Clássicos Modernos: Braid (PC/XLA/PSN)

A série Clássicos Modernos aborda jogos recentes mas que já nasceram clássicos de algum modo: talvez eles utilizem um recurso que será copiado por todo mundo, ou inovem ao quebrar um paradigma de um gênero, ou simplesmente façam tudo bem demais e se tornem inesquecíveis desde já. Enfim, são apostas minhas. Confiram daqui a alguns anos as listas de melhores games da década… Não duvido que alguns destes estejam lá, firmes e fortes ainda.

Talvez alguns de vocês achem que jogos de plataforma 2D são coisa do passado, apesar de toda a onda retrô recente e do fato deste gênero de games ter se mostrado bastante apropriado para consoles portáteis. A esta altura do campeonato, são mais de 30 anos de jogos deste gênero – e de fato,  o que realmente pode ser feito de novo em um jogo deste tipo? (Quem tem um Nintendo DS, calma – um dia chego a Scribblenauts).

As tranças temporais

Talvez alguns de vocês também pensem que relacionamentos amorosos não estão com nada. Afinal, é inevitável; uma hora, alguém dirá algo que não devia, e que o outro jamais esquecerá… E a relação estará maculada para sempre. Ou não: e se pudéssemos apagar o passado, aprender com os erros mas seguir em frente, sem mágoas?

Que catzo uma coisa tem a ver com a outra?, você pergunta. Para entender, você precisa jogar Braid – o jogo de plataforma em que você manipula o fluxo do tempo.

Sim, você entendeu bem. Braid tem todos os elementos de um jogo de plataforma clássico: “mundos” para explorar horizontalmente, plataformas aonde saltar, buracos para pular, adversários para derrotar caindo em cima deles. E, ao mesmo tempo, o jogo permite “rebobinar” o seu progresso quando necessário, entre outras formas de manipulação temporal. Isso significa que você não morre.

Esse é o nosso herói

De novo, sim, você entendeu direito. Se cair em um buraco, use o botão de “voltar no tempo” e a ação “rebobinará” (em até 8 velocidades). Basta largar o botão e o seu personagem, Tim, estará em um ponto anterior. E sim, isso quer dizer que não há vidas e nem tela de Game Over. E antes que você se pergunte “e qual a graça então?”, explico: puzzles. Braid é um jogo de plataforma, mas o foco real está nos quebra-cabeças. E obviamente, eles usam as mecânicas de manipulação do tempo.

Esses quebra-cabeças envolvem coletar peças de, bem, quebra-cabeças, daqueles de montar mesmo. (E viva a metalinguagem!) À medida que Tim avança, ele encontra tais peças nos locais mais variados possíveis. No início, é só uma questão de pular em um fosso profundo e usar a manipulação do tempo para cair na plataforma certa; à medida que o jogo avança, chegar às peças dos quebra-cabeças fica mais complicado e engenhoso. Por exemplo, certas partes e plataformas são “imunes” à manipulação do tempo, e portanto o jogador deve descobrir como exatamente usar tais partes no momento/local corretos para alcançar a peça.

Parece confuso? Em texto, realmente, fica estranho. Melhor mostrar:

Agora imagine isso aplicado a puzzles. (Ou simplesmente procure no YouTube, mas cuidado com os spoilers.)

Além da jogabilidade, Braid desafia uma série de outras coisas em termos de áudio, roteiro, visual e conceito. Em termos de roteiro, à primeira vista o jogo parece apresentar uma versão literária do velho mote dos jogos de plataforma: salve a princesa! Porém, ainda bem cedo no jogo, percebe-se que esse “resgate” se trata de uma espécie de metáfora. Ao entrar no Mundo 2 – sim, no 2; o jogo não é linear, e o mundo 1 não está disponível no começo – Tim se depara com uma espécie de antecâmara com uma série de livros, que sugerem arrependimento por algum engano ou traição que Tim causou a “ela”… Quem quer que ela seja.

Como essa tela demonstra, o visual do jogo também não é nada 8-bit, nem usual. Trata-se de uma obra de arte, sem exageros; cada mundo é de uma beleza incomparável, com um uso bastante amplo de cores e sombras e pinceladas. Além disso, as peças coletadas durante o jogo devem ser levadas a molduras em pontos específicos, onde o jogo alterna para um quebra-cabeça “normal” para que o jogador junte as peças e veja uma pintura, que por sua vez revela mais sobre o roteiro do jogo. Já o áudio combina efeitos típicos de jogos de plataforma com uma trilha sonora de música clássica, composta especialmente para o game… E que toca ao contrário quando o jogo é “rebobinado”.

Nem parece game, e sim uma pintura

Interligando toda essa orgia visual, auditiva e sensorial, está o conceito do jogo. Além de ser extremamente divertido, Braid é um jogo indie que pretende desafiar alguns conceitos atuais da indústria dos games. Por exemplo, Braid não recompensa a habilidade do jogador em pular no milissegundo correto, como muitos jogos de plataforma o faziam; afinal, se errar você sempre pode voltar no tempo, certo?

Ele também não exige que todas as peças de um mundo sejam coletadas para que você possa passar para outro. Não conseguiu descobrir como pegar aquela peça lá no alto? Sem problema, siga adiante que outros mundos se abrirão. Depois você volta àquela peça – talvez até com outra forma de manipular o tempo. Afinal, porque diabos jogos têm que ser lineares? Resposta: não têm.

Isso sem contar a viagem que a experiência como um todo proporciona, se você tiver alguma inclinação para ficar matutando sobre o significado das coisas. E se você pudesse aprender com os seus erros mas eliminar as consequências, como diz o trailer? Aliás, como vai o seu relacionamento – se tiver um – e, principalmente, a sua capacidade de perdoar e aceitar?

Tudo isso somado diz que você precisa jogar Braid de alguma maneira para sentir o drama – e, hoje em dia, está mais fácil fazê-lo. Originalmente criado como download pago do XBox Live Arcade em 2008, o game foi transportado há pouco tempo para o PC (via Steam e outros serviços) e Mac, e será lançado em breve na rede Playstation Network. Você pode baixar uma versão demo para PC no site Playgreenhouse.com (e também para Macintosh). E o melhor: o jogo tem opção de idioma português! (De Portugal, mas ora pois pois, para um jogo independente isso é fantástico!)

8 comentários sobre “Clássicos Modernos: Braid (PC/XLA/PSN)

  1. Perfeito esse jogo mesmo. Super recomendado. E está em português, o que permite a quem não sabe inglês apreciar a história. Bela resenha Fábio.

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    1. Já. Sinto dizer, mas achei um lixo completo, um jogo que representa tudo o que não suporto em nostalgia de jogos antigos – em especial, glorificar um tipo de dificuldade que exige memorização e repetição constantes.:/

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      1. hm… poxa, que pena. Gostei desse jogo. Ele me prendeu muito mais que muito blockbuster por aí. Gostei também dos personagens e o senso de humor dos desenvolvedores nas cut-scenes.

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        1. Vale dizer que joguei a demo, e portanto não vi cutscenes. Duvido que vá mudar de opinião quanto ao gameplay, mas pelo menos o todo pode me deixar com uma menor impressão de grande decepção do ano.

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