel não pode prescindir de desenvolvimento da personagem a ponto dela se tornar um ciborgue sem emoções, sentimentos e dúvidas, exatamente como nos primeiros games da série Metroid (mais por conta das limitações da tecnologia do que por qualquer outra coisa). Ao elevar “Samus calada” ao status de algo imutável, a crítica à suposta fragilidade demonstrada pela personagem em Other M fica sob suspeita; protagonistas femininas precisam mesmo ser tão fortes e rasas quanto os equivalentes masculinos para funcionarem?

Samus e os soldados da Federação em Metroid: Other M (Wii)Pelo menos até agora, após mais ou menos metade do game, em nenhum momento Samus recuou do combate, então falta de poder bruto não é um problema. De resto, ela aceita respeitar as ordens de seu antigo comandante Adam Malkovich, sim – mas fica claro que ele é uma exceção na vida dela, um substituto para o pai que ela nunca teve. Além do mais, as principais ordens são dadas não somente a ela, mas também aos soldados subordinados a Malkovich. Pior: elas são apenas variações de “evitem usar equipamento tal, pode ser perigoso à estrutura da nave”. Ponto. Sério, é só isso. Malkovich chega a direcionar todos os presentes em uma investigação pela nave, do tipo “você vá por ali, você vá para lá”, mas convenhamos: isso é um mínimo de organização e nada mais.

Mas chama a atenção mesmo o fato de que é possível imaginar, sem muito esforço, a mesmíssima história com um protagonista masculino. Qualquer garoto que cresceu sem os pais pode muito bem projetar uma figura paterna em alguém mais velho, e não há nada de submisso nisso. Agora imagine que este garoto passou anos e anos viajando sozinho pelo espaço caçando recompensas, sem ninguém com quem conversar ou partilhar seus sentimentos, e de repente reencontrou a tal figura paterna. Porque é tão problemático que Samus respeite uma figura paterna nessa situação? Só porque ela é mulher? Resposta: não há nada de problemático nisso. Ver “submissão” nada mais é do que projetar no game um discurso politicamente correto; é corroborar um certo tipo de feminismo que tenta chamar a atenção para si a todo custo, em vez de realmente promover a igualdade entre os sexos ou a criatividade artística.

Logotipo do Team NinjaAlém disso, há uma dose razoável de avaliação pré-concebida, formada muito antes do game ter sido lançado. O Team Ninja sempre foi um alvo de acusações de machismo, e não sem razão, graças aos games paralelos da série Dead or Aliveque realmente são de uma gratuidade aborrescente-punheteira desnecessária. A questão é que, a despeito do que Team Ninja tenha feito antes ou faça agora, nada disso veio parar em Metroid. Nada vezes nada. Usar Other M de bode expiatório é tão deplorável e baixo quanto qualquer misoginia anterior do Team Ninja jamais foi, e de boas intenções o inferno está cheio. Promover caça às bruxas para uma causa nobre põe a causa em xeque e, portanto, é bastante contraproducente.

O pior é que, com isso, estas reclamações pseudo-feministas acabam advogando que uma das poucas protagonistas femininas de sucesso em videogames continue sendo tratada como inacessível. Ou seja, que o status quo das mulheres dos games continue sendo a protagonista forte, impassível e francamente irreal – ou seja, igual a uma série de protagonistas masculinos que só existem para satisfazer fantasias ególatras nerds. Se precisamos manter uma Rambo espacial sem emoções (e que, lembre-se, aparecia de biquíni no final do seu primeiro jogo) para combater a misoginia em games, estamos feitos.

4. O Wii se recusa a sumir, provando que não se trata apenas de um modismo, enquanto os controles de movimento estão se espalhando para os outros consoles

Ódio ao WiiO Wii já tem um candidato claro a game do ano, Super Mario Galaxy 2. Ainda por cima é um game do Mario produzido por Myiamoto – ou seja, é praticamente intocável na cabeça de muitos. Por mais que os gamers que se auto-intitulam “hardcore” estejam incomodados com a existência do Wii, poucos se atreveriam a criticar SMG2. Além do mais, a existência do game serve como âncora para que muitos jornalistas possam alegar serem realmente “imparciais”: “viu, eu pus SMG2 na lista de melhores do ano, não tenho nada contra o Wii”.

Agora, ter um segundo game concorrendo? Nah, aí já é demais.

O fato é que uma parcela do jornalismo gamer, assim como uma minoria do público, está extremamente incomodada com o rumo que o Wii deu à indústria – e não só por ousar fazer os gamers se mexerem, mas também por minimizar o valor dos gráficos hiperrealistas, promover inovação, e popularizar videogames ainda mais entre pessoas que não jogavam até então. Saudar mais um ótimo game para Wii e correr ainda mais riscos do console levar um prêmio de Jogo do Ano em pleno 2010, quando eles já esperavam que a suposta “modinha do Wii” teria passado? Nem pensar! Já não basta a Sony e a Microsoft ficarem correndo atrás do Wii com o Move e o tal do Kinect!?!?

Selo OFICIAL de curtiçãoTudo bem, Metroid: Other M pode não ser revolucionário nem nada. Mas, sinceramente, poucos games este ano o foram – nem mesmo Red Dead Redemption, que expandiu, potencializou e refinou a fórmula de GTA de forma fantástica, mas não exatamente inovou. Em comparação direta com outros grandes lançamentos do ano, Metroid: Other M vira candidato a game do ano, sim; mesmo que não seja o melhor, merece concorrer no mínimo pelo quesito inovação e pelo milagre de ter conseguido funcionar tão bem mesmo usando apenas um controle de NES modernizado e diversas perspectivas de câmera e de jogabilidade.

*****

Ufa. Continuarei jogando o game (apesar de ter outro para terminar e resenhar no PowerUps) e, se alguma coisa em relação à história ou à jogabilidade mudar, volto aqui e atualizo este artigo. Fiquem de olho!

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8 comentários sobre “Start: Metroid: Other M (Wii)

  1. Num ponto devo discordar do artigo – Samus, em determinado momento, sem explicação alguma , “trava” na frente de um inimigo. clone de um que ela já matou infinitas vezes, considerando a cronologia de Metroid. Esse elemento ficou mal explicado e completamente desnecessário. o clima de “draminha japonês” não ajuda muito, também. Ficou mal explicado também a suspeita de um traidor na trama, acredito que deveria ter sido mais bem amarrado.

    Tirando isso, foi uma boa diversão na semana em que o joguei – exceto naqueles momentos de “pixel hunting”, rs. 🙂

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    1. Bom, e eu devo discordar de sua discordância: para mim o motivo da “travação” é óbvio, é exatamente a surpresa por ver Ripley de volta quando ela acreditava que ele tinha sido destruído de vez – e foi mesmo, tanto que este é um clone. É a mesma surpresa que ela tem ao descobrir que ainda há metroids, que supostamente também estavam extintos.

      Quanto ao draminha “japonês”, sinceramente, não sei se entendi. O que eu vejo é um drama raso, ponto – não necessariamente “japonês”. Definitivamente, a história de Other M não é o seu forte. Só não acho justo esperar mais do que isso no primeiro jogo a apostar no drama em uma série que passou anos com uma protagonista silenciosa, especialmente quando 99,99% dos jogos que tentam incutir alguma forma de drama não fazem melhor do que isso.

      Quanto ao traidor, a subtrama relativa a ele foi construída para ser melhor compreendida em um segundo playthrough – ou pelo menos ao assistir o jogo no Theater Mode, o modo “filme” que apresenta todas as cutscenes com trechos rápidos de gameplay para resumir a história em duas horas. Ali se percebe que há momentos das cutscenes que foram feitos para funcionar no Theater Mode, e a identidade do traidor fica mais evidente.

      E esse lance do “pixel hunting” não foi das melhores soluções, embora somente dois deles sejam realmente difíceis.

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  2. Mas realmente seria uma surpresa? vamos considerar a cronologia: no primeiro metroid ela o vence pela primeira vez (primeira e segunda, considerando o “remake” do GBA onde ela derrota uma versão robotizada dele), em seguida o derrota no Prime 1; no Prime 3 ela o derrota duas vezes; aí, lá em Super Metroid , mais uma vez. Depois de quatro (ou cinco) vezes, ela vai travar no sexto confronto? Ela já enfrentou coisa DEMAIS pra dar uma de menina medrosa. acredito que mostrar ela como uma mulher corajosa não diminuiria em nada o aprofundamento da personagem que é um dos elementos mais relevantes desse jogo.

    Sobre o “draminha japonês”, não se trata de nipofobia: a trama de Other M segue vários chavões comuns a animações daquele país, por isso a expressão.

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    1. vamos considerar a cronologia: no primeiro metroid ela o vence pela primeira vez (primeira e segunda, considerando o “remake” do GBA onde ela derrota uma versão robotizada dele), em seguida o derrota no Prime 1; no Prime 3 ela o derrota duas vezes; aí, lá em Super Metroid , mais uma vez.

      E isso realmente importa? A ideia é que, neste ponto da cronologia, Samus acreditava que ele não voltaria mais – isso basta.
      Outra coisa que se esquece muito é que não dá para intuir coisas demais dos jogos iniciais por causa das limitações da tecnologia. Este foi o jogo em que decidiram explorar essa relação, enquanto nos outros não havia espaço. Não vai ser o primeiro, nem o último, e muito menos o pior caso de retrofitting em um universo narrativo.

      Ela já enfrentou coisa DEMAIS pra dar uma de menina medrosa. acredito que mostrar ela como uma mulher corajosa não diminuiria em nada o aprofundamento da personagem que é um dos elementos mais relevantes desse jogo.

      Realmente não diminui, tanto que ela É mostrada como uma mulher corajosa. Se você conseguir descobrir quem é a pessoa mais corajosa entre as 6 bilhões de pessoas no mundo agora, vai descobrir também que esta pessoa teve medo de algo na vida, em algum momento – assim como todo mundo de carne e osso. O fato da Samus ter um momento de susto e hesitação traumática não faz dela uma medrosa, e muito menos apaga tudo o que ela faz para resolver a situação em Other M. Não dá para fazer tudo o que ela faz no jogo sem ter coragem.

      Aliás, não existe nada mais corajoso do que derrotar novamente a criatura que lhe causou tal trauma, caramba! Para superar trauma é preciso ter força de vontade; já para se jogar na frente de tudo o que aparece basta ser idiota, não precisa ter coragem.

      O fato concreto é que Ridley matou a família dela quando criança, e na cena de Other M, ela recua e tem exatamente a memória deste momento. Isto não é interpretação, isso *aparece* bem explicitamente na cena, com um rápido flashback e tudo o mais. Será que o incômodo com essa a cena a ponto de ver como coisa de “menina medrosa” não tem mais a ver com a imagem que o jogador projetava em uma heroína que, até então, apareceu quase sempre como uma figura silenciosa? Eu acredito que sim. E essa perspectiva é muito oito ou oitenta – sinto muito, mas pessoas que não têm medo DE NADA são o cúmulo da falta de profundidade em uma narrativa.

      O que está doendo nos fanboys (e especialmente nas fangirls), na verdade, é que Other M escancarou para todo mundo que Samus nunca foi uma personagem muuuuuito elaborada em si mesma. Ela sempre foi uma personagem simples, e o forte das narrativas da série sempre residiu nos simbolismos e nos acontecimentos dos jogos, e não na própria personagem. Samus era pouco mais do que um ícone feminista, e graças a deus isso ruiu. Agora é torcer para aprofundarem ela mais nas próximas tentativas.

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  3. ATE Q ENFIM ACHEI ALGUEM Q COMPARTILHA A MESMA OPINIAO!!! Desde os pontos positivos e negativos, é exatamente como eu sinto o jogo tb.

    Cara, não tenho palavras para descrever o alívio que sinto agora depois de ter lido seu texto. Meus parabéns!!! E muito obrigado pelo texto, citando o site e seu nome, posso distribuí-lo?

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    1. Fala Taz!

      Colocando um link pra fonte, pode publicar à vontade. Por mim, quanto mais ele se espalhar, melhor. É um saco ver tanta gente que nem jogou este Metroid repetindo/reproduzindo o besteirol pseudo-feminista, então vamos contra-atacar. 🙂

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