Bobagens Gamísticas – “Casual” vs. “Hardcore” #1: Nada de novo no front

(Para saber mais sobre esta série de artigos, leia o post anterior.)

O grande vilão da história?

Quando se ouve alguém resmungando que a indústria não lança mais jogos “hardcore” como antigamente, há uma boa chance de que este alguém esteja se referindo ao (ou pelo menos pensando no) Wii.  Isto inclui tanto donos de Playstations e “Xboxes” que descartam o console da Nintendo por ser menos poderoso em termos gráficos quanto donos de Wii que preferem certos tipos de jogos, que para eles não são lançados em quantidade suficiente.

Eu poderia contestar esta última parte (o que pega não é a quantidade, e sim ver certos títulos saírem para os outros consoles e não para Wii), mas este não é o ponto deste artigo. A verdadeira questão nestes resmungos é que, geralmente, eles partem do princípio de que tudo isto é culpa da “invasão” dos jogadores “casuais” atraídos ao hobby pelo lançamento do Wii há 4-5 anos, o que supostamente teria dirigido os esforços da indústria para jogos “sociais” e “para a família” desde então.

Onde está a graça? Na idéia de que jogadores “casuais” são um fenômeno recente. É de matar de rir; na verdade, jogadores ocasionais sempre existiram em grande número, inclusive antes de muitos gamers que hoje repetem essa papagaiada de “jogador hardcore” terem sequer nascido.

(O que, por sinal, põe mais lenha na fogueira acesa por David A. Hill: jogos “hardcore” são, no final das contas, aqueles voltados a um público bem específico de jovens nerds masculinos estereotipados – um público que não estava por aí jogando há 25 anos, quando consoles como o NES ou as casas de fliperama reinavam. Certos jogadores mais velhos com certeza também acabam embarcando nessa idéia, mas isso é outro problema, que tem a ver com necessidade de reconhecimento pelos mais jovens.)

A Nintendo sempre gostou de consoles com jeitão de tijolo

O fato é que o Wii está longe de ter sido o console que realmente “invadiu” cada casa de família e trouxe os video games ao grande público. Tanto é que, até cerca de três meses atrás, ele ainda não era o console doméstico mais vendido da Nintendo, mesmo após quatro anos liderando o mercado. Esta honra estava reservada ao NES (link em inglês), conhecido no Brasil como o Nintendinho e lançado no Ocidente em 1985. Isso mesmo, mil-novecentos-e-De-Volta-Para-O-Futuro!

Pense nisso por um momento. Sabemos que a indústria de games hoje é quase tão grande (em termos de dinheiro movimentado) quanto Hollywood. Ou seja, é N vezes maior do que era há 25 anos. Então, como diabos o Nintendinho vendeu tão bem naquela época? Alguém sabe me responder essa? Hein? Bueller? Bueller? OK, se ele não veio, pode ser você mesmo aí no fundão. Ah, isso mesmo, na mosca: há diversos fatores, mas em grande parte, o NES alcançou o feito de quase 62 milhões de consoles vendidos por ser voltado a todos, e não somente àqueles que já jogavam video games. Ele até mesmo já contava com controles “alternativos”, como por exemplo uma pistola, que era obviamente voltada a novos públicos e não somente àqueles doidos que conseguiam terminar Metroid em menos de 30 minutos (link em inglês).

Você tem 20 minutos ou este jogo se autodestruirá

Aqueles que prestaram atenção na aula de História dos Games provavelmente estão pensando neste momento: “ah, mas é claro que o Nintendinho vendeu tão bem – ele não teve competidores fortes no Ocidente por pelo menos dois anos!”. E estão certos, este foi um dos fatores. Mas além de não invalidar o público-alvo a quem o console se destinava, este fator ainda nos leva a outra lição de história importante: a Nintendo não teve concorrentes fortes porque era uma das poucas empresas que realmente acreditavam no potencial dos video games naquela época. Ou seja, nem sinal da Sony ou da Microsoft (que tinha o MSX, mas este era um computador pessoal que as pessoas usavam para jogos, e não um console).  E por que elas não estavam no páreo? Porque não sabiam ainda que dava para lucrar muito com games. Só quando o Nintendinho e seus competidores/sucessores (especialmente da Sega) mostraram que havia muito dinheiro a ser ganho é que a Sony e a MS pularam no barco, respectivamente 9 e 16 anos depois.

Quer dizer então que… Se você ama o seu Playstation ou seu Xbox, saiba que a sua jogatina “hardcore” só é possível hoje em dia porque, para começo de conversa, a Nintendo se preocupou em levar os video games a uma audiência maior no passado. Senão, é provável que estivéssemos jogando games de 8 ou 16 bits até hoje. (O que pode parecer divertido, mas vamos ser honestos: é melhor curtir nostalgia enquanto se tem opções do que ficar só no passado.)

"Uma forma mais amigável de dizer 'virgem aos 37'"

A noção de que a jogatina “casual” é um fenômeno recente seria divertida se não fosse trágica. A indústria sempre trabalhou com a lógica de trazer mais e mais pessoas ao mundo do aperto de botões em frente à TV, e isso praticamente não mudou. Claro, a escala da base instalada é um pouco maior (e mesmo assim não tão maior quanto se poderia imaginar, quando se olha para as vendas do velho Nintendinho). A única coisa que é realmente nova é a arrogância de adolescentes (em idade ou atividade mental) que se consideram especiais por conseguirem matar o seu personagem 1,000 vezes por segundo em um jogo multiplayer, ou por jogarem games com sangue e tripas. Isso sem contar o fato de que, nos tempos atuais, eles têm uma plataforma mundial disponível para arrotar os seus “feitos”; você deve ter ouvido falar dela já – é conhecida como “a Internet”.

Os fliperamas eram os "jogos sociais" da época

Outra coisa engraçada é que o tipo de jogador que se intitula “hardcore” por jogar “até os dedos caírem” costumava se destacar na era dos fliperamas, em vez de reclamar “daqueles outros” que jogavam ocasionalmente. Sim, muita gente jogava fliperama apenas de vez em quando (basta checar qualquer filme para adolescentes dos anos 80!). Naquela época, aqueles que “zeravam” um certo game geralmente atuavam como uma espécie de reis esclarecidos; eles incentivavam mais pessoas a jogar (e gastar dinheiro com fichas) ao mostrar aos novatos os truques de cada jogo. Assim, o mercado continuava forte, e jogos novos saíam com tanta frequência que a idéia de um console doméstico tomou corpo… E virou realidade.

E o que mudou então na atitude dos jogadores mais “viciados”? Na verdade, a atitude geral não mudou; a maioria das pessoas que jogam games com frequência não se preocupam realmente em medir o quão “hardcore” elas são. Isso é coisa de uma minoria que parece mais representativa dos “verdadeiros gamers” do que realmente é – e isso graças à Internet, onde o tom e o volume do resmungo faz parecer que tem mais gente resmungando. Com isso, essa noção de “hardcore” tomou um corpo muito maior do que a realidade dos video games. Mas isso é o assunto do próximo artigo na série: a comunidade “hardcore” é bem menor do que ela pensa que é. Salve seu jogo e aguarde o carregamento do próximo capítulo/mapa/missão!

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